"Passávamos muitas horas debaixo de fogo"
No norte de Angola havia muito terrorismo. E chegámos a ser castigados por não querer avançar ao fim de dois dias sem comer.
Parti para Angola em fevereiro de 1964 e cheguei em março seguinte. A minha companhia já lá estava desde dezembro de 1963. Três dias após a chegada, recebemos a missão de levar um batalhão para o Grafanil. Outros iam ficando em várias zonas do Norte, como Zala, Beira Baixa, Maria Fernanda, Nambuangongo, e voltavam a Luanda de oito em oito dias. Nesses sítios já quase não viviam civis africanos. Cabia-nos fazer o reabastecimento, o que nos obrigava a passar muitas horas debaixo de fogo. Havia terrorismo.
Lembro-me de que chegámos a ser castigados por certo dia não querermos avançar mais. Eram duas da manhã, estávamos há dois dias sem comer. Decidimos parar e cozer umas batatas. Quando regressámos, o alferes apresentou queixa. Felizmente, os capitães intercederam e recebemos apenas um castigo - carregámos em Zala e andámos 40 km debaixo de fogo. Passámos dez dias nisto, para trás e para a frente, sofrendo ataques dezenas de vezes, até que surgiram quatro helicópteros para fazer escolta.
Ao fim desses dez dias, segui sozinho para Maquela do Zombo, passando por Viana, Dondo, Salazar, Negage, Camabatela e Damba para, a partir daí, levar escolta. Esperei quatro dias. Os que estavam destinados a acompanhar-me tinham sido enviados para uma outra operação. Resolvi partir sozinho. Fiz mais 104 km, descarreguei em Maquela e voltei para Luanda. Sempre sozinho. Quando cheguei, fui enviado ao quartel-general, pois trazia armas confiscadas à guerrilha. Pensaram em mandar-me para interrogatório pela PIDE por ter passado tantos dias sozinho.
TERRA FÉRTIL
Certo dia, fui chamado para embarcar no comboio que fazia a travessia por Lobito para levar dois presos até Nova Lisboa, acusados de terem uma carga de diamantes, riqueza muito fácil de encontrar naquela terra. Demorei um dia e uma noite a chegar, mas cumpri a missão.
Em finais de 1964, houve um ataque com um Unimogue entre Bessa Monteiro e Ambrizete, em que morreram sete soldados. Escapou o condutor, mas coberto de golpes de catana.
Em 1965, sou atingido na Mata do Café quando estava incumbido de ir a Zala buscar o batalhão do general Spínola.
Dei entrada no hospital militar de Luanda, onde conheci Alberto dos Reis, um colega de António Fernandes, natural da Fazenda do 11, perto de Nambuangongo, cuja captura valia 100 contos. Travámos conhecimento, e Alberto dos Reis contou-me que o seu grupo só atacava colunas militares, para ficar com material de guerra. Tinha sido capturado perto de Queteze e levado para o hospital. E foi então que pediu a minha roupa à civil para poder escapar sem dar nas vistas.
Na noite de Natal de 1965, engana a guarda, deixa almofadas na cama, rouba um jipe, arranja fardas do hospital e passa em todos os postos de controlo até Teixeira Sousa, atravessa o rio Luau e só ao fim de sete dias se ouviu na rádio a comunicação da sua fuga. Farto daquilo, decidi também fugir do hospital. Apresentei-me no Grafanil e recebi dez dias de detenção, passados em viagem: Gabela, Novo Redondo, Luanda.
Apesar de tudo, à chegada a Portugal, tive pena. Gostei do tempo que passei em Angola, terra maravilhosa de onde nunca deveríamos ter saído.
VÍTOR PERDIGÃO
Comissão
Angola 1964/1965
Força
1º Cabo Condutor
Atualidade
Reformado, 71 anos, casado, vive no Bombarral
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt