Quanto custa a escola
Pedro e Isa regressam às aulas. Os Orçamentos familiares ditam vidas bem diferentes.
O IRS é uma sigla que não se aprende na escola primária mas não é palavra estranha aos ouvidos de Isa Rodrigues - a menina de dez anos sabe que é com o reembolso do dito "que os pais conseguem pagar as contas" de dividir em época de mais um regresso às aulas. E que "esperou dois meses pelos ténis Nike" que há muito sonhava porque só o subsídio de férias do pai os conseguia tirar da prateleira da loja. Isa sabe também que antes de pedir para lhe comprarem alguma coisa "deve perguntar se é caro ou barato" e que é normal ouvir "este mês não dá, damos quando for possível", assim como o mais comum é a mãe esperar pelos saldos para conseguir a roupa que depois passeia com orgulho de menina.
Isa, que vai agora para o 5º ano, nasceu no São Francisco Xavier porque a Maternidade Alfredo da Costa estava em obras, não foi registada no hospital porque os serviços estavam de greve, não levou a vacina BCG porque não havia enfermeiros e viu fechar três das escolas onde andou - a última "encerrou por causa das infiltrações de água" que antecipavam curto-circuitos pouco simpáticos. Isa cresceu na Mouraria, pelas ruelas de uma Lisboa antiga onde o senhor é o fado, as mesmas onde o pai, Jorge Rodrigues, operador de impressão nos CTT, nasceu e cresceu. Apesar da referência, ela prefere os ‘Morangos com Açúcar' e a ‘Hannah Montana' ganha aos pontos às divas que cantam de xaile na lista de preferências. Mas a alma bairrista mede-se ao ritmo de muitas outras melodias: "nos últimos Santos Populares ela fez parte da primeira marcha infantil da Mouraria".
A ESCOLA PÚBLICA
Os pais, que apesar de separados no bilhete de identidade mantêm uma convivência diária e cordial, olham-na com evidente orgulho. "O facto de a Isa ir para o 5º ano faz-nos, primeiro do que tudo, pensar em como está crescida. Tem sido uma criança supernormal e saudável, e uma aluna bastante razoável" - confirma a mãe, Paula - e que se passeia com visível desembaraço pelos corredores da escola nova, a pública Gil Vicente, na Graça: "tem mais espaço para brincar e para estudar, tem dois ginásios e balneários e nos corredores não se pode correr mas nos recreios pode-se, os recreios são mesmo para correr e isso é mesmo fixe" - conta-nos a filha, que a partir da próxima sexta-feira, dia 17, vai entrar numa outra rotina diária. "Vou ter de acordar uma hora mais cedo porque nesta escola nova as aulas são às oito da manhã".
Daí que desta semana em diante mãe e filha corram para apanhar o autocarro das 7h00, seguido do eléctrico que as levará à escola; um percurso de 45 minutos a que já se habituou: vive na zona de Santos com a mãe e os avós desde o divórcio dos pais, embora não haja dia que não visite o pai e a outra avó na Mouraria onde nasceu.
A aventura não vai ser exclusiva de Isa - os adultos estão a vivê-la com igual intensidade. Emocional e financeiramente falando. "Os livros ficam em 150 euros, a mochila custou 20, o dossiê 10 e o estojo 4. Tudo o que é cadernos e canetas e lápis comprámos nos armazéns do Martim Moniz, que tem preços muito mais em conta", explica a mãe, uma técnica comercial da área de seguros que acumula part-times para melhorar o orçamento e ainda faz parte da associação de pais. O rendimento mensal de ambos ronda os 1000 euros numa época difícil para os portugueses.
"Estamos habituados a fazer sacrifícios mas a Isa é a nossa prioridade, nunca vamos deixar que lhe falte nada: nem a alegria, nem as coisas de que ela precisa". Desde cedo ensinaram-na a "poupar. Não somos muito apologistas de andar sempre a comprar por isso ela já sabe que tem de se comprometer a estimar e dar valor aos objectos para eles durarem". Como que para confirmar a frase da mãe, Isa mostra-nos o que sobrou do ano passado. "Tenho canetas, lápis e borrachas que ainda dão".
