Obra de duas bocas
É um bailado que só carece de duas bocas. Lábios. Amor. Paixão. E língua, se usar o método francês. Beso. Bisou. Bacio. Beijo. Erótico. Sensual. Delicioso. Imensidade de saliva amorável. Ninguém ama ou amou sem ter sido dançarino desta dança. O beijo pode ser um excelente ‘paso-doble’ para o sexo. Ou a expressão máxima de duas almas em sintonia.
Amar, afinal, é científico: quando alguém se apaixona o seu organismo é amorosamente atacado por várias substâncias, entre elas a feniletilamina, que, segundo os cientistas Donald F. Klein e Michael Lebowitz, é a presumível responsável pelas sensações e modificações fisiológicas que experimentamos ao beijar.
Desde Setembro, o efeito do primeiro beijo arranjou pernas para andar no estrado da Ciência. A universidade norte-americana de Indiana revelou que o relacionamento futuro de 61 por cento das mulheres está dependente dessa estreia de sentimentos.
Sendo o primeiro, o segundo, e que nunca seja o último, o beijo é um estupendo meio de paz em período de guerra e um termómetro que atesta o estado de uma relação afectiva. Se estiver com febre, tanto melhor. Ver para escrever. E fomos para a rua. Dois dias. Duas pessoas. Repórter e fotógrafo. Houve quem fugisse a sete pés. Alguns riram com pena de não ter coragem. Muitos deviam estar constipados e taparam nariz e boca. Outros pensaram que era uma partida. Sobraram os melhores.
Os ténis amparam a espera. Na Rua Garrett, os casais conversam, caminham, dividem chocolates, partilham bebidas e croissants nas esplanadas. Mas beijar como a canção ‘Besa-me mucho’ nem por isso. E os raros extrovertidos que praticam o que fez o Príncipe Encantado à Bela Adormecida declinam o desafio com risos corados, sorrisos amarelos, ou de dentadura afiada.
Apesar de já não ser necessário cem anos para que uma criatura seja despertada por mimo, não é fácil consentir que uma Nikon capte o ‘cinjo’ de quatro lábios derretidos de ardência. Já passaram quatro horas. Centenas de namorados. Muitas alianças nos dedos. As respostas parecem coros combinados: “Não. Obrigada. Se fosse outro tema…” Mas não. O tema não é o beijo de Drácula. De Judas. Da Máfia. Maternos. Dos esquimós. É aquele que é desenfreado de desejo, próprio dos amados e amantes, tão maravilhosamente sintetizado pelo filósofo francês Jean Rostand (1894-1977): “Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido.”
‘È vero’ que o cigarro mata, maltrata os pulmões, mas depois de aceso consegue provocar a visão de o milagre.
Um rapaz e uma rapariga dão a curva de braços enlaçados. Não só. Muito melhor. As suas bocas fazem de stop amoroso na descida. Abrandam o passo para que elas se colem. São duas, porém a paixão transforma-as no singular carinhoso.
O convite só vem a seguir ao intervalo. Interromper um xi-coração de bocas supera uma maionese estragada. A timidez dos jovens intenta recusar. Contudo, a juventude é feita de carne, de osso e de algo repleto de terna imprevisibilidade. Aceitam. Joana e Ricardo partilham o sigilo que dispensa tímpanos.
Os quatro anos de namoro firme conhecem o poiso certo, o encaixe perfeito, inerente, absoluto, de meiguice crescida. As pernas tocam-se. Os pés ficam ligeiramente de bicos. A cabeça inclina para o lado direito. Uma mão na cintura. A outra desce mais abaixo. Bocas nas bocas. Molhadas de saliva e linfa terna. A máquina dispara. Dispara. Escusado o flash, porque o sol de São Martinho irradia mais luminosidade que o mecanismo.
Os curiosos surgem das trevas. Abrem a garganta de espanto e de cobiça. Não incomodam uma futura advogada e um designer. Quem beija cega. Não quer olhos abertos. A íris apenas renasce no final. Devagar. Com cuidado.
Esteve no escuro, mas o acto de beijar traz um clarão que ultrapassa a tocha do dia. “Não me canso de beijar a Joana.” Bravo. Durante o beijo são mobilizados vinte e nove músculos. Os batimentos cardíacos conseguem aumentar de setenta para cento e cinquenta. O sangue agradece. A oxigenação melhora. Os enfartes emigram para o bilhar grande.
