Os bairros esquecidos
Um tapete verde a todo o comprimento do corredor esconde os ladrilhos levantados. Na cozinha, quando se abrem as gavetas dos armários, só a parte da frente vem atrás. O espaço sob o lava-loiça não serve para arrumações pois a água usada escorre como de um regador.
Na casa de banho, a humidade pintou as paredes de preto. A porta que abre para o hall dos elevadores já não espera por um puxador – habituou-se ao buraco. É assim o apartamento, no bairro da Boavista, em Benfica, onde Helena Pinto, 60 anos, vive com o marido e sete filhos, dois a frequentar a escola, cinco sem trabalho.
Foi bonita a festa de entrega das chaves de ‘casas a sério’ aos que, como Helena, só conheciam a insalubridade das barracas. Mas, pouco mais de dez anos depois, as famílias realojadas sentem ter recebido gato – habitação de fraca qualidade e sujeita a raras intervenções – por lebre, as ‘casas a sério’ pelas quais esperaram tanto tempo.
O envelope com o recibo da renda está na prateleira da estante. Não foi aberto. Helena deixou de pagá-la. Primeiro porque a Gebalis – Gestão dos Bairros Municipais de Lisboa, EM – não faz obras. Depois, por entender que 206.66 euros é demais para quem tem cinco filhos desempregados. “Fizeram o cálculo como se os meus filhos ganhassem o ordenado mínimo, mas não é verdade.” O único que tem rendimentos é o marido, funcionário da EDP, com um salário bruto de mil euros.
No bairro da Boavista, um dos 69 sob gestão municipal, o sentimento de revolta diante do ‘descaso’ da Gebalis tem-se avolumado. De tal maneira que, por ocasião da celebração do 25 de Abril, alguns moradores avançaram contra o gabinete local da empresa.
Os técnicos que ali trabalham não têm vida fácil – especialmente desde que vieram a público suspeitas de irregularidades financeiras no contacto da Gebalis com os empreiteiros. Mesmo se paga o justo pelo pecador comenta--se em cada esquina: “Já sabemos por que bolsos se repartem as rendas.”
Joaquim Pinto ajusta o boné na cabeça e sorri com malícia. É um jovem morador do bairro, empenhado em mobilizar as crianças e adolescentes que por ali andam – muitas delas ao deus-dará.
Dois rapazes aparentando não mais de 12 anos equilibram-se sobre um varandim. Fazem sinais com as mãos. Esticam os dedos. Quando se lhes pergunta o que é aquilo, franzem o sobrolho com ar de maus e explicam: “É o gang.”
E continuam a imitar os gestos que viram os afro-americanos fazer nos filmes. Joaquim Pinto aceita tirar-lhes uma fotografia em tais preparos. É para o blog onde vai dando conta do que se passa no bairro da Boavista. Também da queda de azulejos dos prédios para a via pública. Queixou-se a Santana Lopes e a Carmona Rodrigues, quando por lá passaram em campanha. Nem um nem outro deu conta do recado.
“O Toy veio cá fazer um espectáculo. Diz que lhe pagaram seis mil contos [30 mil euros]. Por que é que não usaram o dinheiro para arranjar isto?”, pergunta, olhando para a superfície descascada.
Muito menos havia de custar o arranjo do canhão da porta do prédio onde Joaquim vive. “Não fecha há dois anos.” Talvez ainda sobrasse algum para comprar material de qualidade e usá-lo na construção do centro de jovens. Recém-inaugurado, apresenta já um buraco enorme no tecto e, no chão, os tacos parecem à beira de soltar-se.
SOLNAGE RECUSA FOTOGRAFIAS
Solange recusa fotografias – “a minha etnia [cigana] não gosta” –, mas acede à conversa. Foi ali, naquela parede. “Os homens vieram instalar um candeeiro de iluminação pública e entraram pelo quarto das minhas filhas. Fizeram um buraco por onde depois correu água e lama que estragou as camas.”
Solange, com pouco mais de 20 anos e mãe de três meninas, comprou outras camas, mas ainda está à espera que a Gebalis a reembolse. O bairro é o do Armador – Zona M de Chelas –, na freguesia de Marvila, onde, segundo dados da Gebalis, o processo de realojamento começou em 1999. Passaram oito anos antes que os azulejos, que formavam tiras vermelhas na fachada dos prédios, começassem a soltar-se, ameaçando quem passava em baixo. Os pais recearam pela segurança dos filhos. Está em curso a operação de descascamento.
