Os Protectores desta bicharada

Há cada vez mais pessoas que não viram as costas a um animal em sofrimento. E que fazem tudo para lhes arranjar uma casa.

18 de junho de 2006 às 00:00
Os Protectores desta bicharada Foto: Ilustração de Ricardo Cabral
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O mais frequente é virar a cara, carregar no acelerador e fingir que não se viu o animal que caminha desaustinado à beira da estrada, ou apressar o passo e tapar os ouvidos a um miado aflito. Mas há excepções. Há quem pare o automóvel e abra a porta para que o cão entre. Ou se agache tentando cativar o gato assustado debaixo do carro.

Segue-se uma campanha para arranjar-lhes casa com recurso a ‘mails’, mensagens de telemóvel, conversas com amigos e colegas de trabalho. A maior parte das histórias acaba quando o primo do cunhado de um amigo está disposto a merecer o animal e a dar-lhe casa digna.

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O David estuda na Caparica e vive em Lisboa. Naquele dia, na paragem do autocarro junto à Universidade, viu um gato bebé com os olhos praticamente colados. Batia com a cabeça no muro. O David não seguiu no primeiro autocarro que passou. Foi buscar o gato, meteu-o no bolso do casaco e seguiram os dois para Lisboa.

O rapaz falou acerca do animal a toda a gente que conhecia. Acabou por entregá-lo a um empregado do marido da irmã. O casal e o gato mudaram-se entretanto para Ibiza. O David recebe com frequência fotografias do felino.

Quando a família do Putchy decidiu mudar de casa, e de vida, destinou o cão ao canil municipal de Lisboa, onde seria abatido. Ana Maria Santos soube disso em conversa com a vizinha. “Eu via o cão muitas vezes na rua. Brincava com ele. Ia custar-me muito deixar que o abatessem. “Ia custar-lhe mais viver com isso do que acolher o Putchy temporariamente em sua casa, enquanto tentava encontrar-lhe um lar permanente. Foi o que fez.

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“Pedi a uns amigos que lhe tirassem fotografias digitais e enviei-as para sites na internet onde se promovem adopções de animais abandonados.” Não foi logo nos dias seguintes mas o Putchy acabou por ganhar nova família. Pôde mesmo escolher entre duas candidatas.

"O MAIS IMPORTANTE É TER PACIÊNCIA

O apartamento de Helena Cristina, professora, já serviu de entreposto a muitos gatos em trânsito. “O mais importante é ter paciência e não entrar em desespero se não conseguirmos logo entregá-los. Acabamos sempre por encontrar alguém que fique com os animais.”Diz-lhe a experiência que as histórias de resgate de bichos abandonados ou em sofrimento acabam bem. Helena já encaminhou cinco gatos bebés, “quatro brancos e um malhado”, cujo primeiro ‘berço’ foi uma caixa de leite.

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Entregou-os a uma rapariga de Cantanhede. Encontraram-se a meio caminho, numa estação de serviço. “Não me esqueço da viagem porque os gatinhos miavam sempre que ligava a música.”Estes anjos da guarda dos animais aflitos são tenazes. Não desistem diante da primeira dificuldade.

Carolina Martins, de 60 anos, também não. Sabendo que vários sites divulgam pedidos de auxílio a animais em perigo, Carolina, a quem recentemente morreu, aos 16 anos, o gato Alex, aprendeu o que era preciso para navegar na ‘net’. Foi assim que encontrou e levou para casa o Thomas. Coube-lhe um nome com ‘Th’ e vários apelidos com apóstrofo em homenagem a um antepassado da família.

Num país onde as férias dos donos são de pesadelo para gatos e cães, abandonados aos milhares na altura do Verão, também há quem, como a Mariana e o namorado, de regresso de uma discoteca, às cinco da manhã, faça tudo para perceber de onde vem exactamente um miado aflito. Encontraram o bicho, fotografaram-no, colaram as fotografias em vários estabelecimentos comerciais de Lisboa.

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Um casal, cliente de um clube de vídeo, que já tinha adoptado um gato, ficou com mais um, para fazer companhia ao primeiro.

O 'ESQUEMA'

Maria, professora de Coimbra, levou para casa uma gata que fazia vida perto de um café. Pouco depois, a gata brindou-a com quatro crias. Maria não desesperou. Tirou fotografias aos pequeninos e enviou-as por ‘mail’ aos amigos, pedindo que estes as enviassem aos seus amigos e estes aos deles e assim sucessivamente. Dois gatinhos já estão entregues.

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Um deles, uma gata preta com olhos cor de mel, vai para a casa de Ana Cristina, em Lisboa. Chega na próxima semana. Maria e Ana Cristina não se conhecem, mas há uma gata de pêlo negro e brilhante a uni-las. “Quase todos os meus amigos têm animais domésticos. Dizem-me que em minha casa faltava um. Dizem-me que quando entram olham logo para baixo, à espera que um cão ou um gato venha encostar-se-lhes às pernas. Fiz-lhes a vontade – a eles e a mim também”, conta Ana Cristina entre risos.

