Paixão pela bandeira
Durante o Europeu de futebol, enquanto a selecção ultrapassava obstáculos até à final, as bandeiras verde-rubras inundaram o País. Uma afirmação de identidade nacional.
Nas suas notas finais, Marcelo Rebelo da Sousa fez eco na TVI de um apelo recebido por ‘mail’. O jovem Bernardo Teotónio Pereira sugeria aos portugueses que exibissem a bandeira nacional durante o Euro'2004 que se aproximava.
Com o País invadido por milhares de estrangeiros adeptos de futebol, os portugueses aderiram massivamente à moda da bandeira, numa manifestação de orgulho nacional – alavancada pelas vitórias que a selecção ia averbando e facilitada pela imediata resposta do mercado que inundou lojas, vendedores ambulantes e promoções de jornais, com o símbolo verde-rubro imposto pelos republicanos como bandeira nacional após a revolução de 1910.
Era tal a procura que, entre as várias respostas de produção, chegou do Oriente uma remessa em que os sete castelos do escudo volveram pagodes chineses. Mas o povo que deu mundos ao mundo não se podia indignar por, entre as várias propostas disponíveis, estar uma bandeira verde-rubra com pronúncia cantonesa ou mandarina.
Entre o apelo primordial de Marcelo Rebelo de Sousa e a massificação da exibição da bandeira, também Jorge Sampaio fez referência à beleza do gesto dos portugueses, Durão Barroso passou a exibir uma gravata com as cores nacionais e Scolari apelou expressamente à exibição do símbolo antes do jogo decisivo para a passagem aos quartos-de-final com a vizinha Espanha. A mais saborosa vitória.
"Foi um tempo único de festa", como diz Marcelo Rebelo de Sousa no seu texto, em que os portugueses se reconciliaram com a sua bandeira – um símbolo arreado da paixão popular desde 25 de Abril de 1974, varrido pelos internacionalismos revolucionários e pela má consciência duma guerra colonial com final abrupto.
Agora o combate era outro, tratava-se de, recebendo bem quem visitava o País, marcar a diferença e o orgulho de pertencer a esta pequena nação mais ocidental da Europa. E, já agora, dentro de campo, bater adversários bem mais poderosos, financeira e militarmente, nesta outra arte de circular a bola até passar a linha de golo que, no século passado, se consolidou como a mais universal metáfora da guerra.
Nem a dupla derrota com a Grécia fez desvanecer o orgulho de exibir a bandeira que, durante meses, foi perdurando em carros e casas. Como se quisessem dizer que o gesto associado à exibição do símbolo ia muito para além do futebol, portugueses de todas as classes sociais mantiveram hasteada a bandeira que uma comissão composta pelo pintor Columbano Bordalo Pinheiro, o escritor Abel Botelho, o jornalista João Chagas e dois militares revolucionários – Ladislau Pereira e Afonso Paíla – escolheu, em 1910, como emanação cromática dos sons de 'A Portuguesa' e veio a ser instituída, por decreto da Assembleia Nacional, em 19 de Junho de 1911.
Agora, sete meses passados da euforia do Euro'2004, os rigores do Inverno e do défice, mais a dissolução envolta em trapalhadas várias devolveram a Portugal os tons cinzentos e o cepticismo atávico.
Marcelo Rebelo de Sousa garante que a sua bandeira lá continua "em mastro improvisado". Há mais alguém?
O TESTEMUNHO DE MARCELO REBELO DE SOUSA
"POR ORGULHO NACIONAL PERMAMENTE"
O Professor lançou a ideia da exposição da bandeira nacional durante o seu comentário na TVI. Sete meses depois, garante que a sua bandeira ainda continua hasteada num mastro improvisado.
A ideia não foi minha. Foi do jovem Bernardo Teotónio Pereira. A mim coube-me só dar-lhe eco, projectá-la, através da TVI, para milhões de portuguesas e portugueses.
Tive, desde o primeiro minuto, a noção de que seria uma pedra no charco. Mas não esperava que as ondas fossem tão fortes e mobilizadoras.
O Presidente Jorge Sampaio e o seleccionador nacional Luís Felipe Scolari apoiaram-na. Surgiram as bandeiras nas janelas, nos automóveis, nas motas, nas lojas, nas escolas, em toda a parte.
Portugal, deprimido com a crise económica e os casos judiciais, agarrou-se ao Euro'2004 e à bandeira nacional numa afirmação de quem quer dizer que está vivo, que não renuncia à luta e acredita em si mesmo e na sua capacidade de vencer.
Acabado o Euro'2004, que foi um tempo único de festa, apelei a que as bandeiras ficassem. Dei o meu exemplo: lá está a bandeira em mastro improvisado.
Falei nas Olimpíadas, nos Paralímpicos, no Mundial que estava a chegar. E muita bandeira ficou. Algumas, por mera inércia. Outras, como recordação de um tempo feliz. Outras ainda, por orgulho nacional permanente. É destas que eu gosto mais!”
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