'O Nosso Reino' não é para esses miúdos
Plano Nacional de Leitura reclassifica livro que o autor nega ser um “chorrilho de perversões”
Foi publicado pela primeira vez em 2004, reeditado em 2011, já depois de o autor receber o Prémio José Saramago, e nas livrarias encontra-se uma edição de 2015, mas nunca se falou tanto de ‘O Nosso Reino’, primeiro romance de Valter Hugo Mãe. A revolta de pais da Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, com a linguagem de cariz sexual no livro recomendado a alunos do 3º ciclo do Ensino Básico (entre 12 e 15 anos) levou os responsáveis do Plano Nacional de Leitura (PNL) a deixarem a garantia de que tudo não passou de um erro e que a obra foi sempre recomendada ao Ensino Secundário.
Não é a primeira polémica. ‘O Que Dói às Aves’, de Alice Vieira, teve de ser retirado do PNL em 2012, pois o livro de poemas de amor para adultos era sugerido a alunos do 2º ano do Ensino Básico. Na altura, a escritora disse que "a ideia que passa é que nem sequer olharam para o livro", mas foi negado que o erro, cometido em 2009, se devesse à conotação da autora com livros infantis.
Contactado pela ‘Domingo’, o comissário do PNL, Fernando Pinto do Amaral, defendeu que dois casos "em centenas de livros e dezenas de listas não é muito grave". Mas sublinhou, referindo-se aos dois critérios principais para a inclusão, que em ambos não esteve em causa a qualidade literária das obras e sim a adequação à faixa etária de alunos para que apareciam recomendadas.
Entre os princípios definidos para os livros recomendados para leitura autónoma (em casa) e para sugestões de leitura, é aconselhado aos adultos responsáveis pela escolha das obras que as leiam, "para verificar se o assunto é adequado ao nível do desenvolvimento do leitor", "apreciar a linguagem presente no livro, recusando o que é infantilizante ou o que vai exigir uma capacidade de interpretação desfasada das competências" e "avaliar em que medida o livro escolhido vai ao encontro dos valores que desejamos para as crianças ou jovens leitores".
Não foi o que alguns pais de alunos do 8º ano da Escola Secundária Pedro Nunes acharam quando leram passagens de ‘O Nosso Reino’, nomeadamente aquela em que um personagem se refere à tia de outro como "uma mulher tão porca que f*** com todos os homens e mesmo que tenha racha para f**** deixa que lhe ponham a pila no cu". Admitindo que "não tinha noção de que o livro estava recomendado para aquela faixa etária", Valter Hugo Mãe disse à ‘Domingo’ que "é legítimo que os pais se aflijam, como é legítimo que os alunos queiram ler e que os professores aconselhem a leitura". Mas acrescentou que "as pessoas já nem se lembram do que é ter 14 anos e não perceberam o que é o PNL".
ONZE A ESCOLHER
Os 11 titulares, que recebem cerca de 100 euros mensais, são Alexandra de Nagy, especialista em educação para adultos; Amélia Bárrios, ex-coordenadora da Escola Superior de Educação de Lisboa; António Carlos Cortez, poeta e crítico; Eugénia Vasques, crítica e coordenadora da Escola Superior de Teatro e Cinema; Fernando Azevedo, professor universitário especialista em literatura infantil; José Mário Silva, jornalista e crítico literário; Leonor Riscado, professora da Escola Superior de Educação de Coimbra, especialista em literatura infantil; Marta Torres, professora de História; Miguel Monteiro de Barros, presidente da Associação de Professores de História; Rui Marques Veloso e Violante Magalhães, ambos especialistas em literatura infantil.
As novas entradas, que andam à volta de meia centena, são definidas até junho ou julho, integrando a lista válida no ano letivo seguinte. Para as editoras, além do potencial de venda decorrente da indicação por pais e professores, o selo do PNL na capa é um sinal de prestígio que leva a abusos. "Tem havido casos, mais no passado, de editoras que põem selos em livros que não estão nas listas", admite Pinto do Amaral.
