O fado das casas manchadas pelo crime

Poucos querem as casas que contam histórias de tragédia. Há quem as compre por um valor irrisório e desista de as habitar.

16 de setembro de 2012 às 15:00
Cenas de crime, Mortes violentas, Imobiliárias, Rei Ghob, Homicídio Foto: Sérgio Lemos
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A casa da Margarida é alegre e colorida. Tem flores pintadas nas paredes e luz natural a entrar pelas janelas. Nada indicia o terror que ali se viveu em Junho e que ainda hoje impede esta mulher de 36 anos, mãe de cinco filhos, de abrir a porta com naturalidade.

"Custa-me. Olho para ali e sinto receio", diz ao apontar a entrada de casa onde foi agredida com 18 facadas pelo ex-companheiro, que estava proibido pelo tribunal de se aproximar da família.

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Margarida Cardoso, desempregada antes e depois da agressão, esteve em coma. O agressor está preso. Ela recuperou após ter passado o Verão em casa da mãe, em Baião, e há poucas semanas voltou para tentar refazer a vida no local do crime, na rua da Biologia, Montijo. Contudo, não sabe se fica por muito mais tempo.

"É difícil. Mesmo com os vizinhos há uma sensação de desconforto. Uns dão apoio, mas outros olham-nos com desconfiança ou curiosidade. Depois do que passei, custa voltar à normalidade. Quando abro a porta, imagino sempre uma sombra. A imagem dele ali com a faca não me sai da cabeça."

MENOS VALOR NO MERCADO

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Marcadas pelo estigma da cena que presenciaram, as casas onde ocorreram crimes violentos raramente voltam a ser ocupadas. Há quem tema "os fantasmas" e quem evite ser colado a uma tragédia hedionda.

"A história de um imóvel pesa sempre e um crime contribui para diminuir o seu valor", garante Luís Lima, presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal, APEMIP. Apesar de reconhecer que muitas casas encerram cenas mais ou menos secretas e que nada obriga os vendedores a revelarem o ocorrido, "quando o caso é público, o comprador pode ficar tentado a oferecer um valor abaixo do mercado. Não quer dizer que esses imóveis não se vendam, mas há sempre grande dificuldade".

No entanto, "até por esse factor preço, surgem sempre pessoas para tudo", garante um agente imobiliário que seguiu de perto a venda de uma casa manchada de sangue.

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FAMÍLIA ABATIDA A TIRO

As paredes pintadas de branco e o azulejo que indica ‘vivenda Varela’ pouco dizem sobre o drama que encerram as quatro paredes do nº 170 da rua de Coimbra, também no Montijo.

Tudo corria tranquilo naquela zona até 2007, quando Adelino Freire, construtor civil de 46 anos, agarrou na caçadeira e disparou mortalmente sobre a mulher e as duas filhas, de 11 e 21 anos, suicidando-se de seguida.

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Dizem na terra que foi a falência do construtor, tido como pessoa afável, que assinou a obra macabra daquele dia, mas o que se passou de seguida levanta o véu do ‘inexplicável’.

"Logo depois, o pai do construtor, que com ele mantinha negócios, colocou a casa à venda e esta foi comprada por um casal de emigrantes, que ainda a mantém", conta o vendedor imobiliário, que pediu anonimato. O preço baixo e a qualidade da construção indiciavam um bom negócio, no qual a família investiu as poupanças de uma vida de trabalho em França. O que ninguém esperava era a "tragédia que veio depois", revelam os vizinhos, "quando o filho desse casal também se suicidou, em França".

CASA DE BEJA

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Conhecida pela casa dos horrores, o primeiro andar do nº 15 da rua de Moçambique, em Beja, onde, em Fevereiro, Francisco Esperança matou à catanada a mulher, Benvinda, 52 anos, a filha, Cátia, de 28, e a neta, Maria, de 4, continua por habitar.

Poucos serão os familiares e particulares interessados nos bens do antigo bancário, que se suicidou na cadeia dois dias depois de ter sido detido. Em Julho, a casa chegou a apresentar sinais de abandono. O portão trancado a cadeado, os estores fechados e as ervas daninhas a ‘esconder’ a carrinha de Francisco Esperança, estacionada no quintal, indicavam o desinteresse pelo imóvel. Dois meses depois, as ervas foram arrancadas, a viatura removida do local e uma da janelas aberta.

"Há algumas movimentações no prédio, mas não parece que tenha sido vendida. Quem quer um casa onde aconteceu uma tragédia daquelas?", questiona um vizinho. A Domingo tentou obter um esclarecimento de familiares, mas sem sucesso.

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TRISTES MEMÓRIAS

No sofá da sala do apartamento da rua Aquilino Ribeiro, em São Mamede de Infesta, João Cerqueira Pinto estrangulou a filha Maria João, de sete anos, até à morte. Ainda a abraçou e ouviu a menina dizer que o amava antes de cometer o crime. Foi a 28 de Maio de 2009 e o homicida, de 45 anos, suicidou-se um ano e meio depois na cadeia, após ter sido condenado a 16 anos de prisão. O apartamento onde o crime ocorreu está ao abandono. Actualmente pertence ao banco, que o pretende vender, mas não apareceram interessados para residir na casa onde a menina foi morta.

"Sabemos só que o banco ficou com a casa e que está a tentar vendê-la. Mas nunca vimos ninguém no apartamento. Os vizinhos não esquecem o que aconteceu e dificilmente devem encontrar alguém que aceite morar numa casa onde ocorreu algo tão trágico", conta João Reis, dono de um café na zona.

