Piloto e cavalheiro

Os negócios ficam esquecidos por 24 horas. Pais do Amaral leva as corridas muito a sério e Le Mans é a prova de eleição.

20 de junho de 2010 às 00:00
Piloto e cavalheiro Foto: Nuno Alexandre, AIFA
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'Gentlemen drivers' é uma expressão muito britânica que define todos aqueles que apostam no desporto automóvel pelo mero prazer da competição e da emoção. É uma forma de estar que não é fácil de traduzir, mas a que melhor se pode aplicar a Miguel Pais do Amaral, um ganhador no mundo dos negócios que descobriu o desporto automóvel "algo tarde", como ele próprio admitiu. "Sempre gostei de automóveis desde muito miúdo e, quando pude começar a competir, o gosto desenvolveu-se e tive a oportunidade e a possibilidade de desenvolver a minha actividade automobilística, pois considero muito pretensiosa a palavra carreira".

Chegar a ser protagonista numa prova como as 24 Horas de Le Mans – no último fim-de-semana – "é algo em que nunca pensei, mas o que é facto é que as oportunidades surgiram". O desporto automóvel tem um lugar especial na vida de Pais do Amaral: "é o meu principal hobby, sendo a actividade não profissional a que dedico mais tempo e mais atenção".

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Para quem está habituado a marcar uma presença dominante no campo dos negócios, o interesse pela competição automóvel pode ser visto como um investimento no seu prazer. Miguel Pais do Amaral admite que "é um investimento, porque é um desporto que não tem nada a ver com o ténis ou o golfe. É mais caro, mas permite-me fazer algo de que eu verdadeiramente gosto".

HOBBY PARA LEVAR A SÉRIO

Para além dos custos monetários há também um investimento em tempo e, para quem orbita no mundo da economia, tempo é dinheiro; mas Miguel Pais do Amaral dispersa a sua actividade por provas como o Campeonato Le Mans Series, os automóveis clássicos e pelo campeonato internacional GT Open.

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"A minha actividade profissional está à frente de tudo. No desporto automóvel, o Campeonato Le Mans Series está em primeiro lugar, mas são apenas cinco fins-de-semana de corridas para além do fim-de-semana de Le Mans e dos testes que o antecedem, o que significa sete semanas. Participo nos GT Open para manter a mão e ter ritmo competitivo, não tendo a preocupação de disputar um campeonato, enquanto que nos clássicos participo numa ou duas corridas por ano, porque não tenho disponibilidade para fazer mais". Mas, aos 55 anos, faz planos de abrandar o ritmo no futuro: "tenho a percepção de que um dia, por causa da idade, não poderei participar na Le Mans Series e então terei todo o tempo para os automóveis clássicos".

ESFORÇO FÍSICO

Uma corrida como Le Mans é uma das provas mais duras do calendário internacional. Miguel Pais do Amaral admite que a prova francesa "é o sonho de qualquer piloto que está envolvido no desporto automóvel. É mais do que uma corrida, pelo ambiente que se vive e pela história de uma prova onde participaram grandes marcas e grandes nomes". Uma prova prestigiada e prestigiante: "correr em Le Mans é fazer parte da sua história e, quando iniciámos o nosso projecto, o objectivo passou sempre por participar nesta prova porque representa muito mais do que a adrenalina que se pode sentir em qualquer outra competição", afirma Pais do Amaral, que descreve Le Mans como "uma pista única, onde se fazem médias altíssimas.

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Parte do circuito utiliza estradas públicas, o que garante um conjunto de sensações que não são possíveis em nenhum outro lugar. Para além disso, corre-se de manhã, à tarde e à noite, o que também é muito diferente de tudo o resto. Quando terminamos a prova só pensamos no ano seguinte e, no meu caso, fico sempre muito maçado por ter de esperar mais 12 meses".

A participação numa corrida de 24 Horas – em que durante um fim-de-semana são percorridos mais quilómetros do que numa temporada de Fórmula 1 – exige uma preparação física e mental muito intensas, algo que nem sempre é fácil para quem tem uma agenda preenchida, onde o tempo é escasso. Mas este trabalho é feito ao longo do ano. "Desde Março, altura em que tem início a temporada, que intensifico a minha musculação de preparação física, essencialmente em termos de cárdio e musculação, o que faço num ginásio que tenho em casa", explica Miguel. "Geralmente faço isso dois ou três dias por semana, mas antes de Le Mans tento que esse trabalho seja diário, embora desta vez não esteja tão bem porque este ano tive que fazer muitas viagens".

