O perfume do dinheiro do póquer

As histórias mais populares têm sempre muitos números, milhões, dólares, saber e, sobretudo, sorte. Na mesa do jogo plebeus viraram ricos.

10 de janeiro de 2010 às 00:00
O perfume do dinheiro do póquer Foto: Direitos reservados
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Em Novembro passado, Joe Cada, 21 anos, tornou-se no mais novo campeão do World Series of Poker (WSOP – o campeonato do Mundo de póquer), em Las Vegas. O título representa, sem dúvida, um feito para qualquer jogador mas, talvez mais importante, foi o prémio. Cada arrecadou qualquer coisa como 8,5 milhões de dólares, e o jovem norte-americano cumpria assim o objectivo de muitos dos novos jogadores de póquer. Do dia para a noite ficou milionário.

Actualmente o póquer movimenta milhões, muitos dos quais atribuídos em prémios nos vários torneios. E para a maioria dos novos praticantes é esse aliciante que os leva a abraçar o jogo. Histórias que parecem verdadeiros contos de fadas, como a de Joe Cada, só vêm alimentar ainda mais o sonho. A realidade, no entanto, não é assim tão simples.

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"Se eu ganhasse um torneio como este deixava o emprego", admite Luís Medina, durante um intervalo do torneio PCA, que hoje termina nas Bahamas. O prémio para o vencedor ultrapassa os 2 milhões de dólares e esse valor "permitiria viver durante dois anos sem problemas, mantendo um bom nível de vida", explica Medina.

Semiprofissional, o português é patrocinado pela Pokerstars, o que já lhe permite participar em muitas provas, um pouco por todo o Mundo. Mas Luís Medina tem consciência que não se pode deixar levar pela ilusão do dinheiro fácil. "Não é um jogo só de sorte mas é preciso a estrela, e a estrela pode não estar connosco muitos meses", explica. "Há quem pense que, com 20 anos, ganhar um milhão é fantástico mas isso é como ganhar a lotaria", diz. "Há jovens que pensam deixar os empregos para jogar póquer, mas é muito difícil", sustenta.

Medina começou a jogar no final da década de 80, muito antes do ‘boom’ do póquer que se vive actualmente. Em 95 decidiu inscrever-se numa escola e ainda hoje continua a estudar o jogo. "É preciso, pelo menos, reflectir nas mãos, discutir com outras pessoas", refere. E, para além das análises, cálculo de probabilidades e estatísticas, não se pode esquecer que a sorte também se senta à mesa de póquer.

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DIAMANTES E MALA LOUIS VUITTON

Sentado num canto, junto ao portão de embarque 29 do aeroporto de Newark, Chad Batista aguarda pela chamada para o avião que o vai levar até às Bahamas, onde participa no PCA. Franzino, aparenta metade dos 30 anos que acusa no bilhete de identidade. E à primeira vista passa por ser um normal adolescente. Depois repara-se nos diamantes que cobrem os anéis e fios. E na enorme ficha de póquer, também forrada a diamantes, que lhe balança sobre o peito. A roupa é de marca e as malas são Louis Vuitton.

"Sou o melhor jogador de torneios on-line do Mundo", garante, incrédulo por não ser imediatamente reconhecido ao dizer o nome, "de certeza que não sabem quem eu sou?", pergunta ainda. Conhecido como ‘Lilholdem’, Chad, de origem portuguesa (a família é originária dos Açores), afirma que arrecadou 6 milhões de dólares nos últimos cinco anos. "E em torneios on-line ganho a quem quer que seja", acrescenta, enquanto pega no portátil para, com a ajuda da internet, provar o que diz.

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Com o desenrolar da conversa, por entre sites que o mostram em fotos, sorridente, Chad conta que descobriu o póquer quando saiu da prisão (cumpriu pena por assalto à mão armada). Assegura que aprendeu tudo sozinho, "a ver outras pessoas a jogar", refere. Mas não foi com o pai, pois este também está preso desde que ‘Lilholdem’ tinha dois anos.

Foi o jogo que tirou o jovem da rua, onde dormia em carros ou casas abandonadas. A vida de Chad deu uma enorme volta. Quando entra no avião rumo às Bahamas senta-se na primeira classe. Com os auscultadores do iPod nos ouvidos, óculos escuros caros na cara e um ar de quem está preparado para enfrentar o Mundo, ele é a personificação do sonho tornado realidade.

Na saída do aeroporto de Nassau, capital das Bahamas, as limusinas aguardam. Não esperam qualquer famoso ou homem de negócios. Esperam jovens. Muitos jovens entre os 18 e os 30 anos, que aterram nos aviões, prontos para participar no PCA. "Os jovens que não têm nada a perder arriscam tudo", explica Tomé Moreira, outro semiprofissional português, patrocinado pela Betfair, também inscrito para o PCA. "Eu, por exemplo, tenho um limite que não ultrapasso, eles estão prontos para tudo", acrescenta. Uns ganham e tornam-se famosos. Capas de jornal, ídolos e exemplos a seguir para muitos. Outros perdem, e não saem do anonimato. Continuam com a vida que tinham, seja ela qual for.

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RICO COM 39 DÓLARES

Chris Moneymaker é mais um caso de sucesso, mais um conto de fadas, a alimentar o sonho de milhões. Com um ‘investimento’ de apenas 39 dólares, acabou por embolsar 2,5 milhões, ao vencer um WSOP, para onde se apurou on-line. "Quando ganhei não me senti o maior do Mundo, mas achei que era melhor jogador do que era na realidade", admite.

