Os guetos de Carcavelos

No areal de Carcavelos, abancam jovens de guetos problemáticos. Vêm de Chelas, Brandoa, Cacém, com a violência a fervilhar no sangue. Nem todos assaltam banhistas ou pertencem a gangs perigosos. Muitos nem sequer estiveram envolvidos no ‘arrastão’ de 10 de Junho. Mas o mal está latente à beira-mar.

19 de junho de 2005 às 00:00
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Nas manhãs em que o sol faz brotar pingas de suor na testa, as calças largueironas,estilo roubado aos presidiários, são trocadas por um fato-de-banho Billabong. Os ténis Nike ficam arrumados e as havaianas, à venda na feira de Carcavelos por cinco euros, tiradas finalmente da prateleira. De boné Adidas enfiado na cabeça e em tronco nu, ‘dreads’ do Cacém, ‘gangsta raps’ de Chelas, ‘hip-hopers’ da Brandoa, desaguam na estação de comboio e vão em bandos até à praia de Carcavelos. Muitos vieram ao crava, guardando o dinheiro do bilhete para comprar um maço de tabaco.

No areal a perder de vista não há becos nem ruelas escuras, mas as toalhas estendidas são como muros invisíveis, dividindo territórios. Embora se cumprimentem com efusivos “tá-se bem”, os vizinhos marcam distâncias de desconfiança, sobrepovoando a zona da mítica Bola de Nívea e do campo de futebol. Conhecem-se de vista das partidas da bola, ou de rixas em noites frias dos subúrbios de cimento. Os mais velhos são venerados como ídolos de ‘Hip-Hop’. A reputação precede-os. Quanto pior, melhor.

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Quem os avista de longe, da zona dos cafés onde se sentam os betinhos da linha, parecem estar todos ao monte. Não é ilusão de óptica. O ‘people’ junta-se em círculo para assistir aos ‘shows’ dos ‘blacks’ da Serra das Minas. Eles curtem manear o seu corpo atlético aos sons tribais do Kizomba, a bombar de potentes tijolos.

Sentados na areia molhada, indiferentes às acrobacias dos dançarinos e aos aplausos da plateia, também não faltam grupos de miúdos de onze anos acompanhados de Pitt-Bulls. Gostam de exibir os cães e sorrisos trocistas aos banhistas. Se estiverem enfastiados ou com falta de dinheiro, desatinam. Não é preciso grande pretexto. Quando as vítimas reagem mal, os Pitt arreganham-lhes os dentes. Os telemóveis ou carteiras, passam de mão em mão e passam a ter novo dono. “Antes, havia na praia uns desatinos e roubos, aqui e acolá. Nada de muito anormal. Mas tudo mudou com o ‘arrastão’. Entrámos numa nova dimensão”, conta, ainda incrédulo, Mauro, 17 anos, num português com sotaque de Belo Horizonte.

O aluno do liceu da Amadora que esteve no meio do furacão de sexta--feira, 10 de Junho, só regressou ao local do crime uma semana depois. Não por medo. O seu bando, liderado por Ahmed, é um dos mais respeitados na periferia de Lisboa. “Se me fizerem mal, também não se ficam a rir.” Olho por olho, dente por dente. Como manda a lei da rua.

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ASSALTANTES SEM CAUSA

Mauro partilha com Mário, um ano mais velho do que ele, a toalha, a carteira da escola e as memórias do feriado fatídico. Os dois têm pinta de reguila e a arte do engodo encrostada à pele. “Quando vim de Luanda, aos 15 anos, ia para as mercearias roubar frutas e pacotes de chocolate”, confessa o angolano, de t-shirt da selecção canarinha vestida. Os pais trabalhavam no duro, não deixando que ele passasse fome, mas Mário não resistia aos vícios importados das ruas de Luanda: “Quando um gajo rouba, não o faz apenas por dinheiro.” O prazer de sentir as batidas aceleradas, a fama que se granjeia no bairro e, por inerência, a atenção das miúdas mais giras e atrevidas, eram outras das causas da rebeldia.

A carreira de pequenos crimes terminou quando a família, atenta às suas artimanhas, o convenceu a ir trabalhar durante os tempos livres das aulas. “Quando um dia me gamaram o Nokia, que comprei com o salário de uma semana a distribuir folhetos publicitários porta a porta, percebi a porcaria que fazia aos outros”, declara. Mário ficou furioso. Quase tão irritado como quando viu muitos dos ‘partners’ de bairros vizinhos a roubar famílias indefesas na praia.