Quem não está nada contente com a forma como a obra tem decorrido é a D. Clara, 65 anos, que espreita da janela, puxando para cima a gola da blusa para proteger-se do frio. Quando tiravam os azulejos, os operários “esmigalharam” a persiana da casa dela. “Há--de ser tarde que eles me arranjem isto”, lamenta, mas do resto não se queixa: “Se puserem as casas à venda, claro que compro.”
Solange não. Tem rendas em atraso. É vendedora ambulante. ‘Faz’ a feira do Relógio, mas, com “a crise da venda” e três crianças para vestir e alimentar nem sempre consegue pagar os 31 euros mensais. “Se nós morávamos nas barracas era porque não tínhamos dinheiro para as rendas.” Mesmo assim, ela está a esforçar-se para saldar a dívida. “Agora pago uma renda por semana.” Receia o despejo. Ficar na rua com as filhas. “É a vida”, suspira, enquanto reúne as meninas e as encaminha para dentro de casa.
“É a vida...”, repete Daniel Cardoso, cabo-verdiano de 58 anos, com um sorriso conformado nos lábios. Habituado a uma barraca nas Olaias, gostou da casa que lhe coube em sorte no bairro do Armador. Nem lhe pareceu muito legítimo reclamar intervenção da Gebalis, a quem pagava a renda, quando um cano rebentou e deu cabo de uma parede. “Só pedi obras dessa vez.”
Não o atenderam. Ele, trabalhador da construção civil, deu um jeito. Daniel tem três filhos e está desempregado há um ano. Tem a renda, 40 euros mensais, em falta desde essa altura. “É a vida...”
O prédio – também no bairro do Armador – onde Aida Gonçalves mora com os filhos de 12 e quatro anos não tem campainha há dois anos. Mas não é isso que a aflige. Tanto, pelo menos, como a humidade que enegrece o quarto do Tiago. “Os técnicos da Gebalis dizem que é por causa do vapor da casa de banho, mas eu tenho sempre as janelas abertas”, queixa-se Aida. Deve estar no meio de uma corrente de ar porque esfrega os dedos com frio.
“Logo no primeiro ano que para aqui vim apareceu humidade. Já fui parar ao hospital com um problema nos pulmões. Tinha dificuldade em respirar quando andava.” Para proteger os pulmões do Tiago, 12 anos, a mãe mudou--o para o quarto contíguo, com janela aberta de par em par numa tarde fria.
Por causa da humidade, mas também dos degraus soltos nas escadas interiores e, em menor grau, da campainha, Aida sente saudades da casa na Quinta dos Cravos que deixou para ir morar ali, a troco de 22 euros mensais. “Era antiga, mas não havia nada disto.”
Tal como no bairro da Boavista, no do Armador vêem-se jovens encostados às paredes, desocupados. Não estudam. Não trabalham. E crianças que brincam onde podem – em qualquer canto, chamando com estalidos de lábios os cães sem dono e de olhar comovente.
UM LABRADOR BELÍSSIMO
O Fred é um cão labrador belíssimo, da cor da baunilha, que acorre alegremente ao chamamento do dono, António Jesus, elemento da Comissão de Moradores da Rua Pedro Queirós Pereira, no Lumiar. Aquelas são também casas municipais mas de construção muito anterior ao Programa Especial de Realojamento (PER).
“O problema é que em quase quarenta anos nunca houve obras.” Quando os moradores puderam comprar as casas – a maior parte fê-lo – foi com a garantia de realização de obras de conservação. Foi há oito anos. Nada aconteceu até ao momento, com uma assinalável excepção: surgiram candeeiros nos passeios no dia a seguir ao protesto público, em Fevereiro, de quem ali reside.
A D. Graça lembra-se. Foi há 36 anos. No dia 12 de um mês de Junho, chegada da Covilhã, grávida da filha, entrou na Musgueira Norte e viu a barraca que a esperava. Sentiu uma dor na alma. “Pensei: ‘Ai Graça, vens da tua terra meter-te num sítio destes!’” Teve sorte. Nem um mês lá passou.
“Opadre Rocha e Melo tinha construído estes prédios para os pobres. Eu inscrevi-me e apanhei uma casa.” Apanhar é maneira de dizer – não era fácil pagar 500 escudos de renda naquela altura, quando um polícia recebia 1900 de salário. “Passou-se aqui muito sacrifício.” Para ali foram também os que ocupavam barracas na zona de Campolide e tiveram de abandoná-las por causa da construção da ponte sobre o Tejo.
