Pesadelo profundo

Viagem à Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependências da Marinha. Com embarque imediato.

27 de novembro de 2005 às 00:00
Pesadelo profundo Foto: Tiago Sousa Dias
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Paulo está na sala com um papel na mão. Lê devagar, hesita, concentra-se, mas não consegue avançar. Os colegas olham-no, mas nada. Não percebe as letras que escreveu, as lágrimas caíram sobre a tinta e borraram as palavras. Mas não apagaram a vida, nem as memórias, nem o mal que fez, nem o mal que deixou que lhe fizessem. Agora, Paulo está sentado no jardim. Fala depressa, as ideias saem da cabeça a uma velocidade assustadora. As lágrimas já secaram, as dívidas no papel estão quase pagas. Emocionais e financeiras. E o céu voltou a ficar azul.

Paulo, o do jardim, deixou de consumir drogas há seis anos, oito meses e 17 dias. Faz hoje. Foram as quatro semanas de internamento na Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependências e Alcoolismo (UTITA) que lhe permitiram começar a aprender a viver de novo aos 34 anos. Ao fundo do jardim, cinco homens de fato treino azul estão prestes a terminar uma viagem semelhante. Acalmam os nervos com cigarros.

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Embarcaram há quatro semanas pelo portão da vivenda amarela no interior da Base Naval do Alfeite. “As pessoas só se tratam quando já não têm mais nenhuma alternativa”, explica o capitão-tenente Nélson Santos, director da UTITA. “Para muitos dos que aqui chegam, a culpa dos problemas é de todos menos deles próprios.” Criada há mais de doze anos para combater os problemas de alcoolismo e droga na Marinha, a UTITA cresceu com o seu próprio sucesso e hoje, além de poder receber militares dos três ramos das Forças Armadas e elementos das forças policiais, acolhe também utentes enviados pelo Instituto da Droga e Toxicodependência.

Independentemente da origem, as pessoas entram e saem todas ao mesmo tempo. Como se estivessem embarcadas. Mas a viagem não tem destino certo, nem é certo que todos cheguem ao fim. “Nas duas primeiras semanas, tentamos que as pessoas percebam que têm uma doença e que esse problema tem consequências”, diz o médico Nélson Santos, o comandante da vivenda amarela. Não que seja difícil aos médicos identificar a doença. Conhecem-na demasiado bem. Álcool ou droga. Ou ambas. Mas aqui tudo tende a ser um pouco diferente e é preciso mostrar o mal ao enfermo. É aí que tudo começa.

Nuno chegou há quatro semanas e amanhã vai despir de vez o fato de treino azul. Entrou para a Marinha há doze anos com o sonho de viajar, de conhecer mundo, de sentir o vento e o balanço do mar. “Dez anos depois acordei e percebi que tinha andado a perder tempo. O álcool cega-nos”, conta. Nuno sabe que não pode fumar na camarata, mas acende um cigarro. “Hoje não faz mal”. Vinte e sete dias de terapia intensiva, em regime de internamento, mudaram-lhe a maneira de falar. Diz coisas que jamais pensou dizer. “Eu nunca quis acreditar que o álcool era a minha droga de eleição”, admite. “Mas agora compreendo que fiz sofrer muita gente. Em especial a minha família.”

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Na UTITA, chamam clique às tomadas de consciência episódicas. Aqueles momentos, quase sempre breves, de sobriedade em que a pessoa consegue ver o nada que existe à sua volta. No caso de Nuno, houve vários cliques. Primeiro, foi apanhado a conduzir com uma taxa de 2,40 gramas de álcool por litro de sangue. “Depois, este Verão, morreu um amigo meu que passava a vida a dizer-me que eu tinha um problema”, revela. Em casa, conta, a situação agravava-se de dia para dia. “A mulher já estava com o cartão vermelho.” A carreira afundava-se a cada copo.

“O meu chefe costumava perguntar-me se eu tinha um problema com o álcool. E eu respondia que não. Mas era mentira. Eu tenho um problema gravíssimo com o álcool”. E dentro de algumas horas, quando terminar o programa na vivenda amarela, Nuno vai ter mais um problema. “Estou cheio de medo. Há tascas por todo o lado...”

João, um marinheiro recuperado na UTITA, lembra-se bem do seu último dia, há oito anos e meio. “Peguei na trouxa e, como se costuma dizer, foi tipo burro com palas. Direitinho a casa, como se viesse a fugir de alguma coisa. Só quando tranquei a porta é que descansei.” Acabara de passar da super-protecção da UTITA para a protecção zero. Quatro semanas antes tinha passado de uma garrafa de uísque a seguir ao almoço para a abstinência.

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Tinha ficado tudo para trás, mas continuava tudo tão presente. A vida normal de estudante, com o desporto e as dificuldades a matemática, as bebedeiras ocasionais quando entrou para a escola profissional, as saídas à noite, as mesas do café, o primeiro ano de recruta na Marinha. “Até aí era normal”. Depois, o vento mudou. João passou à disponibilidade e foi colocado em Sagres. Estava longe de casa, solteiro, sem contas para pagar e com um ordenado para gastar.

