Os móveis ou a lingerie

Em caso de dívida, tudo se penhora, menos o indispensável à sobrevivência. Os Agentes de execução não têm mãos a medir

21 de novembro de 2010 às 00:00
Os móveis ou a lingerie Foto: Sérgio Lemos
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É de surpresa que o agente de execução lhe bate à porta de casa. Manuela nunca pagou o crédito pessoal. Deve mais de 30 mil euros ao banco.

"Sabe por que é que aqui estou?" – pergunta ele, ao identificar-se. "Imagino", responde.

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"Foi tudo muito complicado: eu não estava à espera de passar por uma série de cirurgias consecutivas", apressa-se a justificar, já sentados à mesa da sala. A mobília tem 30 anos. Um sofá pequeno, TV, aparelhagem e um móvel com livros já antigos. Só a vista sobre Lisboa – uma paisagem rara de campo – parece ser um imenso quadro que preenche o vazio de alma daquele espaço.

Manuela prossegue: "Sou esteticista. Eu tinha clientes que pensava que eram intocáveis, sabe? E agora estão sem dinheiro como eu. Dói muito. A primeira coisa em que eu pensei foi dar um tiro na cabeça. Mas acho que os meus filhos não merecem".

A expressão dela tornou-se lívida, o rosto molhado em lágrimas aguarda resignado. "Tem a consciência de que estou aqui para lhe levar – com pena minha – o recheio da sua casa?" – diz-lhe aquele estranho .

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"É a coisa mais triste do mundo eu ter de passar por isto. Vendi a minha casa para pagar dívidas ao banco; vivo aqui mas ainda não paguei a renda ao senhorio. Se puder imaginar quantas voltas já dei à minha cabeça para saber como arranjar dinheiro... Não posso continuar a viver assim, a minha estrutura mental está a chegar ao fim. Vivo em pânico todos os dias".

Manuela (nome fictício) já passou dos 50 anos. Educou sozinha os dois filhos, que agora não lhe podem ajudar – a fotografia deles está sobre a mesa, numa moldura. Vivem longe. O ordenado deles não lhes permite. E a dívida que a mãe contraiu foi para os ajudar a eles.

"O que quer que lhe diga? Leve a mobília".

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UM RECHEIO DE 250 EUROS

Levantaram-se por ordem do solicitador. O homem começou a preencher o auto de penhora. Percorreram a casa. No quarto e na cozinha só existem bens indispensáveis à sobrevivência – e esses não são penhoráveis.

Só o recheio da sala poderá valer 250 euros – não há mais nada vendável ali. "Penhorei a mobília, mas a senhora ficará como fiel depositária. Não lhe vou levar nada agora. Quanto à dívida, vá pagando alguma coisa que seja, sempre que possa. Ajuda a minimizar o problema".

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Esta é uma das dívidas incobráveis dos bancos, que já contam com 627 mil particulares em incumprimento – correspondendo a uma percentagem de 13,7% do total de mais de 4,5 milhões de pessoas com empréstimos bancários.

"Eu tenho, para mim próprio, a ideia de que um executado não é nenhum vigarista ou caloteiro. Normalmente, é alguém que quando contraiu uma dívida acreditava que podia cumprir com o pagamento, mas que, a certa altura, deixou de poder fazê-lo, por razões de diversa ordem. Pelo que devem ser sempre tratados humanamente" – explica o agente de execução, também ele solicitador.

A DECO aconselha as famílias a que quando chegam à conclusão de que não vão ser capazes de cumprir com as suas dívidas, devem ponderar se vão chegar à fase da penhora, ou se o melhor será pedir insolvência (a liquidação de todo o património, que implica a perda de todos os bens de valor). Nos cinco anos seguintes – ou até perfazer o valor da dívida – terão a obrigação de destinar parte do rendimento familiar para o pagamento das dívidas. A grande vantagem é que, decorrido este período, a família fica liberta das dívidas, explica Natália Nunes, coordenadora do Departamento de Sobreendividamento da associação de apoio ao consumidor.

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RAPTADO PELO EXECUTADO

De manhã, o agente de execução sai do escritório levando consigo dez processos. As ruas são-lhe praticamente desconhecidas e o caminho seria incerto até à invenção do GPS.

Lisboa é uma cidade grande. Acontece que quando ele se dirige para uma casa, nunca sabe se àquela hora do dia lá estará alguém. Depois do domicílio de Manuela, o agente (ao qual se reserva o anonimato) dirige-se à casa do executado seguinte, perto do Campo Grande.

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Percorre oito quilómetros até à próxima campainha, mas não há sinal de resposta – não está ninguém. "Uma vez, um colega meu foi dirigido pelo executado até à sala de casa dele. Este saiu e trancou-o lá em casa. Sequestrou-o" – conta. "Mas é raro as pessoas agirem com violência. Talvez em um por cento dos casos nos digam: ‘ponha-se daqui para fora’, ‘eu não lhe reconheço legitimidade para o que está a fazer’. Só que nesses casos podemos chamar a polícia".