A opção pela escola pública foi inevitável dado o orçamento mas é encarada com entusiasmo. "É uma escola-modelo onde ela vai aprender a lidar com todas as crianças. Acho que pode preparar muito para a vida, além do facto de estarmos confiantes na qualidade do ensino".
Nos últimos dias têm falado muito sobre isso. "O bullying assusta-me por isso sempre a habituei a não me esconder nada do dia dela. Já lhe dissemos que há crianças problemáticas que por terem problemas dentro de casa tentam chamar a atenção da pior maneira". Embalada pela conversa da mãe, Isa aproveita para recordar um episódio: "no meu terceiro ano uma amiga começou a fumar na casa de banho da escola e eu achei que ela era rebelde". Os pais falam-lhe amiúde dos problemas da zona. "Nunca lhe escondemos o ambiente do bairro: ela vive no mundo real, sabe o que presta, o que não presta, para saber desde logo diferenciar o bom do mau", contam em uníssono os pais, Paula Pereira, de 45 anos, e Jorge Rodrigues, de 48, habituados que estão a conviver com situações complicadas. O facto da filha vir a ter os antigos colegas da escola primária sossega-lhes os corações. "Vai praticamente a turma toda para a Gil. E ainda temos outra vantagem: os miúdos da Mouraria são como um clã, os mais velhos vão proteger os mais novos e estar de olho neles porque é assim o espírito de bairro".
ACTIVIDADES POR 10 EUROS
Na mochila, além do material, Isa espera levar um dos livros da colecção ‘Uma Aventura', assinado pela ministra da Educação e por Ana Maria Magalhães. No fim das aulas ruma ao ATL da Junta de Freguesia do Socorro que desde pequena conhece.
"É lá que a Isa faz as actividades extracurriculares que não conseguiríamos pagar à parte. Tem hip-hop, vela e natação, além de apoio escolar apenas por dez euros ao mês", conta a mãe, que terminou o 9º ano mas pondera voltar à escola através do programa Novas Oportunidades. Ao fim-de-semana, quem tira à Isa o Estádio da Luz, tira-lhe tudo. "É sócia desde 2007 porque pediu para ser". Quando não há bola elegem os museus de Lisboa e as ruas que vão dar ao castelo para o lazer.
As férias são habitualmente na aldeia do avô paterno, na serra do Açor, por entre as nascentes "de água natural" e as feiras "de Arganil" às quintas-feiras, onde se vende e compra por apetecíveis pechinchas. Este ano a morte do avô adiou a visita e optaram pela praia da Torre, junto a Carcavelos, antes do ano lectivo começar. É hora de regressar à escola. Para um novo recomeço que traz angústias, despesas e "coração apertado por serem mais disciplinas e muitos professores" - como diz Isa - mas também muito entusiasmo.
OPTAR PELO PRIVADO
No outro lado da cidade, muda o tom do fado mas partilham-se as mesmas angústias da mudança de escola.
Pedro, com o mesmo currículo de ensino básico e muitas tropelias vividas no Externato Rainha D. Amélia, está de mochila feita para um novo estabelecimento de ensino: as Oficinas de São José, o tradicional colégio do Alto dos Prazeres fundado pela congregação de padres salesianos onde também Jorge Coelho, o pai do menino de dez anos, aprendeu as primeiras lições da vida, nos idos anos 80.
Talvez por isso não houve lugar para hesitações quando chegou o momento de escolher o novo estabelecimento de ensino. "Nada tenho contra as escolas do Estado e andei no Liceu Pedro Nunes, quando saí dos Salesianos. Mas enquanto ele for pequeno prefiro que esteja num ambiente mais protegido e controlado. Acredito que se o Pedro tiver bases sólidas e daqui a três ou quatro anos decidir mudar para a escola pública, irá controlar melhor as situações. Eu senti isso no dia em que mudei dos Salesianos para o Pedro Nunes", afirma o progenitor, pai divorciado com a custódia partilhada dos dois filhos rapazes e actual director criativo numa agência de publicidade.
