O homem que desejou a morte do Dantas

A pintura, a escrita e o bailado foram três dos muitos talentos de Almada negreiros, que será recordado esta semana em Lisboa

13 de novembro de 2013 às 18:58
Almada Negreiros, 120 anos, escritor, pintor, balilarino, Manifesto Anti-Dantas, Júlio Dantas Foto: Direitos Reservados
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Assinar um texto como "futurista e tudo" poderia ser a mera insolência de um jovem de 23 anos, mas nenhum outro jovem que tinha 23 anos em 1916 seria capaz de insultar uma figura destacada da cultura, criando o grito "Morra o Dantas, morra. Pim!", que ecoa 43 anos depois da morte de Almada Negreiros. E 51 anos após o último suspiro de Júlio Dantas.

"Quis ser tudo e ser tudo ao mesmo tempo. Ele não fez qualquer concessão. Daí atravessar a fronteira entre artes", explica à Domingo o professor universitário Fernando Cabral Martins, organizador do Colóquio Internacional Almada Negreiros, que decorre entre quarta e sexta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, e no qual irão participar dezenas de especialistas na obra e vida do artista nascido há 120 anos.

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Distante ao ponto de ter conhecido Fernando Pessoa antes do seu reconhecimento público, e contemporâneo o bastante para ter sido entrevistado no programa televisivo ‘Zip Zip', José Sobral de Almada Negreiros tornou-se público e notório com o ‘Manifesto Anti-Dantas e por Extenso'. Motivadas pela estreia da peça ‘Sóror Mariana Alcoforado', de Júlio Dantas, autor de ‘A Ceia dos Cardeais', as suas oito páginas continham uma sucessão de insultos provavelmente insuperável.

"O Dantas especula e inocula os concubinos!", "o Dantas cheira mal da boca" e "o Dantas nu é horroroso", bem como a crítica arrasadora aos dotes de escritor, poderiam ter levado Júlio Dantas a desafiar Almada Negreiros para um duelo (só nos anos 40 foram proibidos), mas ele preferiu andar de livraria em livraria, comprando todas as cópias disponíveis. Só ajudou a esgotar a primeira edição do folheto, integralmente escrito em maiúsculas, e vendido pela módica quantia de 100 réis.

A esperança de que o episódio caísse no esquecimento foi vã, restando-lhe suportar a afronta em silêncio. "Eu próprio fiz coisas dessas na minha juventude", disse o ofendido, cujo prestígio sofreu um abalo muito relativo. Ainda viria a ser ministro da Instrução Pública e dos Negócios Estrangeiros, na Primeira República, e comissário-geral da Exposição do Mundo Português e embaixador no Brasil, já com o Estado Novo.

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Em defesa da geração

"Júlio Dantas não era um escritor medíocre nem um tolo, mas era extremamente convencional. Foi por isso que Almada o escolheu", diz Fernando Cabral Martins. O professor universitário vê o ataque como a tentativa de impor os ‘mais novos', reunidos na revista ‘Orpheu', cujos dois primeiros números, ambos de 1915, tinham textos de Almada Negreiros, Mário de Sá Carneiro - cujo pai foi mecenas até ao dia em que se cansou, adiando a publicação do terceiro número para 1984 -, Fernando Pessoa e do seu heterónimo Álvaro de Campos.

"Quando algumas pessoas têm a mesma desgraça, juntam-se", dizia Almada Negreiros, no final da vida, recordando o grupo de modernistas de que só não era o benjamim graças a António Ferro, futuro responsável pela política cultural do Estado Novo, que era o editor da ‘Orpheu' por acreditarem que a sua menoridade viria a calhar em caso de problemas com a Justiça. A geração não demorou a sofrer baixas, pois a pneumónica levou Amadeo de Souza Cardoso e Santa-Rita Pintor em 1918. Dois anos antes, Mário de Sá Carneiro tomara estricnina, então utilizada para matar ratos, num quarto de hotel em Paris.

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Sobrou Fernando Pessoa, cinco anos mais velho. O primeiro contacto não foi o melhor, pois o poeta, após ver a primeira exposição individual de desenhos humorísticos do jovem artista, lavrou pesada sentença: "Que Almada Negreiros não é um génio - manifesta-se em não se manifestar." Isto apesar de lhe reconhecer "brilhantismo e inteligência, muito e muita".