Os contactos estabelecem-se de maneira informal, sem que os animais tenham de passar por canis ou gatis, completamente sobrelotados. Na base do ‘esquema’ está, por um lado, a incapacidade de virar as costas ao sofrimento de um animal e, por outro, a certeza de que há uma casa digna para cada gato e cada cão abandonados ou maltratados. E, pelos vistos, há mesmo.

TRABALHO ÁRDUO E COMPAIXÃO

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O que fazer ante a enormidade do sofrimento infligido aos animais pelos seres humanos? Jane Goodall, primatóloga de renome mundial, que esteve recentemente no nosso País, recomenda “compaixão e trabalho árduo”.

O mais importante – considerou – é não desistir sem sequer tentar, com o argumento de que a mudança é impossível. Jane Goodall, que passou 40 anos a estudar os chimpanzés na Tanzânia, sublinhou a relevância dos pequenos gestos, como seja alguém oferecer-se para passear um cão que esteja num canil.

6711 - Número de animais abatidos por ano nos canis municipais, segundo informação do Ministério da Agricultura.

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1 milhão - Número de animais que, segundo a presidente da União Zoófila, Margarida Namora, são, efectivamente, abatidos por ano nos canis municipais.

10% - percentagem de animais do canil de Loures adoptados num ano. Os outros 2250 foram abatidos

Não é nenhum bicho de sete cabeças – é possível gozar férias sem causar tormento aos animais de estimação. Leia estas indicações com muita atenção.

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PERMUTAS

Fale com colegas, amigos ou familiares que também tenham animais e cuja data de férias não coincida com a sua. Tente fazer uma permuta: tome conta do animal do seu colega, vizinho ou amigo quando estes forem de férias e peça-lhes que façam o mesmo quando for a sua vez.

ANFITRIÕES

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Pessoas que tenham condições para cuidar de animais em sua própria casa de 1 de Julho a 15 de Setembro podem tornar-se anfitriões dos bichos cujos donos vão de férias. Basta ligar para os números 213424270/7/9 (Câmara de Lisboa) ou 214578413 (Liga para os Direitos do Animal).

NO AUTOMÓVEL

Se puder levar os animais de férias e viajar de carro, tenha em atenção que o animal deve ir no banco de trás, acompanhado ou devidamente acondicionado, para que não salte, e que as janelas devem estar abertas mas de modo a que o animal não ponha a cabeça de fora.

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EMPRESAS

Caso tenha dinheiro suficiente recorra aos serviços de um hotel para animais ou contrate os serviços de uma das empresas que tratam deles em casa. Esta última é a melhor solução, principalmente para os gatos, que não gostam de mudar de sítio e são muito ciosos do lugar onde vivem.

VIDA DE CÃO (OPINIÃO DE DULCE GARCIA, JORNALISTA)

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Se tivesse um cão seria um rafeiro, encontrado nalguma esquina sem memória ou descoberto a rondar a mesa do café, onde andaria a mendigar migalhas de bolo de arroz. Não seria feio, nem bonito, e teria uns grandes olhos negros e profundos, daqueles que contêm em si toda a doçura do universo.

Mas se tivesse uma raça, então não seria comprado numa loja, a troco de meia dúzia de cheques datados, cada um com mais de duas casas decimais. Se tivesse um cão, era ele que vinha ter comigo.

Porque eu não o queria e ele convencia-me do contrário. Vejo a coisa mais ou menos como no amor. A pessoa nunca está à espera que lhe aconteça, pelo menos naquele dia, àquela hora, com aquela pessoa.

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Há uma certa tendência pós-moderna para fazer do animal de estimação um antídoto para aquilo que correu menos bem na vida. Os casais sem filhos arranjam um cão e transferem para ele os cuidados extremosos que não quiseram ou não puderam dedicar a uma criança.

Os solteiros passeiam o cão à procura de companhia, mas sempre que um vulto do sexo oposto acena com a hipótese de um jantar romântico fecham-no na sala de estar e aparecem ao fim de três dias, já na ressaca de um romance que teve mesmo, mesmo para dar certo.

Ou então esquecem-se que passaram a ser três, em vez de dois, e estranham que o parceiro se recuse a passar a primeira noite de amor com um cão em cima da cama.

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Depois há os que chegam a casa à meia-noite, depois de 14 horas de trabalho, mas precisavam tanto de ter alguém à sua espera que se esquecem de que o pastor alemão precisa de espaço e é capaz de não ser muito feliz se o fecharem num apartamento. Ouço dizer que há cada vez mais gente que recolhe animais vadios. Fico contente por sabê-lo. Parece-me que não há grandes diferenças nos afectos.

Estão sempre a dizer que devemos gostar dos outros como eles são, aceitar os seus defeitos, dar-lhes uma oportunidade. É isso que faz alguém que adopta um animal abandonado. Já quanto àqueles que encomendam uma cão por catálogo, tenho as minhas dúvidas. Faz-me lembrar os casamentos por conveniência. Fica tudo combinado. Mas não há amor.

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