“Comecei a consumir demasiado”. Teve alguns acidentes de automóvel, mas nada que fizesse o tal clique. As ‘toucas’ de fim-de-semana começaram a ser antecipadas, fosse por um jogo, por um petisco, pelo que fosse. Casou-se, foi colocado num navio. “O bar está aberto 24 horas por dia, porque a guarnição funciona por turnos. Costumava dizer que era a saudade, o estar longe da família, que puxava o álcool. Mas não.” Primeiro era a cerveja para acompanhar a bifana ao pequeno almoço, depois passou a ser um pão com queijo ou fiambre para acompanhar a cerveja. “O resto do dia era beber para me manter quentinho.”

A pior tormenta, contudo, haveria de ser em terra. “ Tinha mulher e uma filha e passava semanas fora de casa. Bebia todos os dias, o dinheiro começava a faltar...” A situação ainda piorou antes de melhorar. “Em casa, a mulher saiu e fiquei com uma televisão no chão e um frigorífico para refrescar a bebida.” Quando era hora de vestir a farda, João bebia para desfazer a barba. “Era isso ou cortar-me todo. As minhas mãos tremiam”.

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Ao almoço, levantava o prato, mexia na comida e bebia dois copos de vinho. Corria para o café e para a garrafa de uísque. Era a primeira do dia. Após o jantar bebia outra. O fundo do copo era cada vez mais fundo. João pesava 120 quilos, mais 50 que o normal, urinava vezes sem conta. A sua vida não dava sinais de melhoria. Pensou em acabar com tudo. “Tentei suicidar-me duas vezes.”

Nélson Santos, o comandante da vivenda amarela, reconhece que não é um problema de fácil resolução. “Grande percentagem dos militares da Marinha que chegam à UTITA têm problemas de álcool, mas não há estatísticas rigorosas sobre o consumo”, admite o director da unidade. A convicção que tem resulta de quinze anos embarcado em navios com bar a bordo. “Nos quinze anos que estive no mar, entre 1985 e 2000, as coisas mudaram muito. Mas ainda existe um espírito de consumo de álcool.”

Na Marinha norte-americana, onde a UTITA foi beber a filosofia que preside aos tratamentos, o consumo de álcool a bordo dos navios de guerra é proibido. “Não creio que em Portugal seja ideal proibir o consumo. Faz parte da cultura portuguesa. Ainda há problemas de alcoolismo, por isso aparecem aqui. E julgo que não são todos, porque a rede de referenciação não é perfeita. Provavelmente, há pessoas que não chegam aqui.”

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Não foi o caso de João. O responsável pela unidade onde estava colocado apanhou-o a tempo. Tão a tempo que talvez não fizesse ideia. João arriscava todas as noites e no dia seguinte não se lembrava de nada. “Acordei centenas de vezes ao lado de mulheres que não conhecia. Felizmente, passei por tudo sem contrair nenhuma doença. Além daquela que tenho, claro.” Passados oito anos, João continua a regressar regularmente à UTITA e a falar com os homens e mulheres que estão em tratamento. “Aqui ajudaram-me a perceber que é possível continuar e enfrentar os problemas sem beber.”

João está mais magro, barba feita, alguns cabelos brancos. Tem 36 anos, casou outra vez, já teve a segunda filha. E já não bebe. Mas a grande diferença na sua vida não se vê. “Acabou a solidão. A revolta. Aquele sentimento de que ninguém me ajuda.” Nélson Santos, o comandante, sorri ao ouvir a palavara ‘solidão’. “A dependência acarreta um problema muito sério: o isolamento. As pessoas só se dão com o grupo de consumo. O nosso trabalho aqui, com os grupos de auto-ajuda, é levá-los a perceber o contrário, que podem contar com os outros e consigo”, explica o médico.

Isolamento e grupo de consumo. Veja-se o exemplo de Nuno. Quando soube que vinha fazer o tratamento na UTITA, parou de beber. Foi um mês antes. “Continuava a dar-me com os meus camaradas, ia com eles, mas bebia água com gás. Andei um mês inteiro a fugir com o rabo à seringa e eles sempre a dizer que, mais dia menos dia, voltava a ficar bêbedo”, conta o militar em fim de tratamento. Comportamento egoísta e isolamento. Veja-se o caso de Paulo.

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“Fazia de tudo para arranjar dinheiro. Cheques sem cobertura, empréstimos que não pagava, esquemas e mais esquemas. Até fiz de gigolo. Cheguei a injectar-me em casa, à frente dos meus pais, estava convencido que ia consumir até morrer”. Ajuda. Veja-se o exemplo de ambos. Falam sempre no passado.

Paulo, outra vez. No papel que segura na mão está escrita a sua vida. Não, não é a primeira versão que fez, cheia de lugares comuns e poesia e que foi aplaudida pelos companheiros de tratamento.