Esse dia "marcou-o para a vida", tantas foram as diferenças que encontrou na troca de carteiras. " Era tanta a algazarra - gente a falar, a fazer barulho, a atirar as coisas ao ar - que pensei que íamos todos parar ao conselho directivo logo às oito da manhã do primeiro dia de aulas. Afinal não aconteceu nada, porque era mesmo assim que as coisas funcionavam. Eu é que não estava habituado", recorda.
O tal privilegio da protecção custa 455 euros por mês, que se somam a outros tantos da mensalidade da escola do irmão mais novo, António (cinco anos), que frequenta o Externato Rainha D. Amélia.
O rendimento familiar supera os quatro mil euros mensais, soma bem simpática nos dias que correm mas, ainda assim, há meses particularmente dolorosos.
"Em Setembro por causa do material escolar e em Março pelas matrículas. Só agora, em livros foram 140 euros para o Pedro e 70 euros para o António. O resto do material ficou por 90 euros, mas ainda falta o equipamento de ginástica. Fato de treino, calções, t-shirt e ténis, que costuma ser o mais caro..."
Na morada da família, um prédio com a arquitectura típica dos anos 40 no pacato Campo Pequeno, vive-se confortavelmente mas sem luxos. Lá para Janeiro, Jorge terá de reformular a gestão das finanças domésticas à medida de ‘família numerosa'. O caso exige atenção a duplicar: vem aí um par de gémeos. Mais dois rapazes para a equipa de futebol a exigir pontaria certeira em contas que passarão a dividir por seis. "Vamos ter de mudar tudo: de casa, de carro, e eventualmente, ficar mais perto da escola, porque isso vai facilitar as deslocações de manhã", espera o pai.
Por agora, os Coelho ainda conseguem partilhar o mesmo carro pela alvorada. Rita, a madrasta, fica logo no escritório no Saldanha, os petizes seguem para as respectivas escolas e, por fim, Jorge "anda tudo para trás outra vez" para chegar finalmente ao trabalho.
MAIS RIGOR E DISCIPLINA
Da antiga escola de Pedro, outra instituição privada, apenas vão mais meia dúzia de amigos também para os Salesianos.
O primeiro contacto com o colégio fez-se com o mesmo espírito descontraído que os Coelho encaram tudo o resto na vida, entre uma visita guiada pelo próprio pai e as brincadeiras com o irmão mais novo, a quem o destino também já promete entrada nos Salesianos, daqui a mais alguns anos.
Para Pedro, porém, a mudança será já amanhã: "a adaptação é que vai custar um bocadinho. Mas talvez seja só a primeira semana. Quando acabar o primeiro período, já nem notarei a diferença".
Um funcionário dos Salesianos que ouve a conversa alicia-o com a escolinha de futebol que funciona na instituição, a piscina e o basquetebol e não lhe dá "nem dois meses" para que não queira sequer ir embora para casa ao fim do dia.
RELIGIÃO NA SALA DE AULA
Menos importante para a família é a vocação religiosa do colégio, traço que nem por isso alterou a forma de estar de Jorge Coelho quando ali era aluno. "Sou católico, mas já o era em casa da minha família, não fui impelido pelo facto de ter andado nos Salesianos. No entanto, nunca fomos praticantes ao ponto de ir todos os domingos à missa. Com eles é a mesma coisa; há uma base de valores, de teor universal: vamos ser todos amigos, vamos respeitar-nos e ensino-lhes o que é a religião e a Igreja, mas não há propriamente uma educação religiosa em casa nem tão-pouco na escola".
Nos Salesianos, ainda hoje os alunos mais jovens continuam a alinhar-se em fila no alpendre do átrio principal, ao primeiro toque, para entrarem na sala primeiro que o professor. Partilham silêncio e ordem.
Graças a regras como esta, o pai acredita que a instituição ensinará os filhos a desenvolver métodos de estudo. "No colégio há maior rigor e disciplina. Impera a crença de que podemos ser todos amigos e muito divertidos mas, quando chega a hora de trabalhar, é para fazer a sério e, de preferência, com brio. São esses princípios que quero que tenham. A partir daí podem ser o que desejarem, onde quiserem", confessa.
