O pastor que perdoava com ternura
O patriarca emérito de Lisboa é recordado como um intelectual generoso e capaz de analisar os tempos modernos.
A inteligência e a dedicação de José da Cruz Policarpo valeram-lhe uma carreira fulgurante: ordenado padre aos 25 anos, tornou-se bispo aos 42 e, aos 61, coadjutor do cardeal-patriarca de Lisboa, com direito a sucessão. Ascendeu ao cargo de cardeal-patriarca em 1998, função que desempenhou até 2013. No entanto, nunca foi o que gostaria de ter sido: pároco, simplesmente.
Filho de um casal de agricultores, proprietários e rendeiros das terras que toda a família cultivava, José Policarpo nasceu na aldeia do Pego, freguesia de Alvorninha, nas Caldas da Rainha. O seu ‘ídolo' era o pároco que o batizou e que visitava habitualmente a casa que partilhava com oito irmãos. Talvez por isso, soube desde muito cedo qual era a sua verdadeira vocação.
Com 11 anos, depois de fazer o exame da 4ª classe, que passou com distinção, fechou-se no quarto no sótão a escrever uma carta. A mãe estranhou, mais ainda quando o viu descer: em meia hora tinha escrito uma carta ao prior da freguesia, pedindo-lhe para entrar para o seminário. A família não se opôs e rapidamente a notícia correu a aldeia, onde era conhecido por ‘Parrucho", por ser gordinho e pequenino. Tinha muita sede de conhecimento e adorava livros, e por isso dedicou-se com afinco aos estudos.
Estudou Filosofia e Teologia nos seminários de Santarém, Almada e Olivais. A sua primeira missão eclesiástica foi dirigir e lecionar no Seminário de Penafirme, a instituição que o cardeal Cerejeira abriu perto de Torres Vedras.
Cinco anos depois, seguiu para Roma, onde prosseguiu os estudos. Entre 1966 e 1970 viveu na capital italiana, onde se licenciou em Teologia Dogmática em 1968, pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Policarpo era o protótipo de um cristão do Concílio Vaticano II, um homem de viragem dos tempos na Igreja e na sociedade. Era pelo diálogo inter-religioso e preocupava-se com as questões da evolução social, bem patente nas suas teses académicas: ‘Teologia das Religiões Não Cristãs' foi o tema do trabalho final da licenciatura.
Prosseguiu os seus estudos na mesma universidade, tendo-se doutorado também na área da Teologia Dogmática com a tese ‘Sinais dos Tempos. Génese histórica e interpretação teológica', onde desenvolvia a ideia de que a "Igreja deve estar atenta à história dos homens e captar nela sinais positivos do Reino de Deus, porque uma sociedade justa não está apenas presente na realidade explícita do Cristianismo, mas acontece também na vida dos homens".
José Policarpo dirigiu ainda (entre 1970-1997) a formação dos padres saídos do Seminário dos Olivais, onde estudou. Foi reitor da Universidade Católica de Lisboa durante oito anos e era o braço-direito do seu antecessor, o cardeal-patriarca D. António Ribeiro. José Policarpo aliava à grande capacidade intelectual uma enorme dimensão humana: "Dizia piadas engraçadíssimas, tinha um sentido de humor extraordinário", mas era capaz de "cultivar os silêncios para ouvir os outros", de deixar "personalidades notáveis à espera para falar com pessoas humildes", ou de dizer "‘falhaste' com uma incrível ternura", recorda o padre Feytor Pinto, seu amigo de longa data.
Quando tomou posse na Sé Patriarcal de Lisboa como arcebispo coadjutor, aproveitou para defender que a Igreja devia "partir para a abertura de novos ritmos pastorais". Declarou-se disposto a entregar à diocese da capital o resto da sua vida. Tinha cerca de cinquenta obras publicadas, era sócio honorário da Academia das Ciências de Lisboa e académico de mérito da Academia Portuguesa de História. Foi figura de proa no arranque da TVI.
No dois últimos conclaves, chegou a ser apontado como candidato a papa, mas recusou sempre essa ideia.
Um problema cardíaco na sequência de uma operação a um aneurisma na aorta derrubou o cardeal, aos 78 anos. Foi velado sexta-feira, na Sé de Lisboa, e ficará em eterno repouso no Panteão dos Patriarcas, no Mosteiro de São Vicente de Fora.
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