O defesa que deixou Ronaldo passar
O melhor futebolista do Mundo só foi para o Sporting porque o Nacional queria ficar com Pedro Franco, formado em Alvalade.
Pedro Franco nunca foi campeão nacional, não voltou a um grande depois de sair dos juniores do Sporting, nem chegou a internacional por Portugal. Apesar disso, o ex-defesa-central, de 39 anos, teve o que ele chama "uma carreira bonita", com subidas de divisão, um ano no futebol asiático e um papel decisivo na chegada a Alvalade de um madeirense de 12 anos. Aquele que recebeu a segunda Bola de Ouro na segunda-feira.
"Costumo dizer, meio a brincar meio a sério, com muita ou pouca vaidade, que fui eu quem foi buscar o Cristiano Ronaldo", afirmou à Domingo, dias antes de o avançado do Real Madrid ser eleito o melhor futebolista de 2013. Em causa estava a dívida do Nacional da Madeira ao Sporting, relativa aos 25 mil euros de direitos de formação de Franco, e saldada com a transferência do filho do casal Aveiro.
O defesa-central era então um sénior de 21 anos, e nem chegou a aperceber-se de quem era o rapaz que impressionara Aurélio Pereira, o mago da prospeção de talentos do Sporting. "Quem me queria era o presidente e o treinador do Nacional, não era o presidente do Sporting a querer o Cristiano. Não fui a moeda de troca do Cristiano, ele é que foi a moeda de troca do Franco", sentencia.
Certo é que Ronaldo resistiu às saudades da família, e todos assombrou, ano após ano, até que Laszlo Bölöni, que conduzira o Sporting ao título, apostou no jovem extremo para a época de 2002/2003. Ao contrário de Ricardo Quaresma, o madeirense não foi campeão à primeira tentativa, o que talvez conseguisse na época seguinte, não fosse a sua exibição no jogo inaugural do Estádio de Alvalade ‘forçar' o Manchester United a levá-lo.
Em 2002/2003, Franco também equipava de verde-e-branco, mas estava no Rio Ave, a lutar pela subida à primeira divisão - conseguiu-o, terminando a Liga de Honra em primeiro -, pelo que nunca pôde enfrentar Cristiano. E admite que não teria uma estratégia preparada para defender a baliza das suas investidas: "Ou se pára à ‘porrada', ou não se pára. No um contra um é um pesadelo. Ainda não vi uma equipa a jogar um contra um com ele. Deus deu-lhe o que não deu a mais ninguém."
BENFIQUISTA EM ALVALADE
Foi a força que valeu a Franco. Mental e de vontade, trunfos de quem "tinha um sonho muito grande de ser jogador de futebol e concretizou-o". A ida para o Sporting deve-a a um amigo, cujo avô, agricultor de Almargem do Bispo, vendia em Lisboa e levou o neto a fazer testes em Alvalade. Este gostou e perguntou ao amigo se queria ir no dia seguinte. "Como miúdo de sete ou oito anos que era, levei na brincadeira. Os meus pais torceram um bocado o nariz, mas não se opuseram, e lá fui."
Destacou-se entre 500 crianças, que os treinadores César Nascimento e Osvaldo Silva reduziram a 40 em duas semanas, até ficar no lote final de 20. Fizeram de si defesa, pois "dava garantias de desarmar os adversários". Foi das escolas aos juvenis, com Andrade (que fez dupla de centrais com ele, lembrando-o como "sempre alegre, muito divertido, bom colega e, claro, bom jogador"), Poejo e Porfírio, convocados para o Mundial de sub-20 de 1993, no qual Portugal falhou o terceiro título consecutivo.
Chegado a júnior, emprestaram-no ao Estrela da Amadora, e no ano seguinte aceitou o convite de Bastos Lopes, treinador do Odivelas. A terceira divisão podia ser um recuo, mas chegou aos seniores um ano mais cedo, e foi campeão nacional. Nunca voltou ao Sporting, onde "antes de se ensinar a ser jogador, ensina-se o que é ser homem", mas está grato à sua "escola de vida", apesar de ser um benfiquista "não fanático". Ao ponto de desejar que a equipa de Leonardo Jardim vença a Liga.
O passo seguinte devia ser o Torreense, mas Rui Mâncio foi treinar o Nacional e levou-o. "Cheguei à Madeira muito jovem e houve disparates que se fizeram", admite Franco, embora isso não o tenha impedido de iniciar "uma caminhada gigantesca". Seu colega na segunda época (e depois no Maia), o ex-benfiquista Fernando Aguiar, agora com 41 anos, recorda um central "duro e bom nas bolas paradas", "descontraído" e "de brincadeiras" no balneário.