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Os dois amigos tinham chegado bem cedo, como sempre, com o seu bando da Amadora, para arranjar lugar na areia, não muito longe da Bola de Nívea. Por volta do meio-dia começaram a estranhar as movimentações. “Vinha malta do Cacém, Belas, Damaia e Queluz. Quando ouvimos os tiros e pessoas a fugir de um lado para o outro, percebemos que não ia ser um dia normal.”

À sua frente, viram miúdos muito mais novos do que eles a atirar areia à cara dos banhistas, aproveitando a confusão para lhes furtar relógios, telemóveis e fios de ouro. “Só lhes diziam: ‘tens uma coisa que me interessa, passa para cá”, recorda Mauro, que se deixou ficar na toalha nos longos minutos de agonia. O seu único objecto de valor eram uns velhos ténis Nike e umas poucas moedas no bolso. “Sabíamos que não nos iam assaltar. Até porque os conhecemos de ginjeira.”

Uns dias depois do arrastão, voltaram a cruzar-se com alguns dos ladrões nas sombrias ruas de Queluz. Trocaram os cumprimentos da praxe: Tá-se bem? Cada um foi à sua vida. “Eles vão voltar a atacar”, advertem os dois amigos antes de irem refrescar o corpo nas águas do Atlântico. “Com ou sem policiamento.”

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RENEGADOS À NASCENÇA

Uns metros de areia mais abaixo, Paulo faz uns saltos mortais, para deleite da escassa plateia feminina. O cabelo laminado, bíceps esculpidos em halteres e um grosso colar ao peito dão-lhe aura de respeito. “Não me espantei quando vi o ‘arrastão’. Esta praia é a que tem mais ‘pretalhada’ e confusões do País.”

As palavras saem-lhe disparadas como tiros de pistola. “Não sou racista, mas sei que são os pretos quem anda aí a roubar.” Ao seu lado, Cris, de ascendência cabo-verdiana, ouve o discurso politicamente incorrecto do amigo, impassível. “Estás a exagerar, meu, mas tudo bem”, diz sem descruzar os braços.

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Os dois fazem parte dos Renegados, uma das bandas rap mais populares de Cacém. Dizem já não ter idade nem paciência para fazer parte de gangs, mas todos os dias tropeçam nas ruas com miúdos armados, perigosos, que não hesitam em dar uns tiros só por gozo pessoal. “No Cacém, os mais violentos são os Gangsta Rap e os Putos Dreads”, revela Pedro, o menos expansivo e mais baixo dos três. É o DJ de serviço da banda. “Aproveitam-se do facto de serem menores para fazerem o que querem. Ninguém tem mão neles.”

Para o trio de músicos, nem tudo é mau no Cacém, como pintam as manchetes e os telejornais, mas há um ciclo vicioso que teima em não acabar: “O pessoal anda sem ambições: chumba, desiste da escola e fica no bairro sem nada para fazer. Sem emprego, sem dinheiro, acaba a roubar, porque é mais fácil”, conta Cris, que critica a falta de centros de juventude e de actividades culturais e desportivas numa cidade com mais de 80 mil habitantes.

As letras da banda revelam a insatisfação de uma geração de suburbanos deprimidos, agrilhoados em torres altas e anónimas. “A praia é o único escape possível. Mas eles trazem os problemas de casa para a areia”, filosofa Cris, que improvisa um ‘free-style’ enquanto o diabo esfrega o olho: “Não somos belos mas vou-vos contar o que aconteceu em Carcavelos / O que aconteceu foi uma cena de um gang, andaram aí aos tiros mas não houve sangue / Foi uma cena de primeira, roubaram Carcavelos e fugiram para a Quarteira / É uma merda que acontece, que toda a gente ouve e ninguém esquece.”

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GAMAR SIM. GANG NÃO

Chipenda não ouviu as rimas inventadas em segundos pelo MC do Cacém. Mas os 16 anos passados no degradado bairro das Marianas, na Parede, poderiam servir de inspiração a outras letras da banda alternativa de hip-hop. Com uma vistosa juba afro e olhos azuis cristalinos tão vivazes como o seu latim, não é de admirar que seja um dos mais populares do seu grupo de sub-17, uma mistura de betinhos desalinhados e ‘dreads’ da linha de Cascais.

O estudante passa os dias na praia ‘a pastar’ ou a fanar nas prateleiras dos supermercados. “Nunca fui apanhado porque sou muito rápido”, vangloria-se com um rasgado sorriso. O seu maior troféu foi um telemóvel, que meteu no bolso sem os seguranças da loja se aperceberem. “Nunca me meti em drogas, senão estava lixado. Vejo o que aquela porcaria faz aos meus vizinhos do bairro.” É por causa da branquinha e do cavalo que muitos dos ex-amigos se meteram em aventuras demasiado ousadas. E sem retorno.

