O ‘Frankenstein’ do século XXI

Enquanto os ‘Bond’ são um conflito de egos, os ‘Bourne’ são competição de inteligências

18 de abril de 2010 às 00:00
O ‘Frankenstein’ do século XXI
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Hollywood criou, nos anos sessenta e setenta, os anti-heróis. Os amorais representados por Clint Eastwood (‘O Homem sem Nome’ e ‘Dirty Harry’) ou ‘James Bond’, o misógino com ordens reais para matar. Mais tarde, surgiram os heróis tipo Harrison Ford (‘Indiana Jones’, ‘Guerra das Estrelas’) ou Mel Gibson (‘Mad Max’ e ‘Arma Mortífera’): auto-irónicos, aparentemente cínicos mas (quase sempre) impolutos. Na década zero irrompeu ‘Jason Bourne’ (Matt Damon) o anti-anti-anti-herói.

Género Bin Laden, foi criado pelo sistema mas voltou-se contra ele. E é o seu maior pesadelo. Treinado pela CIA, ‘Bourne’ é letal, infalível, sem memória (como parece ser obsessão do início do século), e quer vingar-se do seu arquitecto.

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Esta vítima-carrasco é uma projecção de uma fantasia masculina. Mas também do poder dos EUA, ou das suas sobras após o 11 de Setembro. A trilogia ‘Bourne’ retrata a insistente desconfiança governamental dos cidadãos. E vice-versa. Daí que estes filmes de acção ímpares girem num mundo (o nosso) de videovigilância versus anonimato no espaço público e segurança versus liberdade.

Este ‘JB’ faz o outro ‘JB’ coetâneo, ‘Jack Bauer’, parecer caguinchas e o ‘JB’ do século XX, ‘James Bond’, um pavão. ‘Bourne’ não visita casinos ou ilhas paradisíacas. Só metros, terraços, túneis... Não viaja em Aston Martins, nem engata modelos. Anda de comboio ou pequenos carros e é um romântico. Enquanto os ‘Bond’ são um conflito de egos, os ‘Bourne’ são competição de inteligências.

Enfim, ele é o semideus sem passado mas com a consciência que o público queria no meio da escalada de violência que marcou o início da década. É o cidadão do mundo que atravessa fronteiras como se fossem passadeiras e fala todas as línguas, permanecendo estrangeiro em qualquer solo. O seu tempo, espaço, identidade são estilhaçados. ‘Bourne’ é, definitivamente, o herói para as contemporâneas e globalizadas ansiedade e fragmentação.

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FICHA

Títulos: ‘Identidade Desconhecida’ (2002) , ‘Supremacia’ (2004) e ‘O Ultimato Bourne’ (2007)

Realizador: Paul Greengrass e Doug Liman

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Intérprete: Matt Damon

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