Para cada mal, a sua planta

Em tempos tiveram filas à porta e, apesar da crise, continuam a vender plantas medicinais para (quase) todos os males.

21 de fevereiro de 2016 às 12:00
Ervanária Foto: Mariline Alves
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O chá Vida Longa número 69-B combate as tosses rebeldes. O número 71 obriga a enjoar as bebidas que contenham álcool e o 62 é um tratamento para evitar urinar na cama (especialmente para crianças). Este último já não é comercializado – está descrito num catálogo tão antigo que tem os preços em escudos e um número de telefone sem indicativo – mas a Ervanária Angolana ainda vende chás que garante serem indicados para incontinência e bexigas descaídas. Para eliminar tumores e quistos. Para doenças do couro cabeludo. Para impotências genitais, obesidade, rouquidões, dores de cabeça, cálculos nos rins, apendicite e todo um sem número de fórmulas (cerca de 60) a maioria testada por Horácio da Silva, um naturopata que nasceu em Angola no início de 1900 e por lá estudou as plantas no terreno, bebendo o conhecimento e experiências dos curandeiros locais e depois testou fórmulas para os diversos males que apoquentavam o homem por aquela altura.

"Já naquele tempo eram as doenças infecciosas que preocupavam a população africana, por isso as primeiras fórmulas que desenvolveu eram para tratar problemas como o paludismo. E, depois, aquelas situações mais normais como o diabetes e hipertensão arterial", conta o neto Jorge Martinho, desde a morte do avô um dos responsáveis pela ervanária que chegou a Portugal depois do 25 de Abril, embora o seu fundador ainda tenha passado pelo Brasil – onde terá ido à caça de mais plantas para novos chás – antes de finalmente aterrar em Lisboa.

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Ainda há clientes tão antigos que se deslocam à ervanária, onde os frascos de vidro com o nome das plantas estão alinhados em estantes de madeira, à procura de Horácio (morreu no ano 2000, com 98 anos), um estudioso de poucas falas que se recusava a fazer análises clínicas e toda a vida bebeu um tónico para o sistema nervoso à base de alecrim. Mas também há novos clientes, "mais jovens, que vêm depois de fazer pesquisas na internet por determinada planta medicinal". E há muitas, também vendidas isoladamente (e ao quilo).

FLOR DE HIBISCO

"No ano passado, a grande tendência foi a flor de hibisco, que ganhou reputação de ótimo drenante, bom para a gestão de peso e também para combater infeções urinárias. Mas para excesso de peso também aconselhamos a congonha-de-bugre, que atua na gordura abdominal", explica Jorge Martinho.

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Para o stress – "dentro dos chás, os mais procurados são para o sistema nervoso" – "aconselhamos plantas como a passiflora e a tília e para as situações de mais desgaste, ansiedade e inquietação temos ervas como o maná, um purgativo físico e mental que é um suave laxante para situações de obstipação ou apenas para fazer uma limpeza; e o alecrim, que é um ótimo tónico".

No campo dos afrodisíacos, "o pau-de-cabinda continua a ser uma referência, apesar de ser um estimulante muito forte que tem de ser usado com cuidado, a ‘Tribulus terrestris’, que é uma tendência porque as plantas que atuam a nível da libido também são usadas para desenvolvimento da musculatura; e a nível feminino temos a damiana, que funciona muito bem para a mulher como estimulante", continua o neto de Horácio da Silva, o naturopata da bata branca que detestava publicidade e num artigo no jornal angolano ‘Notícia’, em finais de sessenta, disse que só falaria quando curasse o cancro.

Os preços dos produtos variam em função da raridade das plantas – esta casa comercializa plantas da flora portuguesa, angolana, sul-americana e também oriental – e da procura. A planta mais cara da ervanária é atualmente o ginseng-vermelho, a 114 euros o quilo: para estados de fadiga e depressões, mas também considerado um afrodisíaco de topo; o maná a 105 euros, o pau-de-cabinda a 90 euros, o borututu (usado sobretudo em problemas de fígado e "uma referência dentro da flora angolana") fica por 60 euros e a camomila ("ótima para cólicas") por 31 euros. Mais barata, a planta batizada com o nome mais inspirador (embora menos científico) de comigo-ninguém-pode (25 euros o quilo). "Esta e a espada-de-são-Jorge são mais usadas em banhos. São mais indicadas para instabilidade, tem mais a ver com situações conflituosas". Para que as querem as pessoas? Não tanto para corações partidos ou solitários mas "para afastamentos. Ainda aparecem pessoas a dizer: ‘Ai tenho um vizinho de quem não gosto ou que não gosta de mim, queria afastá-lo. Essas são as situações mais caricatas. Claro que todas as plantas têm a sua componente energética, mas algumas têm uma ação mais na parte emotiva que têm o seu contributo quando a pessoa está mais agitada. Não vão fazer nada em concreto mas podem ajudar a pessoa que as toma a ter melhor discernimento e assim tomar melhores decisões", acredita o neto do fundador.

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FILAS DE GENTE

Na década de oitenta, a Ervanária Rosil fechava à hora de almoço e quando os funcionários regressavam não eram estranhas as filas de gente que enchiam a rua da Madalena, na baixa de Lisboa, à espera para adquirir determinado chá da marca. "As filas iam até ao topo da rua, por isso alargámos nessa altura as instalações – os dois espaços são agora um em frente do outro e continuam os dois a funcionar – para responder à procura", conta António Silva Rodrigues, filho do fundador da casa, que nasceu em 1950 e onde todo o processo (desde que se apanham as plantas ao processo de tratamento e armazenagem) decorre. Silva Rodrigues passeia com cuidado entre as estantes com gavetas de madeira (feitas de raiz) onde as plantas, ou os compostos, se alinham em grupos. No topo de cada estante lê-se o propósito dos chás que ali se encavalitam e os males a que estão destinados, sejam eles obesidade ou bicos de papagaio.

