O Cante está vivo e recomenda-se

Foi uma paixão que nasceu com eles

28 de setembro de 2014 às 14:00
Foto: Bruno Colaço
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cantador pede 15 minutos. Se é para cantar uma moda, o cenário tem de estar composto. Os restantes elementos dos Ceifeiros de Cuba juntam as mesas e distribuem copos e pratos. Não demora muito a chegar o farnel. Uma linguiça prontamente passada à faca, um queijo, duas garrafas, tinto e branco ali da terra. Na sede do Grupo Coral, uma bonita sala que já foi de teatro, os homens dispõe-se à volta da mesa.

Come-se, bebe-se, a manhã está chuvosa mas ninguém desanima. Às tantas, o ensaiador  Ermelindo Galinha avisa: "Vamos a isto rapazes". E é ele que inicia a moda ‘Muito Bem Parece’. Faz a voz do Ponto, a seguir cantará o Alto, até entrar o coro, a plenos pulmões. Só estão metade dos membros do Grupo, mas as vozes impressionam.

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Os Ceifeiros de Cuba são personagens de ‘Alentejo, Alentejo’, filme de Sérgio Tréfaut que acaba de estrear nas salas de cinema. O documentário mostra o Cante Alentejano pelas vozes de quem o entoa, revelando  canções e histórias do Sul. Apoiado pela Câmara Municipal de Serpa, é mais um argumento na candidatura do Cante a Património Imaterial da Humanidade, decisão que a Unesco deverá anunciar no final do próximo mês de novembro.

JUVENTUDE-SE PRECISA-SE

O grupo dos Ceifeiros de Cuba é velho, de 81 anos. Tem mais idade o grupo do que qualquer um dos seus membros. Luís Anjos, presidente da direção, conta que atrair jovens para o Cante é uma das maiores preocupações. "Isto é uma cultura nossa, do Alentejo só peço à juventude que não deixe perder isto, porque é bonito. A juventude tem de pensar que tudo o que aprende é com os velhos, como eu aprendi", conta este camionista reformado, de 71 anos.

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Ermelindo Galinha, o ensaiador que já foi camponês, tosquiador e calceteiro, vai fazendo a sua parte. Tem 76 anos e é o que está há mais tempo no grupo, tinha 16 quando o fundador dos Ceifeiros o chamou. Tem um neto a cantar, está a ver se arranja mais gente. "Para trazer cá os jovens é uma carga de trabalhos. Antigamente havia um baile de vez em quando, lá vinha o Entrudo, o São João, agora o que eles querem é andar todas as noites na giraldinha, querem lá saber do Cante! Mas sou capaz de trazer para cá dois ou três dos mais novos".

Ermelindo e Luís são de uma geração em que o Cante se aprendia no campo, nos trabalhos agrícolas, e nas tabernas das aldeias. Tudo memórias de um passado distante, quando as máquinas não tinham tomado conta da lavoura e ainda havia tascas sem medo da ASAE. Mas há sinais de rejuvenescimento.

Em Beja, o grupo Bubedanas é formado exclusivamente por jovens. 

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Na Grande Lisboa há vários exemplos. Como os Rouxinóis da Damaia, um grupo infantil criado por uma professora alentejana em ambiente urbano, numa freguesia muito marcada pela imigração africana.  Tudo exemplos que Sérgio Tréfaut mostra no seu filme, em que o tema da desertificação do interior está presente, mesmo quando não se fala dele diretamente. Bento Carrasco Mestre, de 80 anos, é o mais velho dos Camponeses de Pias.

Admite que as pernas já não dão para todas as subidas, mas a cabeça  mantém a clareza: "Estes jovens hoje têm muita força de vontade, mas chega o dia em que têm de procurar a vida deles. São muito bem formados, mas são obrigados a deixar o Alentejo, muitos deles para o estrangeiro. Não é como nós que trabalhávamos o dia todo e à noite íamos cantar à taberna".

ENGENHEIRO E CANTADOR

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Em Pias ainda há tabernas. Por exemplo a do Pica Chouriços. José Maria Ramos conta ao balcão que a casa está na família há três gerações. "Foi o meu avô que abriu a porta, depois passou para o meu pai e agora estou eu". Sempre com as noites embaladas pelo canto de homens e mulheres da terra. Ao lado, o filho José, de 25 anos, descobriu há pouco tempo que também ele tem jeito para cantar.

Uma herança de família que chegou a enjeitar: "Quando eu era mais novo achava que o Cante era uma coisa de velhos, ninguém achava muita piada. Depois fui estudar para Beja, andei pelas tunas e descobri o gosto por estas modas".