REUNIÕES AO TELEFONE

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A vida profissional e o hobby não podem deixar de estar em confronto ao longo das 24 Horas de Le Mans, uma prova que se estende ao longo de uma semana. Na segunda e na terça-feira decorrem as verificações técnicas, na quarta e quinta são os treinos e na sexta-feira a preparação para a corrida que se disputa no sábado e no domingo. Não parece fácil manter a concentração na grande prova e, ao mesmo tempo, estar de olho no mundo dos negócios onde a vida nunca pára.

"Cheguei a Le Mans na segunda-feira, mas actualmente com um computador e um telefone é possível continuar a trabalhar", diz Miguel Pais do Amaral, explicando que teve "15 ou 16 conferências telefónicas ao longo da semana". O que nem sempre é uma desvantagem: "às vezes sou mais produtivo fora do que quando estou no escritório". No entanto, é preciso separar as coisas. "Na quarta-feira, os treinos começaram às quatro horas da tarde. Encerrei a minha vida profissional às três horas e não pensei em mais nada. Na quinta-feira tive a sorte de ser feriado em Lisboa, mas ainda participei numa conferência telefónica às 11 horas e encerrei o trabalho. Tenho a capacidade de gerir o tempo, tanto mais que quando entro no carro não penso em negócios. Se eu fosse para a pista e, no meio das Hunaudières, estivesse a pensar em financiamentos ou na compra de uma empresa no Brasil, obviamente que me arriscava a ter maus resultados", explica Miguel Pais do Amaral.

A actividade desportiva de Miguel Pais do Amaral está apoiada pela equipa ASM, criada pelo ex-piloto António Simões. "A equipa tem 15 anos, tendo começado a sua actividade internacional em 2003, no campeonato de GT em Espanha", recordou-nos António Simões. O projecto, que terminou com a presença em Le Mans e no Campeonato Le Mans Series, "surgiu em 2005, na altura em que apareceu à venda um Lola que tinha ganho o campeonato e tinha entrada em Le Mans. Nessa altura o Miguel Pais do Amaral achou que era boa oportunidade para podermos participar nas 24 Horas de Le Mans de 2006".

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VITÓRIAS

Nessa temporada a equipa venceu em Spa, Jarama e Nurburgring, "e só não ganhámos o campeonato porque mudámos de nome após a presença em Le Mans", explica António Simões. No entanto, a conquista do título surgiu em 2009, com o Ginetta-Zytek. "O nosso Lola estava velho e era necessário encontrar uma solução. Falámos com a Porsche, com a Lola, com a Pescarolo e com a Honda, mas escolhemos a Zytek porque achámos que era a empresa que nos dava a possibilidade de sermos o seu principal parceiro".

O Zytek é um protótipo e é muito difícil apontar um preço certo. Só o bólide pode custar 600 mil euros, "mas fazer o carro andar competitivamente custa muito mais dinheiro", admite António Simões. O custo de um motor pode ser entre 1000 e 3000 mil euros à hora, dependendo do seu nível de desenvolvimento – e durante o ano são utilizados cerca de três motores, já que eles não resistem mais do que 30 horas. A equipa portuguesa é composta por 21 pessoas – entre pilotos, engenheiros, mecânicos, técnico de telemetria e massagista. Nas corridas de Le Mans a equipa é reforçada com mais três mecânicos.

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Competir na prova francesa é muito mais do que participar numa corrida de carros. Steve McQueen fez da prova um filme, Paul Newman correu ali e Luc Besson transformou a pista do Norte de França num ‘set’ de filmagens. Desde 1923 que os melhores pilotos e marcas competem numa corrida de 24 horas, em que vários pilotos partilham o mesmo carro. Pais do Amaral sonha com a vitória, mas tem os pés assentes no chão. "Para ganhar em Le Mans é precisa muita sorte. Acontecem muitas coisas, não é possível controlar toda a corrida. Partimos sempre com o pódio como objectivo, mas nunca se sabe o que vai acontecer".