"Está a ver esta planta? [aponta para a flor de fava] Isto para chegar aqui demora muito, não nasce na natureza assim, exige uma enorme intervenção humana, não é só ir buscar, demora quase uma semana a arranjar", continua o atual proprietário, justificando o preço (160 euros o quilo) do produto, essencialmente procurado para "a litíase urinária" (cálculos nas vias urinárias).

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A ervanária tem 47 compostos de chá diferentes, que usam as fórmulas do fundador, sendo que um dos mais pedidos é o nº6, uma mistura de abacate, boldo, carqueja-flor, pinheirinha/cavalinha, erva-são-Roberto, hipericão-kneip, sene e taraxaco, "para auxiliar a digestão e efeitos de vesícula preguiçosa". O nº 2, conhecido como ‘nervino’, "é para o stress dos tempos modernos" e para a libido – os afrodisíacos têm muita procura – a Rosil aconselha o nº 37, "com damiana, marapuama, noz-de-cola, sementes de coentros, feno-grego, erva-doce, lúpulo e anis-estrelado".

Os clientes antigos continuam a entrar na loja para comprar (e os recentes também, até porque a zona é pródiga em turistas que se encantam com a singularidade do negócio), mas o setor tem atravessado dificuldades, lamenta Silva Rodrigues.

"As entidades que regulamentam esta atividade têm-nos vindo a criar nos últimos anos cada vez mais dificuldades. E eu percebo porquê, estamos integrados numa área que somos concorrentes aos interesses da indústria farmacêutica e hoje são as próprias pessoas que fazem a sua opção e há cada vez mais gente a optar na área da prevenção pelos produtos medicinais. "Temos notado um regresso às origens, as pessoas voltam a procurar a planta tradicional cujo uso é reconhecido há centenas de anos e menos os suplementos", explica o proprietário da casa, que "para ir ao encontro dos hábitos de consumo dos mais jovens" transformou – um trabalho de pesquisa que demorou dois anos – o seu produto tradicional em cápsulas que vão à máquina de café, "mas exatamente com as fórmulas que têm os chás tradicionais que aqui vendemos. São mais fáceis de tomar, as pessoas agora não gostam de perder tempo".

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AVÓ 'APANHADORA'

"Ainda ontem [quarta-feira] aqui veio uma senhora muito envergonhada a pedir pau-de-cabinda. Pediu desculpa por estar a pedir aquele produto e disse ‘Ele é que me mandou cá’, referindo-se ao marido que lhe pediu para ser ela a comprar em vez de ir ele", conta Dina Paixão, a filha da proprietária da Antiga Ervanária. O nome faz jus à história de uma casa que nasceu em 1793, no largo da Anunciada, junto à praça dos Restauradores, na capital. Como no século XVIII o largo era chamado de Passeio Público, nessa altura, a ervanária chamava-se Botica do Passeio Público. Só em 1924 é que mudou de nome, embora só em 1990, após 171 anos nas mãos da mesma família, é que passou para o nome de Américo Paixão e Maria Celeste Santos – que há já 55 anos eram fornecedores de plantas medicinais e aromáticas da Antiga Ervanária. "Nós somos de uma aldeia perto de Santarém – hoje conhecida como a Terra das Ervanárias – e as plantas eram de todo o concelho, a minha avó materna era o que se chamava na altura uma ‘apanhadora’, andava por todo o concelho a apanhar ervas", continua Dina Paixão sobre uma história familiar que se confunde com o cheiro e a cor das plantas medicinais.

"Agora há muita procura pelo chá de uxi-amarelo, que é brasileiro, e unha-de-gato, que é peruano, para os miomas, endometriose e quistos nos ovários. Nos blogues, várias mulheres começaram a relatar que a toma combinada destes chás tem efeitos muito positivos, por isso têm sido a grande tendência deste ano", acrescenta. Sobre as plantas mais procuradas para estados de ansiedade e stress, a filha da atual proprietária conta que "tem havido um ligeiro decréscimo. Nos anos de crise houve mais procura pela erva-de-são-João" – que nos primórdios era tida como capaz de afastar maus espíritos, e foi inclusivamente utilizada no tratamento de inúmeras doenças mentais. Atualmente tem sido mais usada para combater estados depressivos e insónias.

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"Existem casos de cirrose hepática a quem os médicos tinham dado poucos anos de vida e esses doentes ao tomarem determinados compostos conseguiram viver durante alguns anos, mas não vendemos milagres. Ainda no outro dia veio cá um senhor à procura de um chá que o ajudasse a acabar com o vício do tabaco e eu disse logo que isso aqui não era possível", assume Dina Paixão. E a verdade é que embora haja inúmeros estudos que apontam para os benefícios das plantas medicinais (o facto é que eram usadas ancestralmente numa altura em que eram os únicos medicamentos com que a humanidade podia contar) é importante que, se tem alguma preocupação de saúde que o aflija, não deixe de consultar um médico. "Muitas pessoas tomam as nossas plantas ao mesmo tempo que medicamentos prescritos pelos clínicos. Uma coisa complementa a outra", conclui o neto de Horácio da Silva, o tal naturopata que dizia só fazer publicidade às suas fórmulas no dia em que descobrisse a cura do cancro.

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