O coração deste poeta é árabe

É advogado e poeta mas foi a aposta na divulgação da cultura árabe que o fez ser agora distinguido pela UNESCO. O fascínio de Adalberto Alves pelo Oriente começou cedo, ao lado da mãe, no cinema.

19 de outubro de 2008 às 00:00
O coração deste poeta é árabe Foto: Jorge Paula
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Foi no cinema que se apaixonou pela primeira vez. Tinha seis anos. O responsável pelo encantamento foi o ‘Ladrão de Bagdade’, filme adaptado do livro ‘As Mil e uma Noites’, que viu ao lado da mãe, uma cinéfila convicta que desde cedo o entusiasmou para a 7.ª arte. Foi aí que a cultura árabe entrou na vida de Adalberto Alves para não mais voltar a sair – apesar da tenra idade, o amor não foi fugaz ou platónico.

O enamoramento tem-se concretizado. E já foi reconhecido – o advogado e poeta português acaba de receber o prémio Sharjah 2008, atribuído pela UNESCO [ver caixa]. Muito por que, 63 anos volvidos, o fascínio permanece. E, como qualquer amor que quer continuar no tempo, tem sido regado com frequência.

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'O facto de a minha família da parte da mãe ser do Alentejo e do Algarve, onde a presença árabe está muito marcada, talvez também tenha contribuído para o meu fascínio pelo Oriente', diz, assegurando a dificuldade de encontrar uma única explicação. Mas sabe, no entanto, precisar o dia em que a paixão deu lugar ao amor maduro: quando pela primeira vez pisou Marrocos, o primeiro país árabe que conheceu. Foi em 1967 que o advogado se fez à estrada, com a mulher e um casal amigo, rumo ao sonho antigo do Oriente.

'Metemo-nos no automóvel e fomos até ao deserto. Correspondeu às expectativas, tanto que não passa um ano sem que eu lá volte'. Para lazer, muitas vezes, ou como convidado de conferências e palestras. Até porque, como a escrita também o move, Adalberto Alves tem escrito – literalmente – a cultura árabe. Dos mais de 30 livros já publicados – fundamentalmente ensaios e poesia – a maioria é sobre o tal gosto que começou cedo, aos seis anos, no ‘escurinho do cinema’.

Foi aos 13 anos que começou a escrever versos sobre a sua 'mundividência', sem nunca ter ambicionado fazer carreira. 'Talvez por falta de confiança', assume sem pudor o galardoado pela UNESCO. Trilhou caminho na advocacia – na área do Direito Comercial – mas não parou de passar para o papel o que a alma lhe ditava. Principalmente o Oriente.

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'Não somos nós que escrevemos, é a escrita que nos escreve'. E se lhe falam em missão, hesita. 'Talvez seja a minha, sim. Quero servir-me da ponte entre a cultura árabe e a portuguesa como um modelo de diálogo e de fraternidade entre os povos. Se temos todos uma missão a cumprir esta pode bem ser a minha'. Negócio fechado.

PRÉMIO SHARJAH É DELE

O prémio Sharjah 2008, criado pela UNESCO, foi atribuído ao advogado pela contribuição que deu ao desenvolvimento, difusão e promoção da cultura árabe. “Penso que o prémio foi atribuído em função da penetração da minha obra a nível nacional e internacional”, explica, lembrando “os filmes que já foram feitos no Brasil e em Espanha a partir dos meus livros”. Para Adalberto é simples: “tenho feito por vender o meu peixe cultural em todo o Mundo, inclusive aos países árabes”. Claro que, adianta, não escreve para ganhar prémios mas lá que sabem bem... “sabem”. Tem sabor de estímulo, ola fundamental para continuar a acreditar que vale a pena.

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QUESTIONÁRIO

Um país... Portugal

Uma pessoa... A mãe

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Um livro... Alcorão

Uma música...  ‘Claire de Lune’, de Debussy

Um lema... Não esperes nada da vida

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Um clube... Belenenses

Um prato... Gaspacho

Um filme... ‘Casablanca’

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