Concluída a licenciatura em Engenharia, José Ramos está a fazer o mestrado em Segurança Informática, em Beja. Em agosto deste ano, aceitou o repto de António Lebre, dirigente dos Camponeses de Pias e juntou-se aos Mainantes. Um mainante é um boémio, um fora da lei. É também agora o nome de um coro juvenil que tem por objetivo descobrir talentos.

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"Está a correr bem, temos esperança de que possam sair daqui novos valores que depois se possam juntar aos Camponeses", conta António Lebre, para quem o Cante é um gosto que lhe está na pele. "O meu pai faz parte do grupo, sempre me lembro de ouvir os homens cantar e desde puto que me pus a cantar com eles".

E se as tabernas vão desaparecendo, o Grupo Coral e Etnográfico Os Camponeses de Pias resolveu agir. Comprou uma velha tasca já fechada na rua principal da vila e fez dela a sede, sala de ensaios e lugar de convívio para quem canta e para quem quer ouvir cantar.

"Às sextas-feiras e sábados isto tem sido uma animação", conta António Lebre, de 39 anos, gestor de uma empresa de pneus da Vidigueira. Orgulha-se das muitas viagens do grupo ao estrangeiro, que abriram novos horizontes: "Na Córsega existe um cantar que se assemelha muito ao Cante Alentejano. Ninguém sabe ao certo a origem, mas esta música resulta da mistura de povos que conviveram no nosso Alentejo ao longo dos séculos".

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Só tem elogios para o filme de Sérgio Tréfaut, de quem se tornou amigo ao longo dos três anos de rodagem de ‘Alentejo, Alentejo’. Ele filmou com carinho e isso nota-se".

CANDIDATURA AJUDA

A Aldeia Nova de São Bento passou a vila já lá vão mais de duas décadas, mas tem hoje menos de metade da população que ali vivia há 50 anos. Um dos que partiu foi António José Silva, de 58 anos, que encontrou emprego num banco de Beja.

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Mas volta todas as semanas a ‘casa’ para ensaiar com o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, um dos mais antigos da margem esquerda do Guadiana. "A terra é pequena mas o Cante ainda está bem vivo, existem aqui quatro grupos de homens, jovens e mulheres". Na pequena sala que o grupo ocupa no edifício da junta de freguesia, as paredes são a memória de um grupo que remonta aos anos 30 do século XX. Tempos em que, lembra Matias Torrão Preto, de 63 anos, "havia 53 tabernas a funcionar aqui na terra". Hoje não sobra nenhuma.

António José Silva é um entusiasmado defensor da candidatura do Cante a Património da Humanidade. "A visibilidade que a candidatura nos traz é completamente diferente. Tem sido excelente para o Cante e para a cultura alentejana. Só pelo facto de haver essa candidatura já apareceram vários grupos de miúdos. O que importa é que o Cante prolifere no Alentejo e não só, porque há grupos na Grande Lisboa e no estrangeiro".

Explica que os benefícios não são só para o Alentejo: "É uma riqueza enorme, que traz gente que quer conhecer o que é este património. Quando cantamos em Lisboa, há italianos, brasileiros, americanos, muita gente que nos pergunta quem somos e de onde vimos. As pessoas têm curiosidade. Mesmo que o Cante não seja considerado património, só o facto de haver candidatura já nos trouxe muita visibilidade".

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ELAS TAMBÉM CANTAM

Em São Bento, um grupo de mulheres prolonga a vertente feminina  do Cante Alentejano. Francisca Romeiro, de 63 anos, é uma das vozes. "Hoje já há muitos grupos de senhoras. O nosso nasceu de uma conversa entre amigas que depois se transformou numa coisa mais a sério". O Coral Madrigal prepara-se para gravar o primeiro CD.

No Cante, é raro ouvir homens e mulheres em conjunto. "Cada coisa tem o seu encanto, gosto muito de as ouvir cantar, mas não me soa bem misturar as duas", diz Luís Anjos, de Cuba.

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Para Sérgio Tréfaut, nascido em São Paulo, no Brasil, mas com raízes paternas em Moura, o Cante tem tudo para prosperar. "Está a acontecer um grande desenvolvimento, aparecem grupos novos, alguns formados por jovens, tenho a certeza de que o Cante tem muito futuro".

O filme segue em breve para vários festivais internacionais. O Mundo há de saber como se canta na imensidão da planície alentejana.

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