A Ciência, perduravelmente explicativa, avança que, no decorrer de um beijo, água, albumina, sais minerais, e outras substâncias, pastoreiam de uma boca para a outra. A imagem é senhora de lembrar tosse de nojo. Não. Longe disso. Louvado sarau vivido entre a hipófise, o tálamo e o hipotálamo que libertam tais matérias.
Joana e Ricardo, bailarinos do amor, só precisam de mãos para as levar ao canto da face. O resto concluem os lóbulos carnais. Osculam-se há tempo e afecto suficiente, que mostram a morada do Paraíso.
UM CHAT
O tempo, para alguns, não traduz falta de intensidade. Um chat aproximou-os. Em Junho.
O Sr. Bill Gates ainda não descobriu um programa informático que consiga unir bocas on-line. Já tinham treinado, e até experimentado no espelho, os vários tipos de beijo que dariam. É preferível. Com certeza. Em Portugal e na Conchinchina.
O beijo ser dado pessoalmente. Sem recados. Carne-a-carne. William veio de Nova Iorque e Zidra da Lituânia para esse efeito. O primeiro beijo nasceu no Chiado há três dias. “É assim que a Zidra gosta.” Assim. Boca fechada. Talvez as línguas tenham ido de férias. No beijo que Mário dá a Fabíola, elas nunca irão. “Ele beija-me muito bem!” Acreditamos.
O conceito do seu parceiro, cuja barba não atrapalha a enfermeira, é irresistível: “O beijo assemelha-se a uma mousse de chocolate.” Come-se uma colherada e quer--se mais. Mais. Muito mais.
Doce é o beijar de José e de Teresa. Vinte e oito anos de casamento. E trinta de beijos. A senhora que ensina crianças a serem bons adultos não sorri à exposição pública. O marido, moreno simpático, convence-a. Diz-lhe que não há nada a perder. Abraça-a na boca. De leve. “Já está?” Teresa pressente a multidão. Não só. Tem pressa. Não tanta como o casal de alemães que apenas possui meia tarde para visitar a capital. “To kiss my wife?” Sim. Beijar a mulher. Na cara também, mas sobretudo na boca. “For what?” Artigo para uma revista, e porque a amas. Sabine ri. Anui.
Joseph muda de cor e de posição. Frente a frente. Ele não a beija. É beijado. Fica satisfeito. Até tropeça. Acontece. Até aos campeões: Sarti, um italiano que, em 2004, bateu o recorde mundial do Guinness por ter beijado ininterruptamente a sua namorada durante, imaginem, 31 horas e 18 minutos. No final da maratona valeu-lhe uma bilha de oxigénio. Quanto à companheira, ar não lhe faltou, foi para a cama. Sozinha. Dormir.
DAS ESCADAS DO METROPOLITANO
Das escadas do metropolitano sobem e descem dúzias de casais. Alguns, convenhamos, vêm ensonados. Entre dez negas, vem o sim de Andreia e Alexandro.
Brasileiros a viver em Lisboa, baianos que gostam mais de beijar do que de caipirinha. “Olhem: já podem tirar a foto.” Olhamos. E aí está. Um beijo ao ritmo de samba. Os corpos balançam sem saírem do solo. Unicamente as bocas dão o mote de Martinho da Vila.
A música chega da Rua Nova do Almada. Fado. Ivan Lins espera por um táxi. Bruno e Micaela querem entrar nos Armazéns do Chiado. Mas entrarão mais tarde. Vão tão juntinhos que seria um miserável crime deixá-los passar. Sim. Não. Não. Sim. Yes. A vontade feminina ganha.
O quase engenheiro não se importa. Ensaia. Fecha os olhos claros. Não precisa que lhe digam onde moram os lábios da amada. Um rapaz distribui cereais da Nestlé. Nem sabe o que perde. A fibra das bocas dos jovens forma um beijo sentido.
Não é demolir prazeres mas a origem do que é bom, bom, se bem dado, com a pessoa certa, mesmo que seja no momento errado, é desconhecido.
