O ‘camaleão’ entre nós

Coube a David Bowie um dos primeiros grandes concertos de estádio em Portugal. As histórias de quem com ele se cruzou

17 de janeiro de 2016 às 15:00
Foto: Rui Costa
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O ‘camaleão’ entre nós

Coube a David Bowie um dos primeiros grandes concertos de estádio em Portugal. As histórias de quem com ele se cruzou

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David Bowie atuou duas vezes em Portugal, mas veio cá passar férias. Quem trabalhava no meio não esquece. O ‘camaleão’ estreou--se em Portugal precisamente a 14 de setembro de 1990, no estádio de Alvalade, perante pouco mais de 20 mil almas sedentas de novidade e de música. Era um dos primeiros concertos de estádio no nosso país e a chegada do circo do rock à cidade despertou a euforia de fãs, mas também a curiosidade de um público pouco habituado a tais andanças.

 

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Bowie tinha aterrado em Lisboa no dia anterior. O músico chegou depois de uma viagem de automóvel a partir de Madrid e consigo trouxe um médico, uma enfermeira e um fisioterapeuta. Ricardo Casimiro, empresário do mundo dos espetáculos que trouxe o inglês a Portugal em 1990 e 1996 (neste último ano em conjunto com Luís Montez) e que o contratou também em 2004, lembra o espetáculo de Alvalade, em que a primeira parte foi assegurada por um grupo de dança timorense (Timor dancers). "Tive oportunidade de falar com o David Bowie antes do início do espetáculo para lhe desejar as boas-vindas, já que era a primeira vez que vinha e atuava em Portugal. A seu pedido, expliquei-lhe o que estava em causa na questão timorense", conta Casimiro.  

Em 1990, Bowie estava numa fase de transição – como haveria de suceder várias vezes ao longo da carreira – e enveredou pelos clássicos. Uma escolha certeira num país desconhecido e pouco habituado ao encanto e às excentricidades das estrelas. "Vestido de branco e preto, clamou pelo Major Tom, perdido no espaço. ‘Space Oddity’ abriu um concerto que era, para todos nós, o de alguém que na Terra sabia os segredos do espaço. O seu mundo foi partilhado naquela noite em Alvalade, nesse longínquo ano em que o rock parecia fazer todo o sentido. Trazendo todas as respostas para as nossas eternas dúvidas. Mil vezes desaparecido e outras tantas ressuscitado, Bowie pareceu-me nessa noite o redentor da música. E das nossas vidas", recorda o jornalista Fernando Sobral, que esteve lá em reportagem.

 

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Luís Manso, jornalista e músico (Canal Caveira, Dr. Frankenstein) também lá estava: "Era o meu primeiro grande concerto de estádio. Claro que achei fenomenal. Naquele tempo, em que não havia YouTube nem redes sociais, era a única oportunidade de estar perto de um ídolo. Foi um concerto muito dançável, muito intenso".

 

Já Rui Miguel Abreu, crítico musical, dava então os primeiros passos na carreira. Trabalhava no jornal ‘A Capital’ e, mesmo sem que lhe tivessem dado essa incumbência, foi plantar-se à porta do Hotel Sheraton, onde sabia que Bowie e os seus músicos iriam pernoitar. Quando reconheceu alguns dos membros da banda a entrarem num carro, seguiu-os juntamente com o fotógrafo do jornal. A perseguição levou-os para a porta do antigo restaurante panorâmico de Monsanto. "Eu não sabia se o Bowie já lá estava dentro ou se ainda iria noutro carro e por isso não arredei pé. Às tantas veio um senhor inglês dizer-me que não podia estar ali. Com aquela coisa própria da juventude, argumentei que estávamos num país livre e portanto eu podia estar onde quisesse. Até que ele me diz: "Sabe, é que Mr. Bowie está ali dentro daquele carro e só vai sair quando vocês se forem embora". Então joguei a última cartada: "Dê-me cinco minutos com ele. Cinco perguntas. E depois eu vou." Assim foi. Dentro do carro encontrou um David Bowie simpático, surpreendido com a audácia e disponível para lhe responder às tais cinco perguntas.