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Em Arcozelo, Vila Nova de Gaia, a casa onde outrora Anabela Batalha, professora de 44 anos, foi feliz está vazia. Foi assassinada a 15 de Julho de 2010 e o marido, José Baptista, está actualmente a cumprir pena de 21 anos de cadeia. Os três filhos, de 10, 12 e 18 anos, nunca mais quiseram ficar na moradia onde a família ficou destruída. Foram residir com familiares e a casa também foi posta à venda.

"Os meninos evitam entrar. Lembram-se sempre que foi ali, entre aquelas paredes, que a mãe foi esfaqueada. Chegou a ter uma placa a dizer ‘vende-se’, mas entretanto tiraram porque não aparecia ninguém. Sei que não mudaram de ideias, mas é complicado", diz uma vizinha.

CASTELO DO ‘REI GHOB'

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Se é certo que existe sempre um estigma associado ao crime, também é verdade que "a forma como se vivenciam essas experiências depende da personalidade individual e da própria sociedade", diz o psicólogo Abílio Oliveira.

"O peso psicológico é grande, mas a ficção também alimenta esses mitos", frisa. "Recordo--me do filme ‘Poltergeist’, em que havia a história de terem construído casas em cima de um cemitério, sem que as pessoas que foram para lá viver tivessem conhecimento disso."

Enfeitado com ameias, gnomos e outras estatuetas exóticas, o castelo do ‘Rei Ghob’, na Carqueja, Lourinhã, foi erguido sobre um curral, pertença dos bisavós de Francisco José Leitão. O mesmo que em 2011 foi acusado do homicídio de três jovens e um idoso, conhecido na terra por ‘Mata Lagartos’, e que confessou ter-se inspirado no filme ‘Citizen Kane’ para ali fazer o seu ‘Xanadu’.

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Dina Leitão, irmã de ‘Ghob’, manteve-se até Janeiro na casa onde, segundo habitantes da zona, havia orgias sexuais até de madrugada. "Agora aquilo está ao abandono. Ela foi viver para perto com o companheiro e os outros irmãos não querem saber daquilo", conta a funcionária de uma das muitas lojas de mármores que existem nas redondezas. Desde o Verão passado, também há menos romarias à casa do ‘Rei Ghob’.

SEM CONSTRANGIMENTOS

Na Quinta do Infantado, em Loures, a casa onde, em Março último, um homem matou a ex-companheira e o enteado de 22 anos já está habitada. "A casa era da irmã e foi logo ocupada. Penso que está alugada e quem lá vive não mostra sinais de desconforto", diz um vizinho, que mora apenas dois andares abaixo do local do crime.

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A boa vizinhança paira na memória de quem morava paredes-meias com Manuel que, em 2011, se tentou envenenar, após ter assassinado a mulher à facada. A casa de Vale de Milhaços (Seixal), pintada de branco, e o jardim aparado pelos dois filhos aguardam que cumpra pena. "Era bom homem, aquilo são horas que acontecem", dizem os vizinhos, que lamentam a triste sina do reformado, confrontado com a loucura da mulher.

"Muitas vezes, as pessoas tentam que o caso não as afecte e, mesmo que sintam algum desconforto, existirá sempre uma hesitação entre saber quanto custa a casa, a sua localização e o que aconteceu ali", diz o psicólogo Abílio Oliveira.

À espera de um bom inquilino está o terceiro andar da avenida António Augusto Aguiar, onde em 2007 a socialite Maria das Dores mandou matar o marido. O imóvel de oito assoalhadas foi logo "alugado para uma empresa de serviços", conta a porteira do prédio. "Agora está novamente para arrendar. É uma casa muito boa, grande."

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CASA DE MADDIE RENDE 200 EUROS POR NOITE

Foi uma das casas mais mediáticas, em 2007, e cinco anos depois do desaparecimento de Madeleine McCann, o apartamento 5A, no pacato aldeamento Ocean Club, na Praia da Luz, Lagos, continua a ser arrendado a turistas. A criança estava a dormir no T2 e, até hoje, a Polícia Judiciária nunca concluiu o que realmente aconteceu na noite de 3 de Maio: morte acidental ou rapto.

Após peritagens policiais, a proprietária tentou vender o misterioso apartamento. Pedia cerca de 300 mil euros, mas teve de desistir porque ninguém o quis comprar. Voltou a ser arrendado à semana. Durante o mês de Agosto, ao que a Domingo apurou, o preço está fixado em 200 euros por noite.

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"A maioria dos clientes são britânicos, principalmente famílias", confidenciou uma fonte do empreendimento algarvio. "Os turistas que arrendam são avisados que foi ali que desapareceu a criança e até agora ninguém recusou", assegurou a mesma fonte.

NOTAS

LEILÕES

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Um casal comprou em leilão a casa de Vale de Ílhavo, penhorada pelo banco em 1999 após ‘Tó-Jó’ ter morto os pais.

ABANDONO

Em S. Marcos, Cacém, a casa onde João Canto decapitou a mãe nunca voltou a ser habitada.

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ALDEIA

Em 2005, Augusto Real, 60 anos, matou a mulher e dois vizinhos. Restaram três habitantes na aldeia de S. Xisto, Douro.

CIDADES

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No meio urbano, onde existe maior despersonalização e as pessoas não se conhecem, é mais fácil superar, dizem psicólogos.

CRISE

A crise que assola o sector imobiliário afasta ainda mais do mercado as casas onde ocorreram crimes.

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75 MILHÕES

Em 2011 houve transacções imobiliárias de apenas 75 milhões: o valor mais baixo dos últimos dez anos.

ARRENDAR

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O arrendamento é uma oportunidade para estas casas que encerram cenas macabras, dizem os agentes imobiliários.

IMAGINÁRIO

Em países como Reino Unido e EUA há viagens turísticas pelas casas onde ocorreram crimes, muitos deles com séculos.

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