O melhor que me aconteceu foi ser franciscano

Decidiu muito cedo que viria a ser padre. Vítor Melícias nasceu a 25 de Julho de 1938 no seio de uma família rural, pobre, que vivia numa aldeia do concelho de Torres Vedras. A alegria de viver juntaram-no, com amizade, a figuras influentes da política nacional. Mas o seu grande objectivo é fazer com que os mais desfavorecidos acreditem que há boas razões para lutar.

15 de julho de 2007 às 00:00
O melhor que me aconteceu foi ser franciscano Foto: Sérgio Lemos
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Como é que se tornou numa figura mediática?

Julgo que foi por participar em actividades de carácter social, nos Bombeiros, nas Mutualidades, no Montepio, na Misericórdia de Lisboa. E por frequentar meios sociais. Algumas televisões pediram-me também trabalhos.

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Esteve sempre ao lado dos desfavorecidos; como se sente agora a pobreza no País?

Diria que o País, estruturalmente, cresceu. Há infra-estruturas hospitalares, de educação, transportes. A própria vida das populações, melhorou. Mas existem bolsas de pobreza que em algumas situações se agravaram. Pelo que os planos nacionais para a inclusão e outros esforços que se têm realizado, não apenas pelos governos mas pela sociedade civil e pelas ONG, é um esforço que deve continuar a ser feito.

Foi para fugir à pobreza que abandonou a sua pequena aldeia em Torres Vedras, aos 11 anos, para estudar no seminário?

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De facto, vivia-se no País uma situação de pobreza generalizada. Mas não foi para fugir à pobreza até porque, aos 11 anos, não havia bem a consciência dessa possibilidade. Eu diria mais, a influência de um tio – que foi um grande franciscano –, do pároco da minha aldeia e todo o ambiente cristão, fizeram--me desejar ser pároco. E hoje, aos 68 anos, dou graças a Deus por ter escolhido esta via. É um princípio de fraternidade, de liberdade, de à-vontade, de popularidade até, que, julgo, ainda seja uma mensagem que tem enorme actualidade. A melhor coisa que me podia ter acontecido é ser franciscano.

Como vivia a sua família?

O meu pai era um trabalhador rural, a minha mãe era doméstica – ou seja, fazia a mesma coisa aos nove filhos que, às vezes, fazem três empregados de um lar para crianças. Eram as famílias à antiga em que um arranjava o pão, a outra tratava do pão, das crianças e da casa. Pobres mas felizes.

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Alguma vez se apaixonou?

As pessoas não são insensíveis. É bom até que tenham coração, sentimentos e amor. Mas eu, dado que vim para o seminário é difícil dizer... A não ser com um esforço de memória, talvez pudesse nomear duas, três pessoas que eventualmente ter-me-iam levado o coração.

É um defensor do celibato opcional; se isso fosse possível, qual teria sido a sua opção?

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Sou de facto um defensor de que deveriam ser criadas condições para que o celibato ou não celibato não seja um estorvo para o exercício do ministério sacerdotal. Agora, eu teria que fazer um esforço de imaginação para ver o que é que teria acontecido. Se sim ou se não.

Pensou em ter filhos?

Julgo que todo o ser humano tem essa propensão. E certamente gostaria muito, não só propriamente do acto de os fazer, mas de criá-los.

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Acha que a Igreja precisa renovar alguns dos seus princípios?

A Igreja é uma instituição de homens e mulheres que, como povo de Deus, caminha na história à procura da salvação – dos melhores caminhos. A Igreja deve adequar-se a cada momento, quer na linguagem, nas expressões culturais, nos serviços que presta.

Então, sim ou não ao aborto?

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Em função das próprias circunstâncias deve haver um juízo prático e opcional, sempre com honestidade e lealdade na promoção e defesa da vida, sem prisão do próprio espírito.

Quer a defesa da vida ao nascer, quer ao terminar, o critério de base deve ser sempre o de defender a dignidade humana e a própria vida, com espírito de humildade e de abertura.

Sim ou não ao preservativo?

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Julgo que hoje há muita gente, mesmo entre os cristãos mais conservadores, que tem que reconhecer, em função dos outros grandes perigos que existem, das doenças, que a defesa da vida passa por usar o preservativo. Há situações em que deveria ser moralmente obrigatório. Não são é todas.

É amigo de contar umas anedotas, recorda-se de alguma?

Tantas... Esta que nem é anedota, é verdade: o padre Crespo foi visitar o lar de crianças das Missionárias de Maria, um miúdo puxa-lhe a corda [do hábito] e grita: “Arre burro, arre burro”. E a freira diz-lhe: “Não vê que não é um burro é o senhor padre”; e ele então diz “arre senhor padre, arre senhor padre”.

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Qual foi a sua maior dúvida?

Foi antes da ordenação, dizia: gostava de ser padre mas tenho algumas dúvidas; gostaria de casar, talvez; o que estou aqui a fazer?

É devoto de algum santo?

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É o Santo Antoninho e, acima de todos, o São Francisco. Embora reze mais ao Santo António porque a minha mãe, na aldeia, tinha uma enorme devoção a ele. Perdia uma galinha, rezava ao Santo António; perdia-se um garoto, rezava ao Santo António.

E atendeu aos seus desejos?

Recordo-me que quando fui para Roma estudar passei então por Santiago de Compostela. Lá costuma-se, por tradição religiosa, abraçar o santo, pedir-lhe três desejos e rezar. Assim fiz e os três realizaram-se.

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Santo António é o casamenteiro, este desejo é para esquecer.