A referência mais antiga data de 2500 a.C. e está registada nas paredes dos templos de Kahjuraho, Índia. Muito antes, em ‘O Cântico dos Cânticos’, do mulherengo Rei Salomão, o erotismo do beijo ficou bem explícito: “Que belo é o teu amor, ó noiva minha! Quanto melhor é o teu amor do que o vinho… os teus lábios, noiva minha, destilam mel. Mel e leite estão na tua língua…” Os Romanos, povo que aplaudia o vinho e o verbo beijar, eram fartos em tradições relacionadas com o mote. Além de terem construído estradas, aquedutos e anfiteatros, instituíram três tipos de ósculo, e não esqueceram aquele que, felizmente, acerta nos lábios: “Basium”.
Na Roma antiga, os casais noivavam dando um beijo à frente de um mar de gente. Não só as cartas de amor eram seladas com um beijo mas idem contratos comerciais. No período da Renascença, o beijo na boca significava uma mera saudação. Em Inglaterra, o hábito mandava a visita beijar o anfitrião, a esposa, os filhos e, inclusive, cães e gatos, invariavelmente no mesmo sítio: boca. No século XV, enquanto os nobres franceses tinham a sorte de beijar todas as mulheres que desejassem, os italianos deveriam casar, coitados, com dama que beijassem em público.
A partir do século XVII, os homens substituíram o beijo na boca pelo abraço. Paralelamente, os religiosos trocaram o poiso do ósculo pelos pés. Palmas das mãos. Aperto de mãos.
Com o surgimento do Romantismo, que, e ainda bem, enfatizava o lirismo e as fantasias, incentivou romances e favoreceu rubras paixões, e, à tabela, os beijos conquistaram colossal espaço. Com o feminismo, a mulher, mais liberta, já não se acanhava em patentear os seus desejos.
A literatura desta época e os filmes produzidos por Hollywood mudaram os costumes. O primeiro beijo na boca dado no cinema foi em 1896 – “O Beijo”, de Edison. As línguas dos actores devem ter ficado enroladas. Vemos bocas unidas por um instante e mais nada.
EM 1939
Em 1939, “E Tudo o Vento Levou” arrecadou dez Óscares por mérito e certamente pelo beijo protagonizado por Vivian Leigh e Clark Gable. Três anos mais tarde, “Casablanca” emocionou audiências com a cena do beijo que o teimoso Rick (Humphrey Bogart) pespega a Ilsa (Ingrid Bergman). Em 1953, “A um Passo da Eternidade” provocou asma ao Mundo. Burt Lancaster e Deborah Kerr interpretaram um dos beijos mais reconhecidos da história do cinema e que deu, e ainda dá, muita arritmia a muita mulher.
Ruy de Carvalho já beijou muitas actrizes. Aliás, beijou as personagens que elas desempenham. O seu coração nunca palpitou. Quando o realizador manda beijar, o veterano actor cumpre o seu papel. Beija. Questionado se sentiu algum calor durante o beijo técnico, Ruy de Carvalho responde com um sorriso: “Sinto muito respeito pelas minhas colegas e vontade de trabalhar, mas mais nada.” Não é a Paula Lobo Antunes que sente emoção nos beijos que dá ou recebe na tela e no palco. “São as personagens.” Beijar é igual a chorar. Cantar. Rir. É parte integrante de ser actriz. “Por tal a emoção jamais poderá ficar de fora.”
De fora ficou, por causa do padre, a sequência de beijos que “Cinema Paraíso” guarda para um emocionante final. Reis. Camponeses. Soldados. Totó. Charles Chaplin. Louras. Morenas. A beijar. Beijar. Muito.
Os tempos em que o beijo erótico era alvo de censura felizmente foram pelo cano abaixo. Ainda assim, mesmo nas sociedades ditas democráticas, o beijo na boca entre dois homossexuais continua a fazer tossir alguns moralistas. Na vida real, há países que tossem menos. Portugal talvez ainda tenha, de facto, alguma gosma em relação a isso. E se já é difícil encontrar casais heterossexuais em pleno ósculo, será preciso uma lupa para se ver gays e lésbicas em pleno beijo.
Na esfera cinematográfica, o realizador Pedro Almodóvar foi um dos impulsionadores para que se expusesse na tela o que até então significava mil reticências. Através da sua realização, beijos entre pessoas do mesmo sexo deixaram de ser um bicho de sete cabeças. Mas seria em 2005 que o filme “Brokeback Mountain”, de Ang Lee, causou furor em todas as esquinas do Mundo. O beijo protagonizado por personagens homossexuais fez transbordar plateias.
