PAQUETES: PALÁCIOS FLUTUANTES

O Santa Maria e o Príncipe Perfeito honraram o nome de Portugal na história dos grandes navios. Conheça a história de alguns dos maiores paquetes que cruzaram o Mundo

04 de maio de 2003 às 15:38
PAQUETES: PALÁCIOS FLUTUANTES
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Quando partiam ou chegavam os paquetes Vera Cruz, Santa Maria, Príncipe Perfeito e Infante Dom Henrique havia festa.

Altivo, moderno e elegante, o Príncipe Perfeito navegava com cores da CNN – Companhia Nacional de Navegação, fundada em 1918 e herdeira da ENN – Empresa Nacional de Navegação de 1880. Os outros três ostentavam as cores da CCN – Companhia Colonial de Navegação, fundada em Angola em 1922.

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Nessa altura, Portugal navegava com navios de dimensão, tonelagem e lotação muito superiores à média nacional.

Em 1945, o então ministro da Marinha, Américo Thomaz, publica um despacho visando o renovo da frota mercante. Conhecido por ‘Despacho 100’, o documento ‘empurra’ a Marinha Mercante para uma fase de renovo e modernização sem precedentes, com navios dignos a representarem a secular tradição marítima portuguesa.

O Pátria inicia a nova era em Dezembro de 1947. Seguem-se os Império, Angola, Moçambique, Niassa, Uíge, Angra do Heroísmo, Amélia de Mello e Funchal, que serão, com os quatro grandes paquetes, os maiores navios portugueses de sempre. Os mais imponentes, os nossos palácios flutuantes, contam histórias e peripécias...

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Tonelagem: 21.765t

Comprimento: 185,8m

Motorização: 2 pares de turbinas

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Velocidade máxima: 23 nós

Lotação: 1 242 passageiros

Custo de construção: 203.5 mil euros

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Anos de serviço: 1952-1973

Construído nos estaleiros Co-ckerill, Bélgica, foi lançado à água a 2 de Junho de 1951 e entregue à CCN a 23 de Fevereiro de 1952. Deixou Antuérpia a 28, estava o Santa Maria em fase de construção, chegando a Lisboa a 2 de Março. Impressionou de imediato, por ser o primeiro paquete português digno desse nome e pelo contraste com os navios mistos nacionais para passageiros e carga.

De linhas fluidas e muito modernas, mostrava-se avançado para a época. O interior, luxuoso e confortável, era formal e sem grande profusão cromática. Pintado com as cores da CCN – casco cinzento esverdeado e chaminé amarela com faixa horizontal branca rematada por faixas verdes – foi visitado pelas mais altas individualidades.

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Na viagem inaugural com escala no Rio de Janeiro, Santos, Buenos Aires e Montevideu – que decorre a 20 de Março –, transportou a bordo Gago Coutinho que, com Sacadura Cabral, ligou Lisboa e Rio de Janeiro na primeira travessia aérea do Atlântico Sul, corria o ano de 1922.

Com duas décadas no activo e inúmeras viagens efectuadas à América do Sul e América Central, o Vera Cruz foi vendido a sucateiros da Formosa e deixou Lisboa no dia 4 de Março de 1973.

Um triste fim para o primeiro paquete português, considerado por muitos como um dos mais belos navios nacionais dos anos 50.

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Tonelagem: 20.906t

Comprimento: 185,6m

Motorização: 2 pares de turbinas

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Velocidade Máxima: 23 nós

Lotação: 1 182 passageiros

Custo de construção: 254.9 mil euros

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Anos de serviço: 1953-1973

‘Irmão’ do Vera Cruz – e também ele construído nos estaleiros de Cockerill – apresentava porém, face a este, múltiplas diferenças no que tocava ao exterior e interior (fruto das alterações ao projecto inicial com base na experiência com o primeiro paquete).

Lançado à água a 20 de Setembro de 1952 e entregue à CCN a 20 de Outubro de 1953, saiu de Antuérpia a 22, chegando três dias depois a Lisboa. Na sua viagem inaugural à América do Sul, que decorreu a 12 de Novembro de 52, escalou o Funchal, Rio de Janeiro, Santos, Buenos Aires e Montevideu.

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Na segunda viagem, acabaria por sofrer uma avaria que obrigou à sua paragem e reparação em Lisboa, no período de Fevereiro a Junho de 1954.

O Santa Maria tornou-se no mais famoso paquete português de sempre no início da década de 60, quando foi alvo de um assalto político. Essa circunstância viria a marcar para sempre o seu nome e prestígio, bem como o facto de ser o único paquete português a escalar os Estados Unidos com bastante regularidade. Sabe-se também que foi o mais caro dos paquetes portugueses.

