'Poppy', a idiota

Não é fácil fazer um filme sobre a alienação das metrópoles, os seus habitantes prontos-a-explodir, crianças sem infância, adultos sem-abrigo e subúrbios iludidos, sem redundar em mais um melodrama. E também não é fácil reflectir a alegria sem realizar outra comédia de véspera de segunda-feira. Conjugar ambas as improbabilidades parece impossível. Mas Mike Leigh tenta tudo isso num só filme. Como? Preparem-se para a ‘Poppy’.

22 de fevereiro de 2009 às 00:00
'Poppy', a idiota
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O seu guarda-roupa é uma árvore de Natal anos 80. Ela fala alto, ri-se e mexe-se sem parar. Tanto encanta com o seu constante optimismo, quanto exaspera. Se a experiência desta personagem é uma montanha-russa, também é a primeira vez que o realizador ocupa o centro com uma pessoa feliz. Aliás, este filme é a face cor-de-rosa de ‘Naked’.

‘Um Dia de Cada Vez’ versa ainda sobre a aprendizagem, seus métodos e, no limite, sobre a ‘escola da vida’, desde a pré-primária às aulas de flamenco para as meias-idades sem par. Quando ‘Poppy’ descobre que lhe roubaram a bicicleta, logo encontra o lado positivo. É tempo de aprender a guiar, de pegar nas rédeas, metáfora de ritual para a idade adulta. Mas a educadora de infância, que já parece uma galinha antes de se vestir como tal com os seus alunos, encontra um instrutor tipo racista-paranóide-apocalíptico. As aulas desta versão iletrada do ‘Guardador de Espaço’ de ‘Naked’ à ‘Poppy’ só podiam ser complicadas. E são.

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Pode perguntar-se até que ponto poderá ir a empatia desta mulher. Mas mais interessante é questionar até onde pode ir a nossa empatia com ela que, de certa forma, representa a esperança. Como é que hoje reagimos à genuína boa disposição, oposta ao sorriso plástico dum vendilhão? O incansável bom-humor de ‘Poppy’ provoca emoções, sobre as quais o público se deverá interrogar. Gostar dela, apesar dos seus agudos desconcertantes, é o maior desafio colocado ao espectador. O mesmo que Dostoiévski lança através do seu príncipe ‘Myshkin’ em ‘O Idiota’. Ele é um homem simples e honesto, entre Cristo e ‘Dom Quixote’, que contrasta com a sua sociedade materialista e corrupta. Onde a inocência é vista como idiotia, doença mental. Ou seja, num mundo louco, o lugar para os puros é no hospício? Ou, como tenta ‘Poppy’, nesse inferno é preciso conduzir sem derrotismo? 'Guiar bem não é um acidente', publicita o carro de instrução. Pois não. E ‘Poppy’, aparentemente espontânea, não é nenhuma casualidade.

MUITO IDIOTA

‘Vera Drake’ (Mike Leigh, 2004) também retrata uma heroína altruísta que encarna uma outra ordem social, menos criminal e mais suportativa. Tal como ‘Poppy’, Leigh encontra nessa mulher outra possibilidade para os humanos. Outro futuro.

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IDIOTA, MAS NEM TANTO

 Um dos mais emblemáticos filmes de Mike Leigh, ‘Naked’ (1993), é simultaneamente niilista e entusiasmante na sua precipitação até à derrocada final. O protagonista é o negativo de ‘Poppy’, um sem--abrigo emocional, desconfiado de tudo e de todos, sarcástico como é raro encontrar no cinema.

IDIOTA DUAS VEZES

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‘O Idiota’ de Akira Kurosawa (1951) baseia-se no livro de Dostoiévski. Como o próprio realizador admitiu, o que sempre lhe despertou interesse na obra desse russo é a forma honesta como escreve sobre a existência humana. O seu filme faz-lhe justiça.

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