O comboio já não pára ali

Levou e trouxe mercadorias e pessoas mas, há sete anos, a circulação entre a Covilhã e a Guarda foi interrompida

08 de maio de 2016 às 16:00
Linha da Beira Baixa Foto: Nuno André Ferreira
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Pouca terra e uma longa espera. Pelos 46 quilómetros de linha férrea que separam a Covilhã da Guarda, o comboio nunca mais passou desde 9 de março de 2009. A renovação da infraestrutura que um dia simbolizou o fim do isolamento está atrasada há anos, por entre cargas de promessas.

O caminho de ferro da Beira Baixa une o Entroncamento à Guarda pelo interior dos distritos de Santarém e Castelo Branco. A janela do comboio é um quadro de paisagens fascinantes. O trajeto ladeia as margens irrequietas do Tejo, sobe ao planalto de Castelo Branco, irrompe pela serra da Gardunha até à Covilhã. Depois parou. Há sete anos que não passa pelas trincheiras de granito, picado à força das mãos e da dinamite por centenas de operários, na velocidade de cruzeiro da ferrovia em Portugal, na segunda metade do século XIX.

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As automotoras verdes e beges da CP, com 70 anos de cansaço mas de cara nova – os ferroviários chamavam-lhes, com ironia, ‘Lili Caneças’ – percorriam lentamente a meia encosta da serrania até à cidade mais alta. Pedras suadas das nascentes, ribeiras em cascata, desfiladeiros vertiginosos, casebres e pontes com uma altura de suster a respiração. Ao fundo, de dezembro até ao final da primavera, avistavam-se os picos ainda nevados da Estrela. Tudo o comboio levou.

MARIA PAPOILA

A linha foi inaugurada a 6 de setembro de 1891. Tornava possível viajar da Beira Baixa até Coimbra sem um transbordo. Hoje é obrigatório descer ao Entroncamento, fazer mais quilómetros e pagar demasiado por uma viagem longa, demorada e cansativa. Ou então pagar portagens na A23. A ligação da Covilhã à Guarda está suspensa há sete anos para dar início aos trabalhos de modernização, mas a crise freou tudo.

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Na estação do Sabugal – a primeira paragem rumo a sul à saída da Guarda –, o edifício está entregue ao vandalismo. Vidros partidos, paredes sujas com graffiti, mobiliário destruído, lixo espalhado pelo chão. As janelas das bilheteiras e as portas foram emparedadas e o relógio da gare roubado. Cá fora, empilham-se travessas de madeira e carris arrancados para os camiões poderem chegar ao túnel lá adiante. De nada valeria o aviso de que é proibido andar na linha. A que está presa ao chão ficou tapada por um mato lamacento.

"Nunca mais cá passa o comboio, quanto mais voltar a ver isto como era há 50 anos", sentencia António Correia. O veterano ferroviário aceitou regressar àquele edifício devoluto onde trabalhou doze anos mas onde "não punha os pés há uns 40". Quem diria, para quem mora mesmo em frente e é conhecido no Barracão – a aldeia onde fica a gare – como o "António dos comboios". Levanta o olhar do chão ao tecto. Por instantes, parece recordar-se do corrupio de encomendas e passageiros àquela hora. A saudade rasa o olhar. Contém-se. "Vinham cinco e seis carreiras do Sabugal. O comboio para Lisboa parava aqui antes do meio-dia e atrasava-se até que todos embarcassem", lembra. Gente de todas as idades perdeu a inocência da grande cidade ou viu o mar pela primeira vez. A história da Maria Papoila retratada em tantos rostos.

Os que ficavam pela Raia traziam "sacas de batatas ou cestas com queijo e enchidos. Despachavam a mercadoria para os familiares", a oito horas de distância.