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Bowie ao telefone

Seis anos depois, quando Bowie voltou para atuar naquela que foi a segunda edição do festival Super Bock Super Rock, o fotógrafo António Melão, mais conhecido nas lides por ‘cameraman metálico’, fez o seu primeiro e único serviço de paparazzi com Bowie. "Foi em 1996. Pediram-me fotos do homem a chegar ao aeroporto e eu lá fui de máquina às costas, sem muita vontade e pensando que os planos iam sair furados... Tive sorte, eu era o único fotógrafo naquela saída, apontei a máquina pensando que ele não ia gostar e fiz várias fotos. Ele nem se virou... seguiu viagem e eu também! As fotos saíram depois numa revista do social." O espetáculo coincidiu com um jogo decisivo para a Seleção portuguesa de futebol (quartos de final do Euro de 1996), as vendas em bilheteira tinham sido um flop, a ponto da organização ter aberto as portas livremente   aos portadores de cartão jovem. "Era um domingo e nesse dia à tarde houve um jogo de futebol entre Portugal e a Checoslováquia, jogo esse que Portugal perdeu por 1–0.

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Muito provavelmente como consequência do resultado negativo, instalou-se no País um certo clima de depressão nacional, o que se veio a revelar penalizador para a venda de bilhetes, não tendo a assistência final, se bem me recordo, ido além das cinco mil pessoas. No fim do espetáculo falei com ele e, sem que lhe tivesse pedido nada, mas apercebendo-se do nosso prejuízo, disponibilizou-se para ser ele a pagar a conta do hotel – que cabia por contrato ao promotor –, o que, obviamente, aceitei e agradeci. Um Senhor!" A terceira vez que Bowie esteve marcado para Portugal (2004, no Estádio do Dragão, Porto), um ataque cardíaco obrigou a cancelar a digressão.

 

Em 1996, Luís Montez era  um dos organizadores do concerto e teve apenas um contacto "circunstancial". Recorda que Bowie "era uma referência para todos os seus pares". Já o encontro de Teresa Lage, coordenadora de produção da RFM, com o músico, em Londres, em 1993, teve pouco de formal. "Falámos um pouco do disco, onde ele tinha uma música que se chamava ‘The Wedding Song’, em que falava sobre o seu próprio casamento, que tinha sido no ano anterior. Ainda estava encantado com a festa, dizia-me que tinha sido lindo, que tinham estado lá os sogros, vindos propositadamente da Somália, que por isso tinham casado na igreja. Um típico cavalheiro inglês. Achei-o baixinho! Fiquei sempre com a ideia de que era uma pessoa bondosa, um amigo verdadeiro dos colegas", recorda. 

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Cristina Espírito Santo, que na década de 90 era chefe do departamento de promoção da BMG, provou dessa generosidade. "Tinha uma série de entrevistas agendadas com os jornalistas portugueses, que estavam todos atrasados. Então liguei para Londres para dar conta da situação ao meu colega inglês, mas foi o próprio Bowie quem me atendeu. Caiu-me tudo ao chão. Ainda insisti ao telefone que não podia ser ele, apesar de ser a voz dele! E ele, muito calmamente, ia repetindo. "Sou eu mesmo! Estou tranquilamente ao lado do telefone, portanto não há problema com o atraso." Quem o confirma é Gabriela Carrilho, portuguesa e atual vice-presidente da Universal Records em Miami, mas que ainda conheceu Bowie em 1990, em Portugal. "Por experiência própria, sei o quanto os ídolos podem ser uma deceção… mas Bowie não. Era um gentleman."

 

Álvaro Costa, radialista e autor do programa de música ‘Portugal 3.0’ (RTP 2), viu Bowie ao vivo em França, Inglaterra e Estados Unidos em épocas diferentes: "Era o pai de todos os freaks. A pessoa que dava as pistas, o meu pai espiritual". Não menos impressionante foi a sua despedida: "Seria sempre uma grande perda, mas o facto de ter editado um álbum na sexta-feira e morrido na segunda ditou que tudo fosse diferente. Foi um grand finale, quase operático, ao estilo ‘Bela Lugosi’s Dead’. Jogou com o tempo, connosco e com a certeza da partida. Agora está a rir-se disso lá do céu". 

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