O homem que pintava as estrelas
Crise é, por definição, um estado transitório. Desopilemos, falando da coisa mais fútil do Mundo: a maquilhagem. Vejamos a vida cor-de-rosa (o que não implica conversão gay em massa – aliás, eu passo!). O tema é sério: o Homem não morre apenas de fome, de frio ou de saudade – também de tédio. Precisa de diversão.
'Fulano mudou a face da História' – quantas vezes já ouviu isso? Mas o único que o fez LITERALMENTE foi Max Factor, um titã de metro e meio que revolucionou a face do mulherio. Quando morreu, em 1938, pintar a cara já não era prerrogativa de actrizes e cortesãs. Ah, julgava que ele era apenas marca de batom ou pó de talco? Não só existiu: teve uma vida que a Xerazade podia contar. Nasceu polaco e pobre. Aos 14 anos era o peruqueiro e maquilhador oficial da Ópera Russa, em Moscovo. Depois, tornou-se perito imperial em cosméticos, e viveu 10 anos numa gaiola dourada. Só lhe permitiam ir a casa uma vez por semana, por uma hora. Ainda assim, casou com uma vizinha (não dava tempo para procurar mais longe) e fez--lhe três filhos (decerto em rapidinhas). Teve um clique: maquilhou-se para se fingir de doente, balbuciou para o Czar 'olhe ali um elefante!' – e fugiu para os EUA.
Apostou na Sétima Arte, que ainda gatinhava, e ganhou. Convenceu realizadores de que a maquilhagem exagerada do teatro era como usar uma trincha na cara das divas. Criou cremes que não rachavam quando o actor ria. E foi tirando pombos da cartola. Pasmem com o que inventou: pestanas postiças, pompom para aplicar pó-de-arroz, uma base imune ao suor, maquilhagem à prova de água. Electrolisou a testa e as sobrancelhas de Margarita Cansino, transfigurando-a em Rita Hayworth. Para os galãs, a sua dádiva foram as perucas. Acredite ou não – mesmo nalguns dos filmes mais antigos –, o leitor nunca viu Fred Astaire, John Wayne, James Stewart, Gene Kelly, Humphrey Bogart ou Frank Sinatra sem capachinho. Desde o começo, eram todos carecas ou praticamente. Factor concebeu um tipo de peruca hiper-realista, de cabelo real. O galã podia pentear-se à vontade, receber festinhas passionais, mergulhar no Triângulo das Bermudas e confraternizar com um harém – a plumagem continuava natural.
As perucas só se tornaram ridículas em 1972, por causa do material sintético. Quando se trata de revolucionários, prefiro Max Factor a Lenine. Foi muito mais útil, sábio e benfazejo. Se estiver errado, pinto a minha cara de preto. Mas como estou certo, pinto o caneco.
BRITNEY PARA O NOBEL
A cantora Britney Spears assinou um contrato de 30 milhões de euros para escrever as suas memórias, contendo cinco volumes! Só faltam agora dois detalhes, sem os quais não há memórias: parar com as amnésias alcoólicas e alfabetizar-se.
HUMOR NEGRO
O humor negro é o melhor remédio para a crise, sobretudo se for arsénico. A GM baixou de patente: Sargento Motors. As montadoras tornaram-se desmontadoras. E a Ford lançou um carro que já vem com ar condicionado, direcção assistida e quatro ex-funcionários.
NAS NOSSAS BARBAS
Uma imperdível exposição em Madrid apresenta quadros e objectos coleccionados por um barbeiro. Todos oferecidos por um cliente muito especial: Pablo Picasso. Eugénio Arias foi a única pessoa que tosquiou o génio durante 26 anos. Até porque, depois, o pintor ficou careca.
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