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Embora os vícios e manhas do submundo de Cascais não tenham segredos para si, Chipenda garante nunca se ter fascinado com a ideia de pertencer a um gang: “Isso é barra pesada. Não quero acabar com um tiro na cabeça por causa de algum conflito relacionado com drogas duras”. Depois do que viu no feriado que terminou em tiros e agressões, não pensa mudar de ideias nos próximos tempos. “Estar num gang pode ser ‘cool’ mas não dá futuro a ninguém.”

Ele recorda-se dos acontecimentos com a precisão de um cinéfilo que já viu o seu filme preferido mais de dez vezes. Chipenda chegou às areias de Carcavelos por volta da hora de almoço, depois de mais uma manhã de indolência. “Vi um amontoamento de pessoas de raça negra. Para aí uns 300. Estavam sempre a chegar mais e mais. Pareciam formigas.”

O puto de ascendência angolana perdeu logo a vontade de se estender na areia porque pressentiu um mau ambiente no ar. “Às três horas, vi o início da ‘fight’. Um branco fugia de um bando de pretos, que não o largavam.”

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A partir daí, assistiu ao desenrolar dos acontecimentos na primeira fila do paredão. Só faltavam as pipocas. “Com os tiros, as pessoas assustaram-se, aproveitando-se do pânico, uns 50 gajos iniciaram o ‘arrastão’. Quinze minutos depois, chegaram os 14 agentes da PSP armados até aos dentes. Fartaram-se de dar porrada. Houve muitos banhistas que levaram por tabela.” Só ao fim da tarde é que os 60 homens do corpo de intervenção conseguiram restabelecer a ordem em Carcavelos.

“Vi o pessoal a fugir. Pelo caminho ainda assaltaram o Pingo Doce e a praia de São Pedro.” Um pesadelo que não vai esquecer tão cedo. “Quem cá não volta este fim-de-semana sou eu…”.

SOBREVIVER AOS TIROS

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Não há um jovem banhista suburbano de Carcavelos que não tenha uma teoria da conspiração sobre os acontecimentos de 10 de Junho. “Foi tudo planeado entre gangs”, sentencia Agostinho, 20 anos, colega de Chipenda no bairro das Marianas e viciado em banhos de mar. Mas não acredita que o móbil do crime fosse o dinheiro. “Afinal, o que se ganha com uns telemóveis e carteiras? Apenas uns trocos. Seria mais lucrativo e menos arriscado roubar uma loja de um centro comercial.” Ele não tem dúvidas de que fizeram aquilo apenas com um objectivo: por simples diversão.

Edmilson, um puto magricelas que passou essa tarde a jogar à bola com os três colegas do 9.º ano do Cacém, discorda: “O ‘arrastão’ não poderia ter sido combinado porque há uma rivalidade demasiado grande entre bairros.” O futebolista federado, que não fugiu quando o pânico se instalou na areia, ilustra a sua tese: “Os do Cacém odeiam os de Francos. A malta de Chelas detesta os da Cova da Moura e assim por diante.” A maturidade do discurso não parece encaixar-se na voz fina e no ar imberbe. Mas as cenas de violência a que assistiu já lhe roubaram muita da inocência dos 15 anos. Em Maio, foi apanhado no meio de um tiroteio numa festa africana em Queluz. “Não tenho medo do som dos tiros”, diz com o peito cheio de ar. Até quando?

Quem não tem problemas em confessar o trauma pelos distúrbios do feriado é Bruno, 17 anos. Ele não queria regressar aos areais de Carcavelos mas para quem vem de transportes públicos da linha de Sintra, não há grandes alternativas para gozar os raios ultravioletas do sol de Verão. “O Tamariz está ‘out’ e a Costa de Caparica fica demasiado longe”, justifica.

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O estudante do 12.º ano, acredita, no entanto, que o arrastão não terá passado de um infeliz acaso. “Era um dia especial: conjugou-se o feriado e o início de férias escolares. Juntou-se demasiada gente de bairros problemáticos num curto espaço. E deu-se a explosão.”

Bruno recusa-se a defender os autores do roubo, mas indigna-se por assistir ao crescimento de movimentos racistas contra a população africana: “Principalmente contra os da Cova da Moura. É o azar deles e a sorte dos gangs de outros bairros que podem armar confusão à vontade.” Nota de rodapé: Bruno tem a pele branca, apenas um pouco escaldada pelo sol, e vive no bairro social da Serra das Minas.

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