Após 20 anos de carreira, o paquete Santa Maria foi vendido como sucata (apesar de estar em aparente bom estado) saindo de Lisboa rumo à Formosa no dia 1 de Junho de 1973. Acabou os seus dias lado a lado com o ‘irmão’ Vera Cruz, no mesmo triste e final destino.

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Príncipe Perfeito — 1961

Tonelagem: 19.393t

Comprimento: 190,4m

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Motorização: 2 grupos de turbinas a vapor

Velocidade Máxima: 20 nós

Lotação: 1 000 passageiros

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Custo de construção: 249.4 mil euros

Anos de serviço: 1961-1976

Tal como o Infante Dom Hen-rique, deve o nome ao facto de, na época (1960), serem celebradas as Comemorações Henriquinas, versadas sobre os Descobrimentos.

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Baptizado com o cognome de D. João II, grande impulsionador da epopeia marítima, foi adjudicado aos estaleiros Neptune, sendo o maior navio ali construído e de fabrico inglês, destinado à exportação.

Dotado com estabilizadores antibalanço (estreia entre nós), tinha o casco cinzento claro (como figura de proa, o escudo azul e branco da CNN) e chaminé negra.

Lançado à água a 22 de Setembro de 1960, foi entregue um mês antes.

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Largou no dia seguinte de New-castle em festa e entrou no Tejo a

4 de Junho. Belo e equilibrado, o maior paquete da CNN era esteticamente clássico e moderno. A decoração e ambiente interior denunciavam a origem britânica, com larga utilização de madeira.

Na viagem inaugural a África, a 27 de Junho, escalou o Funchal, São Tomé, Luanda, Lobito, Moçâmedes, Cape Town, Lourenço Marques, Beira e Moçambique.

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A sua última viagem, rumo a Angola, ocorreu em Junho de 1975. Saiu pela última vez de Lisboa

em Abril de 1976, vendido a armadores estrangeiros. Mudou de armadores até 1982, registado como Al Hasa, Fairsky, Vera, Marianna IX e Marianna 9.

Permanecia imobilizado na Grécia no início dos anos 90.

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Infante D. Henrique — 1961

Tonelagem: 23.306t

Comprimento: 195,5m

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Motorização: 2 grupos de turbinas a vapor

Velocidade Máxima: 21 nós

Lotação: 1 018 passageiros

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Custo de construção: 224.5 mil euros

Anos de serviço: 1961-1974

Tido como o mais bonito dos paquetes portugueses, o nosso maior navio foi construído no estaleiro belga de Cockerill, em Hoboken.

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Lançado à água a 29 de Abril de 1960, apresentaria novidades face aos outros navios da CCN e navios nacionais (nomeadamente na pintura e chaminé). O tom cinzento esverdeado do casco cobria parte da estrutura superior, deixando a branco os últimos pisos. Uma lista branca ao longo do casco e mastros brancos (amarelos nos navios da CCN) marcavam a diferença. A chaminé, do tipo ‘Lascroux’, para melhor tiragem de fumos, era uma estreia.

A decoração homenageava o Infante com uma grande estátua do Navegador no átrio da 1ª classe (hoje no Museu da Marinha).

A entrega à CCN, em 1961, sofreu um atraso, dado que foi necessário substituir as hélices que causavam excessiva vibração no mar.

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Seria entregue a 18 de Setembro, chegando no dia 21 a Lisboa. A viagem inaugural ocorreu a 4 de Outubro, com África como destino.

O Infante Dom Henrique causava furor nos portos onde escalava. Após diversas viagens e cruzeiros em final de carreira – o derradeiro dos quais ao Funchal – imobilizou-se em Janeiro de 1976.

Comprado à CTM em 1977 pelo Gabinete da Área de Sines, acomodou trabalhadores desse complexo até 1986. Vendido em 1988 a um armador estrangeiro, navega agora com o nome Vasco da Gama.

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Tiravam medidas uns aos outros. Países e companhias de navegação, todos se digladiavam em ‘guerras’ de metros e número de chaminés.

Se ter quatro simbolizava gigantismo, havia os que usavam três e mais uma quarta falsa, para impressionar. Só fumaça! (Titanic e ‘irmãos’). Sulcavam o Atlântico Norte contra o tempo e a toda a força pelo recorde da travessia, que lhes dava prestígio e a famosa Flâmula Azul.

