O novo Chiado é mais cosmopolita

Recuperado do incêndio que há 25 anos destruiu vários prédios e postos de trabalho, o Chiado é hoje mais jovem e animado.

25 de agosto de 2013 às 15:00
Chiado, Incêndio, Reconstrução, Lisboa, Efeméride, Siza Vieira, Grandella, Bairro Alto, Henrique Neto Foto: Bruno Colaço
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António Lavradio, engenheiro, "com muitos anos", almoça duas vezes por semana no Chiado. A caminho do Clube Tauromáquico, de que é sócio, pára para rezar na Basílica dos Mártires, num ritual inerente à sua crença católica. "O Chiado está interessante, mais bonito do que antes, bem arranjado, com movimento. Penso que está a voltar ao que era, com pessoas que vêm almoçar, fazer compras, passear e para serem vistas também."

É naquela confluência de artérias que Natacha Fontinha, empresária, encontra a passerelle onde exibe as cores que lhe cobrem o corpo e o cabelo. Dona de uma loja de tatuagens no Bairro Alto, sobe e desce o Chiado mais do que uma vez ao dia. Vivia em Barcelona a 25 de agosto de 1988 quando um incêndio que deflagrou nos armazéns Grandella, na rua do Carmo, arrasou uma área de 7500 m2, destruiu 18 prédios, fez dois mortos e 133 feridos, entre civis e bombeiros, deixando sem trabalho duas mil pessoas. Tem apenas uma vaga memória de ir com a avó aos antigos Armazéns Grandella, onde uma "enorme escada rolante" a conduzia ao salão de chá, mas do Chiado atual gosta bastante. "É cosmopolita, tem uma arquitetura inspiradora e uma elite que aqui passa. Gostava que este ambiente não se perdesse", diz.

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ANOS COMPLICADOS

Como seria o Chiado se não tivesse sucumbido às chamas é uma pergunta que ainda assola Carlos Carvalho, 54 anos. Estava já na Luvaria Ulisses, "a única do País", quando o incêndio deflagrou "dois prédios acima". Lembra-se das esplanadas e das polémicas floreiras em pedra, colocadas na rua do Carmo para dinamizar a zona, mas que acabaram por impedir a passagem dos bombeiros. Sobreviveu aos anos "complicados", em que lojas e moradores penaram. E é com agrado que nota como "o Chiado está renovado, é jovem e mais atrativo do que antes". A loja, cuja fachada e interior se mantém iguais desde a fundação, em 1925, é um chamariz para quem passeia pelo Chiado, onde as lojas tradicionais convivem paredes-meias com a nata das marcas internacionais. No espaço da antiga Livraria Portugal existe hoje a pastelaria francesa Eric Kaiser, a fachada da perfumaria Au Bonheur des Dames serve de entrada a quem quer comprar o café publicitado por George Clooney e na rua Garrett as lojas da Hugo Boss, da Tous e da Zara convivem com floristas e lojas de café e chás tradicionais.

Vêm de fora, os donos e os compradores que povoam o Chiado. São verdadeiras torres de Babel que nascem nas esplanadas locais, seja na antiga Brasileira ou no mais recente café vienense, inaugurado por dois austríacos. Os australianos Jess, 33 anos, consultor, e Eliza, 31, enfermeira, são apenas um dos casais estrangeiros que elogia a beleza do local, "as lojas ótimas, a céu aberto, a luz fantástica e a arquitetura especial".

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Num dos arcos pombalinos que desemboca na calçada de São Francisco, a lituana Viktoria Tumaite, 28 anos, arrendou um espaço para o negócio de estética que lhe enche as medidas. "Moro perto e venho a pé. Adoro este passeio e ver turistas, prédios baixos, ruas estreias, lojas, artistas, é toda uma mistura que me inspira", frisa Viktoria, que há cinco anos veio para ficar.

O NOVO TRAÇADO

Renovado na década de 1990 pelo arquiteto Siza Vieira, o Chiado ganhou nova vida com prédios que mantiveram a traça romântica e também em pátios abertos ao público. É aí que os advogados Hugo Correia, António Schwalz e Bernardo Castro fazem a pausa do almoço. O escritório onde trabalham tem vista sobre o rio e para toda uma zona que "urbanisticamente está muito bem reabilitada" frisam. Lamentam apenas o preço do imobiliário, "que impede que a classe média venha para aqui".

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É caro morar no Chiado. E numa zona onde "a oferta é escassa, funciona a lei da oferta e da procura. Os preços são muito variados e dependem de vários fatores, como a rua, o estado, a vista e o espaço exterior e influencia todo um perímetro que se alarga a varias artérias", assegura Gonçalo Sarávia, da imobiliária Remax. Nos sites da especialidade, uma casa recuperada no Chiado vale 3516 euros por m2, enquanto num condomínio a estrear, com vista sobre o rio e a cidade, o preço sobe para 9297 m2. Há casas a partir de 100 mil euros e outras que ultrapassam os dois milhões e são sobretudo da classe média-alta e "muito alta" as pessoas que

ali habitam, explica Joaquim Guerra, presidente da Junta de Freguesia dos Mártires, a mais "pequena da cidade e onde os dramas sociais não se fazem sentir de forma muito gritante".

Henrique Neto, engenheiro e empresário de 77 anos, mudou-se para o Chiado em 1996, quando assumiu funções de deputado na Assembleia da República. "Em criança passava as tardes na Livraria Bertrand, via passar figuras como Aquilino Ribeiro e Almada Negreiros, e fiquei sempre com grande apego sentimental à zona", conta. Pagou mais de 200 mil euros por um T3 projetado por Siza Vieira com vista sobre a cidade na época em que se "queria reanimar o Chiado" Garante que nos anos pós-incêndio viveu ali "numa pasmaceira", mas a abertura da FNAC e mais recentemente dos gelados Santini, que "faz fila à porta", ajudou a dinamizar as ruas. "Por vezes nem se consegue andar, e a chegada das orquestras , principalmente dos rapazes dos sopros, que tocam bem mas muito alto, chama multidões", destaca sobre a Alta Cena, banda formada este verão por músicos de Cabo Verde, Brasil, Roménia e Portugal que se conheceram em plena rua do Carmo.

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Os espetáculos constantes, desde cinema ao ar livre, a Festa ao Largo e a Ópera no São Carlos continuam a atrair Amália, 77 anos, que partilha o 5º andar sem elevador em plena rua Garrett com a filha, Céu, 52 anos, e o neto André, 22. A avó conhece o Chiado de cor. Na casa onde nasceu o ex-marido, viu o incêndio parar no prédio ao lado, educou as três filhas, levou os netos à escola no largo das Belas Artes. "Ainda gosto de sair e falar com quem passa junto à Casa da Sorte", conta entre sorrisos.

Céu, secretária, voltou há dois anos, e aprecia o Chiado "no fresco da manhã", quando sai para passear o cão sem esbarrar com as multidões. André, licenciado em Ciências da Comunicação, veio durante a adolescência para usufruir da vida noturna da capital. "Morava em Massamá e se perdia um autocarro lá se acabavam os planos. Aqui estou perto de tudo, dos amigos, dos locais de diversão noturna, e faço mais vida a pé. Chego a sentar-me à porta para ver o movimento", nota.

O corrupio que anima o Chiado sobe ao interior dos prédios. Henrique Neto e Amália têm agora por vizinhos estrangeiros que optam pelo arrendamento temporário em vez dos jovens abastados, que "mudam quando os filhos nascem". A Rent4Days aluga apartamentos a 60/80 euros o dia. Mais acessível, o Shiado Hostel acolhe viajantes de mochila às costas, como Sjoerd, 21 anos, e Plumy, 20. Estudantes na Universidade de Amesterdão, esperam junto aos Armazéns do Chiado pelos amigos a quem prometeram mostrar "uma cidade encantadora". O Chiado, como se lê num cartaz, é agora um imenso ‘ponto de encontro’. lD

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QUATRO LENTES SOBRE O INCÊNDIO DO CHIADO

O trabalho de quatro fotógrafos durante o incêndio de 25 de agosto de 1988, em Lisboa, integra o livro ‘O Grande Incêndio do Chiado’, editado pela Tinta da China. "Um balanço sumário da tragédia humana colocou-nos perante dois mortos, um homem de 70 anos retirado sem vida das ruínas de um prédio; um bombeiro de 31 anos que viria a falecer a 2 de setembro; 60 bombeiros feridos; mais 73 pessoas, com feridas, queimaduras e intoxicações. Os prejuízos materiais elevaram-se a mais de cinco milhões de contos, em dinheiro da época; 18 edifícios totalmente destruídos; cerca de 300 pessoas desalojadas; e cerca de 2000 trabalhadores atirados para o desemprego", escreve no referido livro o jornalista António Valdemar.

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