O Chefe que fala pelo cliente snob
Vítor Sobral é um homem de palato afiado. Bem à medida da sua paixão culinária. É na cozinha que recria a sua arte e a verte em cada prato que confecciona no restaurante Terreiro do Paço, em Lisboa, ou nas ementas gastronómicas para os passageiros da classe executiva dos voos da TAP.
Acérrimo defensor da tradição e dos paladares portugueses, o cozinheiro de 40 anos emprestou a sua voz ao suculento filme de animação ‘Ratatui’, criado pela Pixar e realizado por Brad Bird, com estreia marcada para dia 15.
“A minha personagem é um tipo meio snob, meio nariz empinado que pede sugestões ao chefe”, revela-nos, divertido. “Aliás, esse é um tipo de comportamento que já acontece algumas vezes. Felizmente, várias vezes”, reforça. “O que se passa no filme é que os clientes habituées não querem nada que esteja no menu, pois já o conhecem bem. Querem coisas diferentes”. “Coisas diferentes” é mesmo o que gosta de confeccionar, já que Sobral orgulha-se de apenas cozinhar “criações” suas.
Realmente, este terá sido um daqueles “convites que não se podem recusar”, admitiu Vítor Sobral. Como a ideia era estender o convite às figuras de proa da cozinha internacional, tornou-se igualmente incontornável a presença do chefe catalão Ferrá Adrià, um dos cozinheiros mais conhecidos do Mundo e “seguramente, o chefe mais mediático, do momento em termos de comida gastronómica”, completa o colega luso. Apesar dos estilos serem diferentes, o português não poupa elogios às criações de Adrià: “No estilo dele, é, sem dúvida, o melhor; como cozinheiro de surpresa que trouxe uma animação à cozinha é também o melhor”.
O CAMINHO PARA A COZINHA
Vítor Sobral nasceu muito cedo para a cozinha, seguindo, aliás, diversos membros da sua família alentejana, da zona de Melides. É essa a sua imagem de marca – a cozinha tradicional portuguesa, devidamente temperada com as especiarias e as ervas alentejanas. Ainda que admita influências de outras culturas, “sobretudo das ex-colónias”.
Sempre à procura de novos paladares, é natural que um cozinheiro tenha dificuldade em não se deixar cair em tentação quando confecciona com tantos verdadeiros pitéus. “Tenho vontade de os comer, também”, confessa. “Essa história de quem faz a comida não tem vontade de a comer é mentira. Pela experiência que tenho, quem cozinha melhor é quem gosta de comer.” Lá está, é a velha máxima de que a experiência alimenta o engenho. Que no caso de Vítor Sobral passa muito pelos condimentos, pelo sal, pelo picante… “Se cozinhasse à minha medida havia muitas pessoas que não podiam comer aquilo que faço”, diz. “Acho que já tenho o paladar num estádio que é preciso passar por lá. O paladar é uma coisa evolutiva. Para chegarmos lá temos de ser surpreendidos e educados nesse sentido.”
'RATATUI' VAI SER INIMIGO NÚMERO UM DAS CADEIAS DE FAST-FOOD?
Depois de dar vida ao Mundo dos brinquedos em ‘Toy Story’, de recriar um Mundo familiar debaixo de água, em ‘À Procura de Nemo’, de revisitar o universo dos super-heróis, em ‘Os Incríveis’ ou, mais recentemente, dar vida a automóveis, em ‘Carros’, a Pixar, adquirida pela Disney, em 2006, por 7,4 biliões de dólares, procura agora sugestionar o universo infantil pelo bom gosto culinário. É por essas e por outras que Sobral entende que ‘Ratatui’ poderá tornar-se num “inimigo” das cadeias de fast food. “O filme vai despertar as crianças para outras realidades gastronómicas”, defende. Será? Será que resistem ao poder do marketing normalmente associado à promoção destes filmes? Enquanto esperamos para ver, não resistimos em questionar Vítor Sobral sobre a sua experiência McDonald’s. “É lógico que já fui”, responde a sorrir, e esclarece “mas se vou lá é para sobreviver e como sobrevivente sei defender-me. Embora o McDonald’s tenha melhorado muito nos últimos anos”.
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