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Em tempos, "cinco comércios e uma padaria governavam-se com o comboio aqui à volta", recorda Hermínio Ferreira, de 71 anos, proprietário de uma taberna pitoresca há 45. Uma saudade enorme da boa vizinhança com a velha estação. O negócio "dava para todos. Quantas vezes os passageiros iam embora sem ser atendidos..." Aquele Largo da Liberdade era um rossio com tanto vaivém de autocarros, carrinhas de mercadorias e gente. Hoje, o silêncio só é quebrado pelos pássaros e pelos carros dos residentes. Atento às lembranças do dono da casa, Telmo Martins, de 26 anos, atalhou a conversa para reclamar do fim do meio de transporte. "Andei a tirar o curso de eletricista na Covilhã e apanhava aqui a automotora. Via que as aldeias, daqui em diante, estavam habituadas a viajar. Ainda hoje o comboio lhes faz falta", como se fosse uma cesta de mão onde se leva e traz da cidade o que é preciso. Telmo envergonha-se. "Agora vêm fotografar a estação, como se isto fosse um espetáculo digno de se ver." A aldeia que acertava as horas pelo movimento "não é mais do que uma quinta".

Até 2009, seis vezes ao dia, o ramerrame da automotora desassossegava as aldeias por onde passava. Três viagens para cima, outras tantas para baixo. Em várias ocasiões, foi imprescindível para deixar circular os serviços nacionais e internacionais da CP quando os comboios, por qualquer impedimento, não passavam na Beira Alta – essa sim, considerada estruturante e um dos mais importantes corredores ferroviários transfronteiriços de passageiros e de mercadorias.

Hélder Bonifácio, do Grupo de Amigos da Linha da Beira Baixa, considera "injusta" a desclassificação a que foi sujeito este troço. "Ainda que a viagem entre a Guarda e Lisboa seja mais curta por aqui cerca de 50 quilómetros", a Beira Baixa perdeu importância. E, sete anos depois, "não se compreende porque continua por requalificar o único troço amputado". O entusiasta, residente na Covilhã, fundou há 25 anos – como forma de assinalar o centenário da viagem inaugural – uma associação que quis ser lobby reivindicativo de mais investimento no caminho de ferro. Chamava-se, precisamente, 6 de Setembro, data em que os reis chegaram à Cidade Neve, em 1891. Um acontecimento de enorme importância histórica para uma época em que a indústria têxtil trabalhava a todo o vapor na Manchester portuguesa.

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TUDO POR FAZER

A década de 80 foi de "má memória" para a ferrovia, diz Hélder Bonifácio, com a supressão de "cerca de mil quilómetros de linha de norte a sul". Pressionado pelas consequências trágicas do acidente de Alcafache, a 11 de setembro de 1985, o Governo de Cavaco Silva viu-se obrigado a modernizar a linha da Beira Alta, enquanto esta ficou a ver os mesmos comboios. Em julho de 2005, os projetos de modernização estavam concluídos, e o Governo de José Sócrates dava luz verde à Refer para avançar com 150 milhões, de modo a que toda a linha estivesse modernizada em ano e meio. Havia tomado posse há meses e dizia que, "se a requalificação não for feita agora, a via-férrea da Beira Baixa está condenada ao esquecimento".  

De atraso em atraso, as locomotivas elétricas só chegariam à Covilhã em 2011. Os trabalhos prosseguiriam até chegar à outra ponta, mas a crise mandou parar os trabalhos. Carlos Pinto, ex-presidente da Câmara da Covilhã, chegou a ironizar que, "a este ritmo, o comboio chega à Guarda daqui a 30 ou 40 anos".

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Ficou quase tudo por fazer. E o que foi feito poderá não servir para nada. Antes da ordem de paragem das obras, o túnel do Sabugal foi reforçado e rebaixado, de modo a caberem no seu interior as catenárias que fornecem energia elétrica às locomotivas. E entre Maçainhas de Belmonte e a vila de Caria, foram substituídos os carris originais de 1890, mas por onde nunca circulou uma única composição e cresce o mato por entre gravilha e ferrugem. Aí foram gastos 7,5 milhões de euros.

A atual gestora da ferrovia – a Infraestruturas de Portugal – aguarda pela abertura de linhas de financiamento comunitário e é provável que o investimento agora seja superior ao estimado em 2009, de 85 milhões de euros em obras só naquele lanço. Sem corrigir o traçado: apenas colocar os fios elétricos, sistema de comunicações e segurança, carris mais robustos e permitir o aumento da velocidade em alguns – poucos – locais, porque todo o percurso é uma serpentina.

Se houver dinheiro só para isso, talvez em 2017 sejam retomados os trabalhos e a circulação entre a Guarda e a Covilhã volte em 2018. Ao fim de nove anos a não ver passar os comboios.

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