Graça, António e Vitalina são de uma geração anterior de realojados, ainda sem a forte presença de populações imigrantes, nomeadamente de origem africana. Eles foram os que, nos anos 60 e 70 vieram do campo para a cidade e resistiram ao apelo da emigração.
Durante décadas pagaram renda à Câmara Municipal de Lisboa e depois a empresas municipais – antes a EPUL (Empresa Pública de Urbanização de Lisboa), agora a Gebalis –, habituando--se a reparar eles próprios as mazelas das habitações, a pintá-las, a desentupir os canos e o mais que fosse preciso.
Residente há 32 anos naquela rua, Vitalina Matos não pode deixar de notar a contradição: “Como é que a Câmara exige aos senhorios particulares que façam obras de sete em sete anos e aqui... obras nem vê-las? Prometem, prometem mas nada acontece e, entretanto, fica tudo a cair.” Daqui se conclui não ser de agora a actuação displicente em matéria de conservação dos fogos municipais – são 28 611, dos quais 3800 dispersos, e 24 811 em bairros.
Os números constam do relatório apresentado por Maria José Nogueira Pinto em Março do ano passado, quando ainda era vereadora da Câmara Municipal de Lisboa com o pelouro da Habitação Social. Ali se reconhece igualmente o estado de degradação do património municipal – 40 por cento dos edifícios onde se encontram fogos camarários em ruína ou em muito mau estado e os demais a necessitar de intervenção profunda. Nada que os moradores – quase 90 mil – não reclamassem há muito.
O momento actual é de enorme rebuliço na Gebalis. Francisco Ribeiro afirmou não pretender demitir-se, contestando a idoneidade da comissão que arrasou a sua gestão. Mas do gabinete do vereador com a tutela da Gebalis, Sérgio Lipari, fazem saber que Francisco Ribeiro está demissionário. Das janelas dos bairros, encostados às paredes, a tremer de frio dentro de casa, ou na rua, com medo que um azulejo lhes caia em cima, os moradores continuam à espera.
ACUSAÇÕES GRAVES À GEBALIS
UM RELATÓRIO POLÉMICO
A Câmara de Lisboa encomendou um relatório de avaliação à gestão da empresa municipal Gebalis referente ao período entre 2001 e 2006. O resultado elevou a discórdia.
No final de Fevereiro, a comissão nomeada pelo vereador da Habitação Social, Sérgio Lipari Pinto, indicava crimes de natureza financeira – a Gebalis adjudicou obras sem concurso público, favoreceu empresas e facturou com preços diferentes dos fixados na proposta de adjudicação.
Francisco Ribeiro, presidente da empresa municipal, questionou a legalidade da avaliação e defendeu que deveria ter sido feita uma auditoria autorizada. Se houvesse indícios de ilegalidade, seriam então accionados mecanismos legais.
A Oposição ao executivo camarário PSD também não poupou críticas ao vereador por falta de “fundamento” na acusação.
QUANTOS SÃO?
69 com 87 110 habitantes
QUAL É O MAIS ANTIGO?
Presidente Carmona, Alto Pina, de 1927, com 38 habitantes
QUAL É O MAIS RECENTE
Alta de Lisboa Centro, Charneca do Lumiar e Lumiar, de 2007, com 6249 habitantes
QUAL É O MAIS POPULOSO
Padre Cruz, Carnide, de 1959 e da década de 90, com 8793 habitantes
QUAL FOI O 1.º APÓS O 25 DE ABRIL DE 1974?
2 de Maio / 2 Maio 2, Ajuda, em 1975, com 1740 habitantes
QUAL É A FREGUESIA COM MAIS BAIRROS?
Marvila – bairros: Alfinetes, Armador, Condado Zona I, J e J antiga, Cooperativa Marquês de Abrantes, Flamenga, Lóios, Quinta das Salgadas, Quinta do Chalé.
No total com 24 122 habitantes
QUE BAIRROS GERE A GEBALIS FORA DE LISBOA?
Algueirão, Mem-Martins (Sintra), de 1994, com 286 habitantes
Casal de Cambra, Sintra, de 1994, com 95 habitantes
Zambujal, Alfragide (Amadora), de 1997, com 43 habitantes.
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