A estreia na primeira divisão chegou em 1996/1997, quando tinha 22 anos, no Leça, onde jogou com Ricardo Carvalho. Tinha a confiança do treinador Rodolfo Reis, mas uma pubalgia travou-o. Emprestado ao Maia, que quase eliminou o FC Porto da Taça de Portugal, voltou a um clube em que o "defendiam até à morte". Ainda hoje vive em Leça da Palmeira, perto do Porto, e frequenta o estádio.
DO RIO AVE PARA SEUL
A "enorme oportunidade" de voltar à Liga fez com que fosse para o Rio Ave em 2002/2003. "Todos os jogadores tinham a noção de que era importantíssimo subirmos de divisão e que seria um crime não conseguirmos." Foram campeões, e no ano seguinte chegaram à sétima posição na Liga, à beira do acesso à UEFA. Franco fez 34 jogos, e marcou dois golos, num ano em que o seu treinador, Carlos Brito, perdeu a mulher, vítima de cancro, e ficou com dois filhos a cargo. "Isso uniu-nos ainda mais. Em casa, nunca perdíamos. Conseguíamos dar força uns aos outros", diz o ex-futebolista.
Manteve o nível no ano seguinte: cinco golos em 25 jogos, decisivos para o oitavo lugar do clube. Tinha 30 anos, e "uma possibilidade mínima" de chegar a um grande, quando chegou a Vila do Conde um enviado do FC Seul, detido pela LG. Era uma oferta que não podia recusar, pois o ano que passou na Coreia do Sul correspondeu a vários em Portugal, auferindo 10 mil euros mensais só em prémios de jogo.
Vivia com a mulher e os dois filhos, de quatro e dois anos, no "32º ou 33º andar" de um prédio de Seul, mas pouco os via, pois jogava à quarta-feira e ao domingo, com estágios nas vésperas. Apesar de ter o compatriota Ricardo Nascimento (ex-Rio Ave) e dois colegas brasileiros, dois membros da equipa técnica da mesma nacionalidade e um intérprete, sentiu a barreira da língua: "A comunicação é muito importante para os defesas. E o inglês era difícil. Uns por não saberem e outros por não quererem. Achavam que estavam na terra deles e que devíamos falar coreano."
Jogava no estádio da final do Mundial da Coreia do Sul e Japão, com um mínimo de 30 mil pessoas nas bancadas, que às vezes chegavam a 100 mil, apesar de o basebol ser o desporto nacional. Mas recusou que o FC Seul lhe reduzisse o salário, e deixou de ser convocado. Ainda teve um convite de outro clube, "que ficava onde o sol se esconde, perto da Coreia do Norte". Preferiu sair. "Não ganhei mundos e fundos, mas tenho para uma vida estável. Como somos pessoas responsáveis, e pensamos naquilo que fazemos, temos o suficiente", garante.
Voltou à I Liga, na Naval 1º de Maio, ajudou o V. Guimarães a subir, ficando triste por não ter lugar no ano seguinte, "após tanto sacrifício". Seguiram-se Penafiel, Moreirense e Vila Meã, "para não engordar, mas os sócios convidavam-nos para jantar". Terminou em 2010, aos 36 anos, e desde então teve a experiência de treinar o ‘seu' Leça e foi adjunto de Gouveia no renascido Salgueiros 08, sofrendo uma ‘chicotada psicológica'.
Mais depressa espera um convite de outro clube do que um telefonema de Cristiano Ronaldo. "Tenho pena de nunca ter tido uma camisola dele. Se fosse ao contrário, teria o prazer de lhe dar uma, de lembrança", diz, sublinhando: "Não fiz dele nada, ele é o que é por ele."
CAIXA: "CHORE A MÃE DO OUTRO, E NÃO A MINHA"
O forte de Franco eram os lances de bola parada, a defender ou a atacar, mas ser central de marcação levou-o a travar muitos duelos com os principais pontas de lança do futebol nacional. "Sempre fui leal, mas com muita malandrice. Usava a expressão: ‘Se alguém tiver de chorar, que chore a mãe do outro e não a minha'", recorda, assegurando que só se lembra de ter magoado dois adversários - um deles de propósito, após ter "ficado cego" ao levar uma cuspidela.
Tinha o hábito de passar os jogos a falar com os avançados, para que "não estivessem tão atentos". Alguns não gostavam. "O Jardel detestava que eu falasse com ele, e passava o tempo inteiro a massacrá-lo", diz o ex-futebolista, para quem o brasileiro "era um caso à parte, pois uma bola de cabeça era golo". No entanto, prefere destacar Nuno Gomes ("o melhor a movimentar-se na grande área") e João Vieira Pinto ("nunca sabíamos se ele ia pela direita ou pela esquerda").
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt