O grande filme da Tobis
O que sobra em dívidas falta em trabalho nos estúdios que lançaram o cinema português
Espartilhados entre prédios de habitação numa das zonas mais valorizadas do Lumiar, em Lisboa, os laboratórios da Tobis esperam que a privatização lhes trace novo rumo. O sofisticado equipamento digital ganha pó, os metros de película recordam o tempo em que “o filme era tratado com carinho” e os profissionais experientes na pós-produção e restauro aguardam encomendas de trabalho que teimam em não chegar. São mais de 50 pessoas que recebem os ordenados com atraso enquanto desfiam a história ‘moribunda’ do espaço que lançou a alta comédia portuguesa. Mas o cinema, tal como o Mundo, mudou. O digital tomou conta do mercado e a concorrência cresceu. Uns acreditam na reconversão da Tobis; outros nem tanto.
“Todos os filmes feitos na época dos realizadores António Lopes Ribeiro e Artur Duarte”, com actores como António Silva e Beatriz Costa, “é que mantinham a Tobis de pé. Mas foi sempre uma empresa cinzenta, nunca teve grande esplendor e, em determinada altura, serviu também para veicular a política do governo, com a produção de documentários e peças de noticiário, as famosas ‘Imagens de Portugal’, que eram sempre acompanhadas de perto pelo SNI (Serviço Nacional de Informação)”, conta Jerónimo Jesus, 63 anos de idade e 51 de Tobis.
Chegou aos estúdios em 1960, a convite, como se fazia na época, de um vizinho, ajudante de jardineiro, que alindava o espaço exterior. “Na altura havia menos pessoas, mas com funções mais diversificadas. Os jardins, por exemplo, eram um paraíso”, recorda. A categoria de “groom” – palavra britânica que dá brilho e estatuto ao moço de recados – que tomou ao entrar foi passada a outros e Jerónimo assumiu diversas funções na casa do Lumiar: “Estudei à noite, aprendi línguas e ao serviço da empresa fui a Londres e à Alemanha. Fiz de tudo um pouco”.
À empresa, que conhece como poucos, critica a dependência estatal. Já nos anos 50, “época de acentuada crise do cinema português”, a produção esmoreceu a favor do trabalho de laboratório. “A Tobis vendeu património para evitar a bancarrota, mas continuou ao serviço do Estado”. E o falhanço das duas tentativas de privatização, após a revolução de 1974 e nos anos 80/90 – quando a empresa viveu os “melhores anos, com muito trabalho para exibição de filmes em sala, que chegava às 30 cópias” – só pode ser justificado com a “celeuma provocada no sector”, diz.
Seja por optimismo natural ou por pertencer a uma geração habituada à novidade constante, Tiago Silva, 34 anos, acredita que a função da Tobis não se esgota na óptica comercial.
“A razão para o Estado ter continuado a deter a participação na Tobis era apoiar o cinema português, curtas e longas-metragens, documentários. Os materiais necessários para exibir película em sala são caros e fazia todo o sentido uma empresa desta dimensão. Com o digital, esse processo ficou bastante mais barato, ao ponto de já não ser necessária uma empresa destas para o assegurar. Qualquer uma, mais pequena, o pode fazer. Agora no que a Tobis pode manter um trabalho interessante é também no restauro e preservação do filme em película”, refere este apaixonado por cinema, que trocou a engenharia naval pela magia do filme.
Montador e misturador de som, entrou para a Tobis em 2002 – quando a empresa comprou a ConceptFilm – e entre 2004 e 2007 acompanhou a digitalização do arquivo da RTP. Um trabalho de envergadura “que levou a Tobis a quase duplicar o número de trabalhadores”, lembra. No entanto, além da fraca procura nesta área – a proposta apresentada para os arquivos da televisão espanhola, TVE, acabou por ser perdida a favor de uma empresa local –, também o serviço foi replicado em Portugal com o espaço de restauro do ANIM – Arquivo Nacional da Imagem em Movimento. “Apesar de não estarem a apostar nessa área de conservação, o trabalho deixou de vir para a Tobis”, frisa Tiago Silva.
Ainda assim, aponta outra oportunidade de negócio: o digital. “A exibição de cinema está a ficar toda digitalizada, mas os filmes portugueses não estão todos digitalizados. Digitalizar um filme exige bastante trabalho na parte física da película e também de processamento digital. Nessa área, a Tobis tem trabalhadores qualificados e meios técnicos para fazer esse trabalho, só falta é vontade política. Se não for feito esse trabalho os filmes portugueses vão continuar a existir, como é óbvio, mas no armário, pois os projectores em película vão deixar de existir nas salas. E nós temos o equipamento mais sofisticado em Portugal”.
Ideias mais avançadas propunha António Cunha Telles, que pretendia transformar o mais antigo estúdio e laboratório de cinema português num “laboratório digital à escala do que se faz nos EUA para servir toda a Europa”. O projecto “ambicioso” garantia a contratação do produtor francês Alain Coiffier para administrador-delegado: “Um nome que captava trabalho de toda a indústria do cinema europeu”.
Cunha Telles conhece bem a casa da qual foi administrador em 1978 – “quando a empresa viveu uma fase crítica semelhante à actual e sobreviveu até hoje” – e apresentou a única proposta ao concurso lançado pelo ICA – Instituto de Cinema e Audiovisual, principal accionista da Tobis. A proposta no valor de sete milhões de euros acabou chumbada, segundo Cunha Telles, por falta de acordo. “Eu colocava a condição de que a empresa fosse saneada antes”, explica o produtor, que é também o maior dos accionistas privados da Tobis – com a principal fatia dos 3,6 % que não pertencem ao ICA. A Tobis tem um passivo em dívidas acumuladas que, em 2009, já ultrapassava os seis milhões de euros e vários trabalhadores com mais de 25 anos de casa.
A eventual privatização está agora a ser tratada extraconcurso. Cunha Telles garante que o equipamento não está obsoleto e os direitos dos muitos filmes portugueses e do património imobiliário são, ainda assim, um chamariz. “Estou à espera para ver quem será esse outro interessado, pois o Estado, nas actuais circunstâncias, não vai ficar com a empresa. Não escondo que os sete milhões que iria dar ao ICA poderiam ter algum retorno pelos terrenos, pois o meu projecto”, que passava pelo crescimento, “não se coadunava com uns laboratorios situados entre prédios. Considero que aqueles terrenos são demasiados caros e podem ser transformados em valor para criar uma Tobis de outra dimensão”, diz. “Ainda há muito cinema feito em película que tem de ser reconvertido para digital. Os americanos, por exemplo, continuam a trabalhar em filme de 65 milímetros”.
Neste momento a Tobis está equipada para responder a serviços de laboratório, pós-produção de imagem e som, assim como restauro digital em 2K, arquivos, aluguer de estúdios e venda de película.
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