Esta é a verdadeira, aquela que os técnicos da UTITA exigem que seja escrita para funcionar como salvo-conduto. Mesmo borradas, as palavaras estão lá. As experiências com álcool e erva antes de fazer treze anos, as ‘chinesas’ que entupiam os pulmões, a heroína. “Sempre disse que não me ia injectar. Mas falhei. A primeira vez foram uns amigos, mas ao fim de um dia já tinha o curso de enfermagem.” Primeiro nos braços, depois nas pernas. “E ia trabalhar. Ficava lá em cima, num guindaste, a carregar os navios de guerra com equipamentos de milhares de contos.

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E estava ali, a ‘picar milho’, se era heroína, a ‘speedar’, se tinha cocaína, ou completamente incapaz de fazer fosse o que fosse quando estava a ressacar. A culpa não era minha. Era de quem me punha lá sabendo dos meus problemas. E eles sabiam.”

Hoje Paulo também sabe. O seu filho nasceu há seis meses. A droga acabou há seis anos. No dia em que saiu da UTITA esperou horas à porta de uma reunião de Alcoólicos Anónimos. É o caminho desejável para todos os que saem do tratamento para viver um dia de cada vez. É o primeiro apoio. A UTITA é o segundo.

Os companheiros na viagem de quatro semanas são o terceiro. Paulo envolveu-se nas reuniões, fez serviço. É uma forma de ajudar, ajudando-se. Só de pensar nisso emociona-se. É como se estivesse outra vez a ler aquele papel com a tinta borrada.

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Estes marinheiros acordam cedo todos os dias porque acordaram a tempo de viver mais uns dias. No ano passado, a Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependências e Alcoolismo da Marinha realizou sete programas de internamento biopsicossional para 52 utentes: 25 militares e 27 civis. Mas, apesar de ser o único serviço de utilização comum das Forças Armadas, a verdade é que nem o Exército nem a Força Aérea enviam militares para tratamento.

E na Marinha, como mostram os números, o alcoolismo é o principal problema. Daí que se venha acentuando a tendência para crescer o número de civis encaminhados pelos centros de atendimento a toxicodependentes (CAT). À espera de uns e de outros está uma equipa de 26 pessoas, militares e civis, que inclui médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal de apoio. Luís Rodrigues e Luís Videira são enfermeiros e peças fundamentais na engrenagem da casa amarela. “A nossa tarefa é mostrar-lhes as ferramentas que podem usar quando regressarem à vida normal. É o que podemos fazer”, explicam os enfermeiros.

Na casa amarela, as regras são para cumprir. Não há álcool, não há sexo nem violência, é preciso acordar cedo, participar e ter o quarto arrumado. Despertar às 07h45, “e o que isso custa a muitos deles”, e horas seguidas de terapia de grupo. “É um progama de alta intensidade”, explica Francisco Henriques, um dos médicos. Há terapia de adição, psicoterapia e aconselhamento espiritual.

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“Não se pode confundir com religião. Trata-se de fazer ver que existe um poder superior ao indivíduo, que pode ser o poder do grupo. E que o consumo acarreta uma degradação da vida espiritual”, descreve Nélson Santos. “Como se fosse uma alergia a morangos. Se a pessoa não consumir, é uma pessoa normal. Mas altera-se quando come morangos. Passa-se o mesmo com o álcool e as drogas.”

Quem não cumprir as regras, pode ser expulso – o que é uma das formas de sair do tratamento. A outra é desistir. No caso dos militares, a consequência é a mesma. São submetidos a uma junta médica e acabam por ser considerados inaptos para o serviço e abandonam a vida militar. Nélson Santos, o director da UTITA, prefere falar dos outros, dos que não desistem nem são expulsos.

Os números que se seguem foram mostrados ao Presidente da República, Jorge Sampaio, em Outubro, durante uma visita às instalações. “Não temos estatísticas de sucesso com os civis. Mas nos militares, ronda os 71 por cento. Embora seja difícil estabelecer estas taxas nas doenças crónicas. A pessoa nunca deixa de estar doente. O critério que utilizamos é o da remissão sustentada, ou seja, qual foi a evolução no último ano. E aí, 43 por cento tiveram uma remissão total, não beberam. Uma percentagem menor, cerca de 27 por cento, tiveram remissão parcial, o que significa que houve pelo menos uma recaída no último ano.”

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QUANDO SE APRENDE A VIVER UM DIA DE CADA VEZ

O tratamento ministrado na Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependências e Alcoolismo (UTITA) tem por base o método Minesota, um modelo de tratamento psicoterapêutico muito conhecido, que, por sua vez, bebe as suas linhas na filosofia dos doze passos dos Alcoólicos Anónimos.

O objectivo final é ensinar o utente a mudar as atitudes e comportamentos que o conduziram ao estado de dependência, através de grupos de auto-ajuda e terapias várias, de modo a que adquira plena consciência da sua doença e possa enfrentar de novo os desafios. No fundo a receita até parece simples. Trata-se de ensinar os pacientes a viver um dia de cada vez até ao fim da sua vida. Pode parecer fácil mas não é.

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