Tornados obsoletos pelo avião a jacto, transformaram-se em navios para cruzeiros na década de 70. Poucos asseguram hoje a mítica travessia. Imponentes, elegantes e luxuosos, já não os fazem assim charmosos. Gigantescos palácios flutuantes, eles eram e continuam a ser os mais famosos transatlânticos do Mundo...

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O ASSALTO AO SANTA MARIA

Nome de código: Operação Dulcineia. Objectivo: assaltar o Santa Maria rumando à ilha espanhola de Fernando Pó e a Luanda para sublevar as populações contra os regimes de Franco e Salazar.

Concebido por Humberto Delgado e Henrique Galvão, executado por este e 24 oposicionistas portugueses e espanhóis do DRIL — Directório Revolucionário Ibérico de Libertação, o plano foi levado a cabo no dia 22 de Janeiro de 1961.

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Galvão estava exilado na Venezuela e o paquete navegava pelo mar das Caraíbas com mil pessoas a bordo. O comando embarcou nos portos de La Guaira e Curaçau. Apesar da acção surpresa não pretender causar vítimas, acabou por haver um tripulante morto e três passageiros feridos.

O Santa Maria fez manchetes internacionais: por ser alvo do primeiro desvio de um meio de transporte com objectivos políticos do mundo. Desconhece-se a sua rota e destino mas é fácil perceber que o ‘ataque’ saiu comprometido, nomeadamente quando foram desembarcados passageiros feridos na ilha de Santa Lúcia — por razões humanitárias — e quando o paquete se cruzou com um navio dinamarquês.

O barco seria detectado pela aviação da Marinha americana e sobrevoado desde então. Numa faixa de tecido branco colocada junto à ponte de comando lia-se ‘Santa Liberdade’.

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Gorado o objectivo de se aproximar de África incógnito, rumou ao Recife e desembarcou os passageiros. Galvão obteve asilo político no Brasil e o Santa Maria foi devolvido. Chegou a Lisboa embandeirado em arco a 16 de Fevereiro com pompa e circunstância oficiais. Agastado com o eco internacional e a propaganda anti-regime, Salazar proferiu então o mais curto e lacónico discurso da sua longa ditadura política: “Portugueses! Temos de novo o Santa Maria entre nós!”

ANO NOME PAÍS MEDIDA PESO LOTAÇÃO

1962 France França 316m 66.348t 2.044

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1940 Queen Elizabeth Reino Unido 314m 83.673t 2.273

1935 Normandie França 313m 79.280t 1.972

1936 Queen Mary Reino Unido 310m 80.774t 2.100

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1952 United States Estados Unidos 301m 53.329t 1.928

1969 Queen Elizabeth 2 Reino Unido 293m 65.863t 2.005

1922 Majestic Reino Unido 291m 56.551t 2.150

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1914 Leviathan Estados Unidos 289m 54.282t 3.889

1950 Liberté França 286m 51.839t 1.513

1929 Bremen Alemanha 286m 51.650t 2.200

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1930 Europa Alemanha 286m 49.746t 2.024

1965 Michelangelo Itália 277m 51.000t 2.100

1913 Berengaria Reino Unido 280m 52.117t 4.594

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1914 Aquitania Reino Unido 278m 45.647t 3.230

1965 Michelangelo Itália 277m 51.000t 2.100

1965 Raffaello Itália 275m 50.000t 2.050

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1912 Titanic Reino Unido 269m 46.329t 2.603

1932 Rex Itália 268m 51.062t 2.308

1911 Olimpic Reino Unido 267m 45.324t 2.584

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1960 Camberra Reino Unido 249m 44.807t 2.186

1932 Conte di Savoia Itália 248m 48.502t 2.200

1907 Mauretania Reino Unido 243m 31.938t 2.335

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1927 Ile de France França 241m 43.152t 1.786

1960 Leonardo da Vinci Itália 240m 38.000t 1.500

1907 Lusitania Reino Unido 240m 31.550t 2.165

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1922 Columbus Alemanha 236m 32.354t 1.792

1921 Paris França 235m 34.569t 3.233

1930 Empress of Britain Reino Unido 232m 42.348t 1.195

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1938 Nieuw Amsterdam Holanda 231m 36.287t 1.220

1959 Roterdam Holanda 227m 38.645t 1.456

1912 France França 217m 23.769t 2.020

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1926 Augustus Itália 216m 32.650t 2.210

1903 Baltic Reino Unido 221m 23.873t 2.800

1912 France França 217m 23.769t 2.020

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1926 Augustus Itália 216m 32.650t 2.210

1926 Roma Itália 216m 32.583t 1.675

1953 Andrea Doria Itália 213m 29.083t 1.241

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