Porreiro, pá
“Eles acham que porreiro vem de porra (...). Diz o Tomás: “Está quieto, isso é meu! Tu és um porreiro!”
Como os meus miúdos são pequenos e ainda não tiveram oportunidade de contactar com o vasto vocabulário não-autorizado que circula pelas escolas portuguesas, a única palavra que todos eles sabem que não podem dizer (e por isso dizem) é ‘porra’. O Gui, até há bem pouco tempo, atravessou uma fase em que mal se sentia desagradado com qualquer coisa – e nem imaginam a facilidade com que ele se sente desagradado com qualquer coisa – libertava automaticamente um sonoro ‘porra’, estivesse ele em privado ou em público, que é uma coisa que fica sempre bem.
Ainda por cima, nesta idade os miúdos apreciam sobremaneira serem delatores uns dos outros e por isso, mesmo quando eu ou a Teresa não tínhamos o privilégio de poder apreciar em primeira-mão a declaração da palavra proibida, logo chegava um deles feito queixinhas a acusar o outro de ter dito "a palavra que começa por ‘pô’". "A palavra que começa por ‘pô’" é uma forma de cultivar, tal como Camões, essa figura de estilo a que se costuma chamar perífrase (em vez de uma palavra, muitas), e também um modo engenhoso de dizer uma asneira sem sofrer a respectiva repreensão.
Mas nos últimos tempos a coisa sofisticou-se, e o Gui e o Tomás introduziram uma novidade no seu léxico: uma palavra que eles tomam por um terrível e gravíssimo insulto, ideal para deitar lenha na fogueira das discussões domésticas. Quando eles se zangam, naquele preciso momento que precede o tabefe, já com um esgar de fúria e um fio de saliva a escorrer pelos cantos da boca, lançam um olhar mortífero ao respectivo irmão e gritam o mais alto que podem: "Tu és um... porreiro!".
Pois é. Porreiro. Eles acham que porreiro vem de porra, o que faz um certo sentido, e portanto decidem chamar-se um ao outro a pior palavra que conhecem. Diz o Tomás: "Está quieto, isso é meu! Tu és um porreiro!". Responde o Gui: "Não, não, porreiro és tu!". Posso garantir-vos: assistir a isto é uma m-a-r-a-v-i-l-h-a.
Infelizmente, mais tarde ou mais cedo vou ter de lhes explicar que porreiro não só não é insulto como é um elogio. Se os mantivesse na ignorância, evitaria muitas vergonhas públicas, o que dava imenso jeito. Mas, por outro lado, verem o pai rir às gargalhadas enquanto eles pensam que se estão a insultar mutuamente é capaz de não ser o melhor caminho para uma boa educação.
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