Gorada a tentativa, parte para o Bairro Alto. Estaciona nos arredores e, a partir dali, vai a pé. No bairro histórico, a vizinha avisa que o casal que mora naquele segundo andar é dono do café ao virar da esquina.

A taberna é esguia e os clientes estão perfilados ao balcão diante do proprietário. "Senhor António (todos os nomes são fictícios)? Preciso de falar consigo, em privado." António não questiona, tem um ar afável e logo se mostra prestável. Dirigem-se para a pequena cozinha, onde a mulher dele frita peixe para o almoço da freguesia.

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"Ah, é por causa do meu filho Luís", reage ela à apresentação formal do agente de execução. "É por causa do carro? É para quê?" – questiona. O filho deve cerca de dez mil euros do crédito do carro, ao banco. E os pais são fiadores. "Já fomos ao banco, mas eles não querem negociar. Só aceitam se pagarmos a totalidade. E isso nós não podemos. O meu filho recebeu este mês a última prestação do subsídio de desemprego".

Esgrimidos os argumentos, só resta ao agente de execução a derradeira sentença: "Só posso fazer uma de duas coisas: levo o dinheiro ou levo os bens".

Ela solta um suspiro desesperado e diz: "Dinheiro, tomara eu ter. E também não temos nada em casa". Por fim, encontra-se o consenso. O casal ficou obrigado a fazer depósitos mensais – na conta do agente de execução – com o valor que puderem, até que o processo tenha fim.

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"Para mim até era bom limpar isto ao rapaz, que já tem 32 anos e uma filha" – diz o pai, aliviado por poder ajudar a liquidar a dívida até que o caso se resolva.

HÁ VONTADE DE PAGAR

Fernando Cardoso, vice-presidente da Câmara dos Solicitadores e um dos candidatos eleitorais à liderança, conta que no seu escritório, no Norte do País, cerca de 80 por cento das pessoas que estão a ser executadas por dívidas – a maioria abaixo dos 30 mil euros e por créditos ao consumo – manifesta-se interessada em negociar o pagamento. E, destes, o índice de faltosos é de 15 por cento. Os números são meramente indicativos e serão transversais às restantes regiões do País.

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No entanto, dizem os agentes de execução que são confrontados com um problema prejudicial à boa resolução dos casos e que desfavorece tanto o executado como o exequente. Explica outro dos candidatos, José Carlos Resende – o terceiro e último candidato é Rui Carvalheiro –, que "é mais difícil levantar o sigilo bancário para ver se a pessoa tem dinheiro para pagar a dívida do que carregar todos os móveis de casa".

Em caso de penhora, a DECO deixa de poder intervir – já que só o podem fazer extrajudicialmente. A jurista Natália Nunes explica que a associação pode ajudar, depois da penhora, a família a adequar o seu orçamento ao novo rendimento. Em diversos casos é-lhes penhorada uma parte do salário, nunca inferior ao salário mínimo nacional. "Ajudamos a reequilibrar o orçamento e a renegociar dívidas com outros credores – caso existam".

A PENHORA NA PROVÍNCIA

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Na província, a penhora assume contornos diferentes aos da cidade grande. À porta de casa de Miguel (nome fictício), no centro do País, estacionou a carrinha de uma transportadora. O aparato é suficiente para assustar o devedor.

Em casa, a empregada diz que não está mais ninguém. Quem quer saber? Uma advogada e um agente de execução.

Dali a minutos já está identificado um familiar, que, no meio da conversa, revela o local onde o executado guarda a mercadoria procurada, no âmbito de um negócio entre locatário e proprietária de uma loja de lingerie, entretanto, encerrada. Sem saber, aquela pessoa acabava de fornecer um dado que ajudaria os executantes, que estavam ali para cobrar uma dívida que ascendia a 25 mil euros.

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Já com o cabeça-de-casal ao telemóvel, responsável pelo negócio, explica o agente de execução que este tipo de diligência se faz sem aviso prévio. Miguel pede que o aguardem à porta de casa. Chega meia hora depois, vestido de fato e gravata. "Acha que a sua cliente é que tem razão? Acha que não fui enganado por ela" – pergunta à advogada.

"Temos que chegar a um entendimento", responde, já sentado no sofá de casa dele. Miguel oferece-se para repor mercadoria que trouxe da loja. Mas não chega, é preciso pagar despesas em atraso.

Entretanto, o agente de execução levanta-se, dirige-se à aparelhagem e anota a marca e modelo. Avalia a TV, os móveis e alguns objectos pessoais que decoram a sala. Está a fazer o auto de penhora. O que começa a inquietar Miguel. "E o que é que levam?" – pergunta, curioso.