Além da competição, Le Mans é um laboratório por excelência. Permite testar a fiabilidade, desafiando os engenheiros a construir carros rápidos e resistentes e quando isso não acontece surgem as grandes derrotas, como a registada este ano pela Peugeot. Cada equipa pode ter três pilotos, sendo que nenhum deles pode conduzir mais de quatro horas seguidas, nem mais de 14 no total da prova. Pais do Amaral dividiu a condução do Ginetta-Zytek com o francês Olivier Pla e o inglês Warren Hughes.

BRASÃO

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O empresário português garante que esquece todas as preocupações profissionais quando entra em pista, mas a família está com ele quando conduz o protótipo. Na parte lateral do carro, e também na parte de trás do capacete, o brasão da família Pais do Amaral serve de talismã para as corridas. O símbolo heráldico inclui um lema inspirador: "virtus omnia vincit", um expressão do latim que significa "os virtuosos vencem tudo", mote para as corridas e para a vida de Pais do Amaral.

Em Le Mans o sonho da vitória voltou a ficar adiado, mas a próxima corrida é já entre 17 e 18 de Julho, nos 1000 km do Algarve, em Portimão, e aí o conde Miguel Pais do Amaral irá tentar a vitória que pode ser importante para a revalidação do título que conquistou em 2009.

UMA CORRIDA MARCADA PELO AZAR

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Os HPD com motor V8 Honda dominaram os acontecimentos desde os treinos, mas a equipa de Miguel Pais do Amaral parecia em condições para discutir um lugar no pódio nas 24 Horas de Le Mans. Durante as primeiras horas da corrida, o Ginetta-Zytek andou entre o terceiro e o quarto lugar mas, ao longo da 13ª hora, um problema de transmissão ditou uma longa paragem nas boxes.

A reparação demorou 38 minutos, atrasando a equipa. Pouco depois das seis horas da manhã, o piloto Olivier Pla perdeu algum terreno devido a um ligeiro despiste, mas a oito horas do final da corrida aconteceu o pior percalço: "na travagem no final das Hunaudières, o carro saiu de frente e bati no muro de pneus", explica Miguel Pais do Amaral.

A fibra de carbono da carroçaria cortou um pneu dianteiro do protótipo e, quando o piloto chegou às curvas Porsche, ficou incontrolável: "não percebi que tinha um pneu furado, virei o volante e o carro seguiu em frente contra o muro", diz Miguel. Os danos foram grandes e a equipa levou quase duas horas e meia a recuperar o Ginetta-Zytek. "As corridas são assim mesmo, e é talvez por isso que gostamos de Le Mans. Quando estas coisas acontecem só sentimos vontade de voltar no ano seguinte", afirma Pais do Amaral, que terminou a corrida no 20º lugar da geral e no sétimo posto da categoria LMP2.

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"DETERMINAÇÃO FORA DO COMUM"

Entre 2002 e 2005, o piloto Pedro Couceiro partilhou com Miguel Pais do Amaral a condução de um Porsche no campeonato espanhol de GT. Pedro foi convidado a juntar-se à equipa e não hesitou em fazer par com um piloto amador. "Desde os primeiros momentos que percebi que estava perante uma pessoa com uma determinação fora do comum. A evolução dele foi impressionante", conta o piloto. Juntos obtiveram várias vitórias, a mais saborosa das quais aconteceu na pista do Estoril, em 2004.

"É VERDADE QUE FUI O PRIMEIRO A TRABALHAR EM SETE GERAÇÕES" (Miguel Pais do Amaral)

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Miguel Maria de Sá Pais do Amaral, nascido em 1954, herdou o título de 2º Conde de Alferrarede. Depois de uma infância em Mangualde, onde o pai, 7º Conde de Anadia, tem um palácio, mudou-se para Lisboa aos nove anos. A família passou a viver com a avó (uma grande amiga de Salazar) e os primos, num palácio das Amoreiras que hoje é de Miguel. Em 1976, o jovem tímido e pacato licenciou-se em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico.

E aqui muda a vida do homem que decidiu trabalhar. Uma excentricidade para quem pertence a uma família aristocrata, habituada a viver das propriedades. "A minha família é muito tradicional, vivia dos rendimentos da propriedade. É verdade que fui o primeiro a trabalhar em sete gerações, mas sempre respeitaram a minha escolha", explica à Domingo.