Ainda trabalhou durante nove meses antes de se dedicar ao póquer como profissional. E foi quando desceu à realidade. "Não é fácil ser jogador a tempo inteiro", avisa, "é uma opção a tempo inteiro e é preciso estudar muito". Chris, actualmente um dos nomes mais famosos da modalidade, dá como exemplo a história de um amigo, que não nomeia. "Ele é profissional há oito anos e já detesta o póquer", revela, "o problema é que agora não consegue arranjar outro emprego, queria deixar de ser profissional mas não consegue e tem de continuar a jogar". Por isso, "tenham cuidado com o que desejam", alerta.

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Será fácil avisar para o perigo quando se está na posição de Moneymaker. Rico, semi-reformado aos 30 anos, como se assume, Chris é certamente mais alvo de inveja do que de compaixão. E quando se lhe pergunta se queria voltar à vida que tinha antes de vencer o WSOP, não hesita em afirmar que não.

Mas casos como os de Joe Cada, Chris Moneymaker ou Chad ‘Lilholdem’ Batista são apenas a ponta do icebergue. E apesar de os organizadores garantirem que não há muitos casos (ou mesmo nenhum) de quem tenha perdido fortunas a jogar póquer nas centenas de milhares de torneios que hoje em dia se realizam anualmente, ao vivo ou on-line, o póquer não é uma forma fácil de enriquecer. Será como ganhar a lotaria, diz quem sabe, pois afinal é só um jogo. E como em todos, para se ganhar é preciso sorte.

FENÓMENO GLOBAL

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Nos últimos anos o póquer massificou-se. A facilidade em aprender as regras, a par das histórias de anónimos que se tornaram milionários, foi a receita mágica. O surgimento de sites dedicados ao jogo na internet fez o resto. Milhões jogam on-line diariamente em todo o Mundo. O número de jogadores não pára de subir. Pokerstars, Fulltilt, PKR ou Pokerheaven são apenas quatro dos inúmeros sites onde se pode jogar a ‘feijões’ ou com dinheiro. Para se começar nessa última opção nem é preciso gastar.

Torneios de inscrição gratuita permitem ganhar os primeiros dólares (a moeda usada na maioria dos sites). Depois é ir subindo na ‘escada’ até se participar em provas onde a inscrição pode custar 1000 dólares ou mais – o prémio acompanha o investimento. Em alguns casos, o prémio é a inscrição em torneios ao vivo, com os sites a patrocinarem a viagem, o alojamento e a entrada na competição.

EXPLICAÇÃO DE UM JOGO QUE NÃO SE JOGA A FEIJÕES

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O póquer tem inúmeras variantes. Desde as cinco cartas atribuídas a cada jogador (o clássico que se via nos filmes de cowboys) até ao Texas hold’em, que hoje em dia é a vertente mais praticada. Nesta são distribuídas duas cartas a cada jogador e são feitas as primeiras apostas. Depois são colocadas três cartas na mesa, que podem ser usadas para combinações com as duas que cada um tem na mão e são feitas novas apostas.

Em seguida é colocada mais uma carta na mesa e os jogadores voltam a apostar. Finalmente, uma quinta carta é colocada na mesa e são feitas as últimas apostas. Para as combinações, que têm de incluir sempre cinco cartas, os jogadores podem utilizar livremente as duas que têm na mão com as cinco que estão na mesa. A qualquer altura o jogador pode desistir, perdendo o que já apostou. O que tiver a combinação mais forte e for até ao fim ganha tudo. Quando termina, voltam a dar-se cartas e começa uma nova mão.

DA VELHA ‘ESPADINHA’ AO PÓQUER 

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A grande maioria dos jogadores joga na internet, onde os torneios podem atingir valores astronómicos. E muitos nunca chegam a participar em torneios ao vivo, onde a inscrição ou a necessidade de deslocação acabam por afastar muitos. As ‘mesas’ de póquer, no entanto, são comuns entre amigos. Principalmente entre os mais jovens, que se encontram na casa de um deles para passar uma noite a jogar.

Em Portugal o fenómeno generalizou-se especialmente entre a população estudantil. E se a ‘espadinha’ era o jogo de cartas que dominava os bares das universidades nos anos 80 e 90, hoje em dia é muito mais habitual encontrar partidas de póquer a decorrer nos intervalos (e não só) das aulas.

NOTAS

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‘EDGE’

A expressão ‘edge’ designa a vantagem de um jogador face a outro, devido à sua perícia, o que lhe permite acumular mais fichas.

CONTROLO

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O póquer é um jogo que exige calma e ponderação. Um dos momentos mais temidos pelos jogadores é o ‘tilt’, que significa ficar descontrolado.

JOVENS

A maior parte dos jogadores tem entre 18 e 28 anos. A maioria tem como principal fonte de rendimento o dinheiro do póquer on-line.

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320 POR CENTO

De 2008 para 2009 os valores apostados no póquer, no site da Unibet, subiram 320 por cento.

10.300 EUROS

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Para entrar nesta competição de póquer, a decorrer nas Bahamas, cada participante teve de pagar uma inscrição (buy-in) no valor de 10.300 euros.

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