O padre mais desejado

O pai não o quis padre, mas ele não fraquejou. A vida do sacerdote que pôs Canelas contra a diocese.

23 de agosto de 2015 às 15:00
Padre Roberto, Canelas Foto: Rui Miguel Pedrosa
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Os fiéis de Canelas nunca se calaram. Em junho do ano passado fizeram um abaixo-assinado a reivindicar a manutenção do seu pastor. Seguiu-se um cordão humano na freguesia e uma vigília, que desfilou pelas ruas do Porto até à Sé, com a palavra "corrupção" escrita em cartazes. Enviaram três mil cartas, em agosto, ao vigário responsável pela paróquia.

Quando, no final de outubro, a Diocese confirmou que Roberto vai mesmo deixar Canelas, a luta subiu de tom. Das vigílias à porta da igreja com cartazes colocados no coreto de Gustavo Eiffel, ao protesto acalorado, por vezes com excessos, nas primeiras celebrações do novo padre, Albino Reis – que saiu, dezenas de vezes, escoltado pela GNR. Os apelos à paz do novo pároco e da Diocese não convenceram os fiéis, que se juntaram, dia após dia, à porta da igreja. Gritaram por Roberto. Deram voz aos cânticos que o anterior pastor lhes ensinara. Já em janeiro, um cortejo em tom carnavalesco, intitulado ‘Crime de Canelas’, satirizou os últimos acontecimentos, com paroquianos vestidos como militares, empunhando cartazes onde se lia ‘Je suis Roberto’ e ‘Limpeza na Igreja’. Pararam o trânsito, num dia de chuva, para a representação. Duas semanas depois, Roberto regressou a Canelas. Fez uma celebração em honra de Nossa Senhora das Candeias, com mais de 700 fiéis, numa escola de dança. Os paroquianos já não se sentem paroquianos. Não aceitam o novo pastor. Participaram, nos últimos meses, nas sete celebrações eucarísticas realizadas com o padre Roberto, após a saída da paróquia. Dezenas continuam a reunir-se à porta da igreja, de quarta a sábado ao final da tarde e ao domingo de manhã, enquanto o templo, de portas abertas, recebe outros fiéis, habitualmente em menor número, missa após missa.

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Quem fica à porta não desiste. É o caso de Constância Carvalho, de 74 anos, que guarda inúmeras fotografias do padre em sua casa. "Sou por ele, enquanto puder. Queremos justiça. Ele não é mentiroso. Conseguiu chamar o meu filho para a Igreja e ajudou-me quando ele morreu. É amoroso. Queremos saber porque é que ele se foi embora".

Roberto é, hoje, o padre satélite da Diocese do Porto. Fala em chantagem e difamação. Desafia o bispo do Porto a revelar a carta que lhe tinha enviado há quase um ano. Mas quem é o padre Roberto?

FILHO DE BESTEIROS

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Nasceu em Besteiros, no concelho de Paredes, a 9 de setembro de 1975, numa família que vivia da indústria do mobiliário, como tantas outras do Vale do Sousa. Ali estudou até concluir o oitavo ano de escolaridade.

Roberto Carlos Sousa raramente ia à missa e era muito crítico da Igreja. Em maio de 1989, a mãe convenceu-o a acompanhar os pais num fim de semana em Fátima. Foi, contrariado. No recinto, percorrido por milhares de fiéis que, ajoelhados, imploravam luz divina e onde outros tantos libertavam lágrimas de dor enquanto queimam uma vela pela alma daqueles que partiram, viu um grupo de jovens sacerdotes polacos. A serenidade estampada naqueles rostos levou-o a pensar que gostaria de ser assim, feliz.

Ingressou num centro dehoniano (Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus), em Gondomar, onde completou o ensino preparatório, seguindo depois para o seminário. Perseguia a mensagem pastoral da congregação – a libertação de tudo quanto lesa a dignidade do Homem e ameaça a realização das suas mais profundas aspirações: a verdade, a justiça, o amor, a liberdade.

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A mãe de Roberto sempre esteve ligada à Igreja. Mas deu ao filho mais novo liberdade na escolha do seu próprio caminho de vida. O pai nunca deu alento àquela paixão por Cristo, nascida na adolescência. Não gostou que o filho seguisse para o seminário e, anos mais tarde, chegou até a tentar convencer os sacerdotes a expulsarem Roberto para que o futuro do benjamim da família fosse longe da Igreja e semelhante às escolhas da filha e do outro filho, ambos mais velhos.

Roberto fugia à imagem típica do seminarista. Era irreverente. Erguia a voz quando alguém era prejudicado. Nunca entendeu que as ordens superiores são para cumprir de forma cega, como alguns colegas. Era considerado por muitos o ‘enfant terrible’ do seminário.

AMORES DE JUVENTUDE

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Roberto mantinha o sonho de ser padre. Mas o coração pô--lo à prova. Com os ‘namoricos’ da adolescência e, mais tarde, uma amiga especial, que o cortejava. Roberto decidiu-se pelo amor divino. Ela, médica, esperou que ele fosse ordenado sacerdote para que a pudesse unir ao homem com quem escolhera partilhar a vida. Foi o primeiro casamento que celebrou, em Amarante.