"Houve a sorte de Almada dar-se muito bem com Álvaro de Campos", diz Cabral Martins, lembrando que o poema ‘Cena do Ódio' é dedicado ao heterónimo de Pessoa, o qual retribui em ‘A Passagem das Horas'. "Almada Negreiros, você não imagina como eu lhe agradeço o facto de você existir."

Aquando da prematura morte de Pessoa, em 1935, aos 47 anos, Almada revela aos leitores do ‘Diário de Lisboa' que não trocaram uma só carta ao longo de um quarto de século de convivência. Mas a reconciliação entre os dois expoentes da geração de ‘Orpheu' traduz-se no quadro de Almada Negreiros em que Fernando Pessoa está sentado à mesa no restaurante Irmãos Unidos. A obra de 1954, a que juntaria uma réplica, destinada à Fundação Calouste Gulbenkian, está há 20 anos na Casa Fernando Pessoa. Mesmo assim, Cabral Martins acredita que Almada sentiu que Pessoa "estava a tornar-se um gigante e os outros pareciam pigmeus".

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Nascido na roça

Ao contrário de Pessoa, que nasceu em Lisboa e passou a infância e adolescência na África do Sul, Almada Negreiros era natural desse continente. Mais precisamente de São Tomé e Príncipe, onde o tenente António Lobo de Almada Negreiros casara com Elvira Sobral, filha mestiça de um português endinheirado. Nascido a 7 de abril de 1893, na Roça da Saudade, ficou sem mãe aos três anos, e na viragem do século veio para Lisboa. Estudou no Colégio Jesuíta de Campolide, encerrado após a proclamação da República.

Essa ascendência não lhe terá causado problemas, à parte a mágoa ao referir-se à mãe como "quase branca". Também nunca se inibiu de usar insultos racistas, qualificando Júlio Dantas de "ciganão" e vociferando que Portugal seria "o país mais selvagem de todas as Áfricas". Certo é que preferiu viajar para Paris - onde colheu a inspiração do cubismo de Pablo Picasso - e para Madrid, de onde só voltou em 1932, casando com a pintora Sarah Afonso.

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Encomendas de Salazar

Já mostrara talento na escrita e deixara o fascínio pela dança fazer de si coreógrafo, figurinista e até bailarino. Mas no regresso a Portugal dedicou-se sobretudo às artes plásticas, sempre muito próximo do Estado Novo, pois é o autor do cartaz de propaganda da Constituição de 1933, desenha um selo com a frase de Salazar ‘Tudo pela Nação' e soma encomendas do regime. É o caso dos vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, de vários trabalhos para a Exposição do Mundo Português - o comissário-geral Júlio Dantas provou não ser rancoroso - e dos painéis para as gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos. O jornalista Fernando Dacosta relatou que Vitorino Nemésio fez o comentário "o Dantas está vingado!", ao ver Almada Negreiros curvar-se para cumprimentar Salazar numa antestreia.

Mesmo assim, Cabral Martins explica a aproximação com "a necessidade de comer e pagar a renda" e a profunda amizade com António Ferro, que fazia as vezes de ministro da Propaganda. "Aceitou encomendas do Estado Novo, mas não se vendeu ao Estado Novo", garante, dando como exemplo os frescos da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, que "deixaram os cabelos em pé e com vontade de mandar aquilo abaixo" aos primeiros responsáveis a verem o resultado final.

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O próprio artista deixava clara a diferença entre "aquilo que a gente pretende, que é a obra de todos, e as encomendas, que são para ficar na parede". E, após convencer Raul Solnado a chamar-lhe Almada e não mestre, disse aos telespectadores da RTP como reagia à admiração dos portugueses: "Pretendo até evitá-la, porque me comove." Os olhos, sempre grandes para o rosto, pareceram aumentar naquele dia de 1969. No ano seguinte, aos 77 anos, morreu.

De dedo apontado aos defeitos nacionais

Menos conhecido do que o ‘Manifesto Anti--Dantas', mas mais influente, o ‘Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX' foi escrito por Almada Negreiros e partilhado com quem o foi ouvir ao Teatro República (atual São Luiz), em Lisboa, a 14 de abril de 1917. Terminava assim: "O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades." Fernando Cabral Martins realça o "grau de lucidez e a capacidade crítica" do texto, quase um século depois.

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