O beijo, e não importa em que bocas poisa, é definitivamente a menor distância vivida entre dois seres apaixonados. Uma espécie de prova de fogo. Um encontro sem datas. Um céu aberto de línguas.
"BEIJO BENEFICIA A SAÚDE CARDIOVASCULAR" (Bruno Inglês, psicólogo clínico e mestre em sexologia)
- O que é o beijo erótico?
- Todos aqueles que despertem ou tenham o intuito de despertar o desejo, a excitação ou o interesse sexual. Estes beijos não se resumem obrigatoriamente à boca, podendo explorar toda e qualquer parte do corpo. O beijo erótico é usado em contexto sexual ou de expressão da sexualidade, como por exemplo durante os preliminares, e pode ser tão importante na interacção sexual que algumas pessoas relatam não conseguir atingir o orgasmo sem recorrer aos beijos. Não podemos esquecer que nem sempre os beijos entre duas pessoas têm um carácter erótico-sexual. Aliás, boa parte das vezes são expressão de afecto, amor, romantismo e intimidade.
- Que alterações sofre o corpo durante o beijo?
- Durante um beijo erótico e sensual, o ritmo cardíaco pode aumentar, beneficiando a saúde cardiovascular. Além disso, o beijo é capaz de estimular a libertação de hormonas que provoquem as sensações de prazer e bem-estar. Também os aspectos emocionais e psicológicos contribuem activamente para estas duas últimas sensações. Por fim, alguns músculos da face são, idem, exercitados.
- Qual é o peso do primeiro beijo?
- É natural que a primeira vez que duas pessoas se beijam seja importante e até determinante para a existência de beijos subsequentes. Em alguns casos poderá ser desagradável e conduzir ao afastamento. Este tipo de ‘poder especial’ surge com frequência associado ao sexo feminino, alicerçando-se muitas vezes no seu suposto ‘sexto sentido’.
A BEIJADA EXIGIU OS SEUS DIREITOS
A fotografia de Robert Doisneau é a mais vendida do Mundo devido à história à qual esteve associada. Pensou-se que fosse espontânea. Mas quando, em 1992, dois impostores se fizeram passar pelo casal, o fotógrafo revelou que o verdadeiro casal tinha posado para si. Após 55 anos, Françoise Bornet (a mulher do beijo) reclamou os direitos de imagem e recebeu 200 mil dólares.
Outro caso: como símbolo do final da II Guerra Mundial, ficou registado o beijo entre a enfermeira Edith Shain e o marinheiro Carl Muscarello, na Times Square; 50 anos depois da foto, publicada na ‘Life’, reencontraram-se na BBC
e repetiram o beijo.
SABE BEM MAS TAMBÉM FAZ MAL
- Mononucleose, também conhecida por “a doença do beijo” por ser facilmente transmitida pela saliva e disseminar-se através do beijo
- O vírus do herpes simples tipo I, caracterizado por bolhas e feridas à volta da boca e que duram vários dias, é transmissível por via oral.
- Algumas doenças sexualmente transmissíveis, como por exemplo a sífilis e a gonorreia
- O VIH (sida) pode transmitir-se por meio de um beijo mas apenas no caso de haver feridas na boca tanto do infectado como da outra pessoa.
NÃO É PARA OS "APANHADOS"
Talvez por ser cada vez mais raro assistir a manifestações de amor e de carinho, como duas pessoas a beijar-se em público, há quem pare de espanto e até pense que é para um anúncio publicitário ou para os ‘Apanhados’. Porém, nada atrapalha os corações dos apaixonados. William, norte-americano, e Zidra, da Lituânia, beijam-se aos pés do café A Brasileira, no Chiado, alheios aos mirones que os rodeiam.
O PRIMEIRO BEIJO NA BOCA
Dado no cinema foi no filme “O Beijo”, de Thomas Edison, em 1896.
A partir desse momento outros beijos se seguiram em diversas épocas e na boca de muitos actores.
“A um Passo da Eternidade”, “Cinema Paraíso”, “Spider-Man”, deixaram marcas absolutas.
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