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"Só não levamos o indispensável", responde-lhe o solicitador. "Por mim, levavam tudo. O problema é a minha mulher e a minha filha".

Sem coragem para ver sair de casa toda a mobília, Miguel, de 40 anos, compromete-se a entregar 20 mil euros em géneros: lingerie.

HORAS A CONTAR BIQUÍNIS

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A tarde foi passada a contar milhares de peças de roupa interior e a fazer as contas ao preço. Os caixotes estavam guardados nas traseiras de uma outra loja, onde decorria o expediente normal de trabalho. E Miguel, a advogada e os agentes de execução estiveram entre cuecas e sutiãs a passar tudo em revista. Já encaixotados, entrou em acção a transportadora.

Já na Amadora, outro empresário, Orlando Morais da Silva, viu-se confrontado pela acção das Finanças. Pelas dez da manhã irromperam pelo seu restaurante – o Pátio dos Leitões – vários agentes das Finanças dispostos a levar-lhe todo o recheio do estabelecimento.

Deve mais de 300 mil euros de IVA ao Fisco, desde 2005. Tudo começou quando, em 1999, o restaurante abriu portas, com o aval da Câmara Municipal da Amadora, mas ainda sem licenciamento. Só com a promessa, conta o empresário. Entretanto, o caso seguiu para a barra dos tribunais, onde corre agora.

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Até 2005, o Pátio dos Leitões vendia 400 leitões assados, por dia, a hipermercados dos arredores. Acontece que, para firmar contratos, precisava do licenciamento. A partir daí, começou a perder dinheiro.

"Fiz um requerimento às Finanças para explicar a situação, onde dizia que para pagar impostos não teria capacidade para pagar ordenados aos meus 12 funcionários. Disse que regularizava a dívida depois de legalizar o restaurante".

Sem outro aviso, uma equipa de 16 funcionários das Finanças, acompanhada pela polícia e por uma transportadora com duas carrinhas, começou a despir-lhe o estabelecimento.

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E porquê tantos funcionários das Finanças? "Então, acha fácil contar tantas coisas?" – respondeu a responsável. Cadeiras, mesas, pratos, copos, talheres, televisores. Tudo.

A penhora é uma apreensão efectiva dos bens para garantir a quantia devida. No caso de dívidas às Finanças ou à Segurança Social, ambos têm meios próprios de cobrança.

HÁ HUMILHAÇÃO

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No caso das dívidas cíveis e penais, que são executadas por solicitadores e advogados, passam a incumprimento principalmente, no caso dos créditos à habitação, por doença, divórcio e desemprego. O deslumbramento e o descontrolo são responsáveis pela maioria do crédito ao consumo.

A maioria das penhoras de rua incide no recheio de casa. Mas também se penhoram partes da pensão de reforma ou dos salários, saldos bancários, imóveis.

É sempre humilhante. Resulta como um tornado na casa dos executados. E por isso exige-se bom senso.

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"Uma vez fui a Santarém fazer uma penhora. Entrei em casa da senhora e, nisto, duas coisinhas muito doces descem as escadas do andar de cima" – conta uma advogada, agente de execução. "Um dos meninos diz-me: ‘Anda, vem ver os meus desenhos’. Pedi autorização à senhora para ir ao quarto das crianças e pedi-lhe também para que alguém viesse buscá-las, para não assistirem ao que se ia passar. Estive a distraí-las até a avó as levar. Por bem, consegui negociar com a senhora, e tudo acabou sem mais prejuízos".

RUI RANGEL CRITICA AGENTES DE EXECUÇÃO

O juiz desembargador Rui Rangel é uma das vozes activas contra a reforma da acção executiva que, em 2003, desjudicializou grande parte dos actos do processo executivo, fazendo-os sair da mão dos juízes para agentes de execução – solicitadores e advogados especializados.

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Para Rui Rangel, o anterior sistema era disfuncional. Contudo, esta "privatização", como diz, "é um caso de polícia". A solução mais viável passava pela criação de "tribunais especiais de execução, com juízes e funcionários autónomos, serviços externos autónomos e com meios – designadamente, armazéns – para guardar os bens penhorados".

Diz-se ainda surpreendido com a posição agora tomada por Marinho Pinto, bastonário dos Advogados. "Agora, qual não é o meu espanto quando vejo a própria Ordem dos Advogados a dizer que isto foi um acto criminoso e que as acções deviam voltar para as mãos dos juízes. Isto de facto é desnorte".

Para Rui Rangel, só é premente alterar o actual sistema quando forem resolvidos "mais de 500 mil execuções paradas nos tribunais, sem fim à vista".

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NOTAS

627 MIL

627 mil pessoas não pagam à Banca as dívidas. Os calotes das empresas somam 5,7 mil milhões de euros.

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127 EUROS

Os agentes de execução cobram no máximo 127,50 euros mais IVA pela primeira fase do processo executivo. Está tabelado.

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