As retiradas de livros são raras, podendo dever-se à descoberta de erros que lhes retiram qualidade. No caso das obras de autores de língua estrangeira o rigor da tradução é um critério que se alia ao mérito literário, qualidade estética e revisão. Mas Pinto do Amaral avança outra possível razão para a saída de um título. "Se estiver esgotado há muito tempo, fazemos essa menção ou retiramos. Mas é algo que fazemos com relutância, porque às vezes pode ser encontrado em algumas livrarias ou encomendado à editora, que ainda o tem no armazém."
CRITÉRIO DIFÍCIL
Quanto às razões que levam uma ou outra obra a ser considerada inapropriada para certas idades, os critérios são discutíveis. As menções sexuais no universo da infância de ‘O Nosso Reino’ não serão muito diferentes da crueza de Jorge Amado a descrever a sexualidade dos jovens da Bahia em ‘Capitães da Areia’, o que não impede o clássico da literatura brasileira de ser leitura autónoma para alunos do 3º Ciclo do Ensino Básico. "Está lá e faz sentido estar", diz o comissário do PNL.
Também Valter Hugo Mãe recorda que "‘Os Maias’ contam a história de um incesto e o Gil Vicente não escreveu menos palavrões do que eu", lembrando que muitos livros hoje unânimes "demoraram muito tempo a entrar nas escolas". Para o autor de ‘O Nosso Reino’, "se deixarmos ao critério dos pudores dos pais, não estudamos absolutamente nada", e embora seja legítimo que eduquem os filhos como entenderem em casa, "os jovens não se formam a ler histórias de gnomos e de unicórnios".
A única consequência positiva que encontra na polémica é a atenção dada a um dos seus livros menos lidos, ao ponto de a edição de 2015 não ter vendido 1500 exemplares. "Muita gente diz que ainda não leu e que agora é o momento", diz Valter Hugo Mãe, garantindo que quem o fizer não se escandalizará. Convicto de que as passagens que chocaram alguns pais "são um extremo a que se opõe o narrador e a energia do livro" e de que "não é legítimo que as pessoas criem juízos sem estarem informadas", lamenta que se esteja "a generalizar a ideia de que o livro é um chorrilho de perversões".
DESCUBRA AS DIFERENÇAS
‘O Nosso Reino’ Valter Hugo Mãe
Sugestão leitura para alunos do Ensino Secundário
"É maricas, sabes, maricas não é de ter medo, esses são os medricas, maricas é querer meter coisas no cu. Estávamos sentado na margem do rio, num lugar seco e pedregoso que permitia que não nos sujássemos, e eu sorri nervoso, a espanar as calças como um rapaz bem comportado, e disse, estás a gozar, estás a inventar isso, és um parvo, mas a sua impiedade era tremenda, afastou-se um pouco de nós e preparou o seu veneno, e a tua tia sabes de que tem cara, de p***, sabes o que é, uma mulher tão porca que f*** com todos os homens e mesmo que tenha racha para f**** deixa que lhe ponham a pila no cu. Sem precisar, sabes, só porque é porca deixa que lhe ponham a pila no cu e até na boca."
‘Capitães da Areia’ Jorge Amado
Leitura autónoma para o 3º Ciclo do Ensino Básico
"Pedro Bala tinha pena, mas o desejo estava solto dentro dele. Então propôs ao ouvido da negra (e fazia cócegas a língua dele):
- Só boto atrás.
- Não. Não.
- Tu fica virgem igual. Não tem nada.
- Não. Não, que dói.
Mas ele a acarinhava, uma cócega subiu pelo corpo dela. Começou a compreender que se não o satisfizesse como ele queria, sua virgindade ficaria ali. E quando ele prometeu (novamente sua língua a excitava no ouvido) se doer eu tiro... ela consentiu.
- Tu jura que não vai na frente?
- Juro.
Mas depois que tinha-se satisfeito pela primeira vez (e ela gritara e mordera as mãos), vendo que ela ainda estava possuída pelo desejo, tentou desvirginá-la. Mas ela sentiu e saltou como uma louca."
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