Agora nesta idade não vale a pena perderes tempo comigo Santo Antoninho.

Qual foi o seu maior pecado?

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O meu maior pecado é ser parvo!

Por ter podido fazer coisas que não fiz, com muita pena minha, tendo a consciência de que procurei ajudar muitas pessoas e ajudei muita gente.

Quer dizer pela influência que tem junto de alguns políticos?

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Eu utilizei sempre a minha convivência com políticos, não como atitude de influenciar, mas de ajudar. Obviamente que às vezes há determinadas situações em que para resolver um problema é mais fácil falar com o ministro do que com o porteiro... Realmente tive várias oportunidades de falar com ministros, mas nunca fiz influência política.

O Sporting não é um pecadinho?

Não. É uma virtude das grandes!

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Durante os jogos nunca soltou um palavrãozinho?

Dá-me a impressão que sim. Um palavrãozinho dito nestas circunstâncias e com esta pureza interior não é pecado.

Foi provedor da Santa Casa da Misericórdia; que ligação tem ao dinheiro e ao jogo?

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Total liberdade. Não tenho nada que ver nem com um nem com outro.

Nos muitos cargos que já desempenhou ganhou bom dinheiro...

Desempenhei uma grande parte das minhas actividades como voluntário. Só tive remuneração quando era provedor da Misericórdia de Lisboa, presidente do Serviço Nacional de Bombeiros e presidente do Montepio. Embora essa remuneração não fosse para mim. Eu não tenho direito à propriedade.

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Era para os franciscanos?

Exactamente.

Como se vive sem certos luxos?

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Tendo o mínimo necessário para sobreviver. Graças a Deus tenho aqui uma camita [no Seminário]. Até a roupa que visto, 98 por cento é-me oferecida.

Já viu o presidente sei lá do quê ali todo maltrapilho – lagarto, lagarto – e mal-cheiroso? Não pode ser.

Foi colega de Marcelo Rebelo de Sousa na Faculdade de Direito, amigo de António Guterres, de Leonor Beleza, Carlos Santos Ferreira, Helena Roseta, com quem criou o ‘Grupo da Luz’; que inspiração tinham?

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Era um grupo de alunos de diversas faculdades, diria até, se calhar as melhores cabeças daquele tempo, motivados por Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, a quem eu dava assistência, acolhimento, apoio e participava na celebração aqui em casa [Seminário da Luz] na eucaristia, ou no debate social e político – era o tempo da Guerra Colonial, da PIDE.

Já admitiu ter sido convidado para ministro por António Guterres...

Não cheguei a dizer isso, claramente.

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Teria dado um bom governante?

Dá impressão que sim. Não fui expressamente convidado para essas funções, mas como ser bom governante é trabalhar com honestidade, poderia ser bom governante em qualquer actividade.

O que acha do Governo do qual o seu amigo Bagão Félix fez parte?

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O Santana Lopes é um grande sportinguista, custa-me estar a pronunciar-me sobre ele, com verdade total! Se quer que lhe diga, foi um desastre.

E sobre o actual Governo?

A esperança é a última coisa a morrer!

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Também não deposita muita fé.

A fé é uma das virtudes, agora há também a esperança e a caridade. E a gente tem que ter alguma caridade para poder manter a esperança.

Diz-se que terá sido convidado para a Maçonaria. É verdade?

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Esses convites quando se fazem costumam ser secretos. Mas uma coisa é certa, nunca fiz parte da Maçonaria nem sou antinada. Reconheço que nas diversas maçonarias existem grandes valores e causas.

Continua a não querer ser bispo, o que espera então alcançar?

Embora não tenha nada contra quem é bispo, quero é ser um franciscano bem-disposto e continuar a ajudar os outros a serem o mais felizes que possam.

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Ainda passa férias em Sesimbra?

Quando posso. Nos últimos anos acabei por ir para o Algarve. Tenho um amigo padre anglicano, inglês, que costuma ir lá e então conjugo para lá estar com ele.

Acha que ir à praia pode ser um luxo dos pobres?

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Devia ser um direito dos pobres. O próprio Estado, a sociedade civil organizada, deviam mobilizar-se para os pobres terem essa facilidade e esse direito.

Com quem vai a banhos?

Normalmente vou com padres ou amigos.

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Demonstra ser feliz entre os irmãos franciscanos, mas a propósito dos seus oito irmãos de sangue, a vida deles foi de felicidade ou passaram por provações?

Sou muito feliz. Infelizmente alguns dos meus irmãos morreram ainda pequenos e hoje somos três. Mas realizaram-se com uma vida modesta, de gente pobre. Diria que tiveram muita felicidade mas passaram por muitas provações.

Criado no seio de uma família pobre, Vítor Melícias parte para o seminário aos 11 anos. Mais tarde, já ordenado padre, estudar Direito passou a ser um desejo. Na Faculdade de Direito de Lisboa integrou-se bem entre eles e elas. A boa disposição foi sempre uma sua característica; nunca desperdiça uma piada ou um pé de dança. O padre casou o seu colega de faculdade António Guterres com Catarina Vaz Pinto. Sempre devoto à religião, Vítor Melícias orgulha-se da bênção do Papa João Paulo II.

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LOCAL DA ENTREVISTA

O Padre Vítor Melícias quis ser entrevistado na biblioteca do Seminário da Luz, onde vive em Lisboa há 41 anos. Olhou para o Santo António no cimo de uma estante e pediu para o trazerem para junto dele: “Pegue-lhe à vontade porque ele está seguro.”

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