Polaroids da Cochinchina
No dicionário informal “ir para a Cochinchina” significa ir para longe, lugar imaginário que resulta das épicas viagens dos portugueses a um país distante: o Vietname. Onze mil quilómetros em linha recta e sabe-se lá quantos mais a bordo de uma secular Nau Catrineta
Procuro nas gavetas da memória uma justificação plausível para o fascínio que o Mekong exerce sobre mim. Quando, há oito anos, poisei pela primeira vez os olhos nas águas turvas deste rio, que nasce nos Himalaias tibetanos e segue o seu curso furando planícies e montanhas da China, Tailândia, Laos, Camboja e Vietname, recordei palavras do sábio Zen e percebi os alicerces da filosofia de vida oriental, sentindo-me expandir como um zepelim pronto para soltar amarras. Nesse momento fui leve. Tão leve que nunca mais aterrei completamente, deixando-me levar pelo vento como as canas de bambu que oscilam na outra margem do rio, escondendo búfalos e arrozais.
Por essa altura, embarquei com a minha amiga João na estonteante descida entre Chiang Rai, no norte da Tailândia, e Luang Prabang, no Laos, rodopiando por remoinhos e rápidos numa lancha a motor, vibrando com as paisagens descobertas a cada curva. Era Abril e celebrava-se o Ano Novo solar, pessoas de cara enfarinhada atiravam-nos sacos de água com pigmentos de cor e ofereciam-nos espetadas de carne de búfalo duras de roer. Quase tão duras como as lulas secas que agora tento desfazer na boca empurradas por uma cerveja fresquinha.
Vientiane mudou tanto que dificilmente reconheço a cidade provinciana em que era proibido ouvir música rock e onde, pelas avenidas de inspiração colonial francesa, quase não circulavam carros, muito menos turistas de iPod nas orelhas. Os templos e edifícios perderam o ar abandonado e reluzem iluminados por néons, posters coloridos anunciam concertos num auditório moderno, bandeiras com foice e martelo pendem das janelas envidraçadas da Lao Telecom. Enquanto redescubro, de bicicleta, a capital deste país, penso nas transformações que somos obrigados a absorver ao longo da vida.
Khansome, professor de 74 anos que me ajuda a remover da planta do pé um enorme pico de palmeira inadvertidamente espetado, é a prova viva disso mesmo. Explica-me em francês macarrónico que viu a sua terra ser ocupada por japoneses na II Guerra Mundial, que sofreu na pele a primeira e a segunda guerras da Indochina, que foi desterrado para um campo de reeducação depois da subida ao poder do Pathet Lao (o partido comunista) e que só agora, 'depois de velho e da queda da Rússia vermelha', conheceu dias mais tranquilos. E liberdade? 'Bem, estamos aqui a falar, não estamos?', contesta sorridente.
Deixo o Mekong para trás, coxeando de mochila às costas, e embarco numa jornada de 24 horas que me levará até Hanói, no norte do Vietname. A única pessoa que fala inglês no autocarro a abarrotar é Dennis, enfermeiro americano de 28 anos, despedido por conta da crise mundial de uma clínica de Portland. Ao pararmos para jantar, parece mais preocupado com as tripas que bóiam no prato à sua frente do que com o desemprego que o espera no regresso a casa.
Depois de atravessarmos a fronteira, iluminada por luzes de vela na manhã chuvosa, exasperamos com as constantes buzinadelas que se ouvem nas estradas vietnamitas. Já me tinha esquecido deste frenesi que quase me deu cabo dos nervos na minha primeira incursão pela antiga Cochinchina. Conto a Dennis que, também nessa altura, sempre que saiamos do autocarro éramos assediadas por mulheres vestidas com pijamas de ursinhos que nos queriam impingir alojamento. Não fosse o sangue frio da João e teria partido, na cabeça de uma delas, a bengala que comprei em Hoi An para oferecer ao meu avô Alexandre. Rimo-nos.
Observando pela janela a monda do arroz nos campos verdes, relembro as ruelas turísticas da pitoresca cidade de praia – anteriormente conhecida como Faifo – onde os portugueses estabeleceram uma feitoria no século XVI. É noite cerrada quando chegamos a Hanói. A algazarra triplica na capital deste país que foi um dos mais violentos palcos de batalha da Guerra Fria entre a Rússia e os Estados Unidos, dividido entre o norte comunista e o sul pró--americano. Será por causa disso que as pessoas parecem zangadas? Ou será apenas o timbre estridente das vozes que me entra pelos ouvidos adentro implicando-me com os nervos? Não tenho resposta para a questão, mas se optar pela segunda das hipóteses os portugueses têm muitas culpas no cartório. Considerando que foi Francisco de Pina, missionário nascido na Guarda, quem 'inventou', nos alvores do século XVII, o único alfabeto romanizado destas paragens, o alfabeto anamita, transcrito com base na fonética portuguesa. Por mais que os franceses tentem atribuir ao seu compatriota Alexandre de Rhodes, discípulo de Francisco de Pina, essa glória. Bem podiam ficar com a 'taça', penso irritada, tapando as orelhas com as mãos.
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