Indiferente à confusão do pós-25 de Abril que se vivia em Portugal, Miguel escolheu os negócios. Partiu para França, onde, com o dinheiro herdado de uma tia, pagou os 30 mil dólares que custou o MBA (mestrado em Gestão) na INSEAD, uma das mais prestigiadas escolas do Mundo.

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E arrancou para uma carreira fulgurante na área de ‘business’ (ele não gosta da palavra ‘negócios’). Primeiro Nova Iorque, depois Londres, onde trabalhou no Goldman Sachs, um dos mais importantes bancos de investimento do Mundo. A vivência no estrangeiro abriu-lhe horizontes. Aprendeu a divertir-se. Saía, ia a discotecas, frequentou a Studio 54, a mais famosa e bem frequentada discoteca de Nova Iorque. Esteve lá no dia de fecho, numa festa com John Travolta e Diana Ross.

"Ele voltou da América uma pessoa diferente. Tornou-se muito mais sociável. Quando estava em Londres vinha a Lisboa aos fins-de-semana. Era uma festa, divertíamo-nos imenso", conta o ex-ministro Luís Nobre Guedes, amigo de juventude de Miguel e uma das raras pessoas que o trata por tu.

PATRÃO DOS MEDIA

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Podia ter feito carreira lá fora, mas optou por voltar a Portugal. Os contactos que fez no estrangeiro foram-lhe preciosos para investir em empresas nacionais. Em 1988 entrou na sociedade que fundou o jornal ‘O Independente’, a convite do amigo Nobre Guedes: "entrei no projecto por causa de duas pessoas que admirava muito, Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso".

Pais do Amaral manteve-se afastado da linha editorial. "Nunca tive intervenção, nem nunca quis ter", explica. O jornal prosperou nos primeiros anos mas, depois de Portas ter escolhido a política, o projecto definhou.

Em 1998 Pais do Amaral entrou noutro negócio de comunicação social que haveria de o trazer para uma ribalta que nunca quis. A TVI estava falida e Miguel representava vários fundos de investimento que tinham capital na estação. O comandante António Monteiro Coelho, antigo responsável pela comunicação da TVI, lembra a estratégia que o levou a tomar o canal de TV. "A empresa era disputada por vários credores que queriam assumir a gestão. Ele soube esperar, comprou as posições de vários accionistas pequenos e chegou à maioria do capital".

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Com José Eduardo Moniz na direcção de Programas e o ‘Big Brother’ a dar uma ajuda, a TVI passou a liderar. Miguel desentendeu-se com Moniz aquando da saída de Marcelo Rebelo de Sousa – seu cunhado – mas manteve-o na TVI. "Ele sabia que Moniz era a pessoa mais competente para o lugar",diz Monteiro Coelho.

INVESTIMENTOS

Em 2007 Pais do Amaral vendeu a sua participação à Prisa por 300 milhões de euros. "Não faço negócios por razões sentimentais, foi uma excelente oportunidade", explica. Apostou nos livros, comprou editoras e ergueu o grupo Leya, que hoje domina o mercado. A sua carteira de negócios estende-se às mais diversas áreas – vinhos, imobiliário, livros, finanças e um grande etc. Quer agora voltar à Media Capital, comprando acções à Prisa, mas avisa que não pretende ser "nem o principal accionista nem o CEO".

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António Parente, seu sócio na Companhia das Quintas – dedicada à produção de vinhos portugueses – sublinha a capacidade de negociação de Miguel Pais do Amaral: "é muito metódico, estuda os dossiês, toma decisões racionais, não perde tempo. Tem uma mentalidade diferente", explica.

Casado e com duas filhas, de 19 e 22 anos, Miguel vive entre aviões e reuniões, mas faz uma gestão primorosa do seu tempo. Já não caça animais selvagens em África, mas não larga as corridas de carros.

NOTAS

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CARRO

O Zytek vale 600 mil euros. Este valor dispara. Só o motor custa entre 1000 a 3000 euros por hora. E dura 30 horas.

EQUIPA

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21 pessoas integram a equipa portuguesa. Em Le Mans o apoio é reforçado com mais três mecânicos.

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