Roberto fez o secundário, entre dehonianos, em Coimbra. Depois do ano de reflexão (noviciado), em Aveiro, rumou a Lisboa, para estudar Teologia na Universidade Católica. Interrompeu o curso, depois dos dois primeiros anos, para participar numa missão em Madagáscar, onde voltou várias vezes nos últimos anos. Quando regressou a Portugal, em 1999, dedicou-se aos livros e terminou o estudo da divindade já em 2002. Decidiu regressar ao Norte e inscrever-se na licenciatura da Católica do Porto em Arte e Património, que não concluiu.

Por esta altura, foi acolhido no Centro de Espiritualidade Betânia, em Duas Igrejas, no concelho onde nasceu. Ali estava o padre Abel Maia – que, referiu o padre Roberto numa carta enviada ao bispo do Porto, em setembro do ano passado, terá praticado abusos sexuais a menores, em 2003. Roberto era então diácono. Acompanhou uma das vítimas – que tentou o suicídio, recuperou e não quis apresentar queixa para evitar o escândalo. Comunicou aos superiores este caso. Abel deixou Paredes e foi para Roma. Naquele ano, Roberto Sousa foi ordenado sacerdote. Esteve em Betânia até 2004. Nesse mesmo ano, pediu a incardinação na Diocese do Porto, que foi concedida pelo então bispo D. Armindo Lopes Coelho num tempo considerado recorde. Seguiu para o Centro Dehoniano da Boavista, no Porto e, em 2006, chega à paróquia de Canelas, em Gaia.

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Oito anos depois, um diferendo com o vigário-geral de Gaia-Sul e outras personalidades daquela freguesia por causa da localização de uma estátua de homenagem ao padre Gabriel (que liderou 28 anos a paróquia de Canelas) terá estado na origem da decisão da Diocese do Porto, no início do verão de 2014, de ordenar a saída de Roberto para uma paróquia do Vale do Sousa e Tâmega. Foi invocada a "normal rotatividade" de sacerdotes. O pároco recusou. Os fiéis uniram-se contra D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto.

Em março e abril deste ano, a Diocese do Porto promoveu cinco encontros entre os principais atores da "crise de Canelas". Dois cónegos foram mandatados pelo bispo para as reuniões, nas quais participaram também o padre Roberto e representantes da comunidade paroquial.

"Caso eu aceitasse uma qualquer paróquia do Porto (mas nunca Canelas), a diocese estaria pronta a reconhecer que nunca houve rotatividade nenhuma, mas antes abdicação diante do capricho de um grupúsculo influente de Canelas; que houve, de facto, tentativa de difamação e maledicência contra a minha pessoa com cumplicidade da Cúria; e que a qualidade do meu trabalho pastoral em Canelas nunca estivera em causa", afirmou, no último dia 7, o padre Roberto Carlos Sousa. "Sei os riscos que assumo ao abraçar esta causa e este combate pela verdade e pela justiça. Sei o quanto incomoda e, logo, purifica a instituição ao fazê-la voltar ao essencial", concluiu.

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Já no final de abril, após os cinco encontros, o movimento Uma Comunidade Reage – entretanto formalizado como associação – emite um comunicado, no qual afirma que, das negociações, consideradas "inconclusivas", ficou claro que "a Diocese reconhece (…) que cedeu a pedidos da comissão da estátua para afastar o padre Roberto", "reconhece que o padre Roberto foi vítima de calúnia e de difamação com origem na própria Cúria" e "regista que o perfil do padre Albino Reis não é adequado ao trabalho e ao contexto pastorais de Canelas".

Roberto fez, a 2 de novembro de 2014, a última celebração na igreja de Canelas. No mesmo mês, a carta privada que referia abusos sexuais a menores em 2003, é enviada pela Diocese do Porto ao Ministério Público, que já arquivou o inquérito. Entretanto, decorre o processo canónico.

A poucos dias de completar 40 anos de vida – no dia da dedicação à Sé do Porto –, Roberto está a percorrer o caminho francês para Santiago de Compostela, que demora 40 dias.

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"ELE FOI SEMPRE FRONTAL, O QUE CRIA ANTICORPOS"

 

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Orlando Freitas foi colega de Roberto no seminário, em Coimbra, durante o noviciado em Aveiro e na Universidade Católica de Lisboa. "Ele sempre foi frontal. Quem não o conhece fica espantado, o que cria, por vezes, anticorpos. Mas ele é mesmo assim. Também é observador, sociável e divertido. Digamos que foge ao perfil ‘normal’ de alguém ligado à Igreja. Alguns aceitam, outros não." Orlando recorda o gosto do sacerdote pelas artes, em particular pela pintura. "Tem uma forma de ver a vida e Deus que é diferente, mais ligada às manifestações do espírito", acrescenta este madeirense, que optou por casar e é hoje um pai de família.

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