E Pedro quer ser "muitas coisas" quando for grande: "polícia, jornalista, futebolista, professor... já pensei em ser muitas coisas!", enumera o petiz, encolhendo os ombros perante a variedade de opções que ele próprio sugere.
A capacidade de sonhar com muitas profissões ao mesmo tempo é, aliás, traço de família. "Eu também era assim", atalha Jorge. "Quis ser bombeiro porque gostava dos carros. Da Guarda Republicana porque achava piada às motas, embora nem sequer soubesse o que eles faziam. Depois quis ser médico. Acabei por ir parar ao jornalismo e agora estou na publicidade", constata.
O filho acha o trabalho do pai uma ‘seca', como se diz na gíria da sua idade. "Passa lá muitas horas e está sempre em reuniões", lamenta.
ROTINAS REPARTIDAS
Aluno de "notas acima dos 92 por cento, até na matemática", Pedro não se engana quando soma as horas de ausência: gostava que o pai passasse mais tempo em casa, quiçá que o fosse buscar à escola, tarefa cumprida diariamente pela avó.
"Eles fazem os trabalhos de casa na minha mãe, que tem sido um grande apoio, porque é impossível sair do trabalho a meio da tarde para os ir buscar. Quando chegam a casa, já é hora da rotina do jantar e dos banhos. Vêem um bocadinho de televisão e, durante a semana, vão às 21h30 para a cama. Mas tenho de deitar-me com eles um bocado senão ainda ficam pelo menos mais uma hora na galhofa lá no quarto." Enquanto dormem, o pai espreita os cadernos: "dou uma vista de olhos, porque acho interessante apreciar a evolução e, se noto que há ali algumas dúvidas, revemos ainda alguns exercícios antes de ir para a escola, à hora do pequeno-almoço". Pelo menos ali, em casa do pai, é assim, já que Jorge e a ex-mulher partilham a guarda dos filhos, que a cada semana vivem alternadamente com um e outro.
A televisão, o uso da internet e da PlayStation têm regras lá em casa ("nunca mais de uma hora cada um", impôs o pai) e o telemóvel acabou por ser uma inevitabilidade do divórcio, para que Pedro pudesse estar diariamente em contacto com ambos os progenitores. A novidade, este ano, será a mesada, cujo valor ainda não está estipulado. Mas Pedro e António não são miúdos exigentes. "Têm noção da realidade e aceitam bem um ‘não', porque lhes é sempre explicada a razão. Até hoje, a única prenda mais extravagante que pediram foi mesmo um cão", revela Jorge.
O mais velho dos irmãos teve de fazer duas entrevista - uma individual e outra com a família - e testes de aptidão a português e a matemática para conquistar a sua vaga nos Salesianos. Depois, o pai encarregou-se de o aliciar para o desafio que começa já amanhã. "Nesta fase é importante mostrar-lhe o espaço e as oportunidades que oferece em termos de novos amigos ou actividades extracurriculares, para que entenda que a escola também é um sítio onde se podem divertir".
Pedro espera, sobretudo, que os professores "sejam bons e que não passem muitos trabalhos de casa". Gosta do colégio: é grande, acolhedor e "até tem uma piscina". E desde que ainda deixe tempo para as brincadeiras, "está tudo bem".
ACTRIZ COMO A MARINA MOTA
Profissão dos pais: ela técnica comercial, ele operador de impressão; Escola: Secundária 2.º e 3.º Ciclo Gil Vicente; Férias: praia da Torre, ao lado de Carcavelos; Dinheiro mensal gasto na educação: 40 euros para alimentação (almoços e lanches), 15 euros para o passe e 10 euros para ATL; O que quer ser quando for grande: actriz como a Marina Mota; Ídolos: ‘Hannah Montana',‘ Puca' e ‘Hello Kitty'; Onde mora: em Santos mas cresceu na Mouraria; Quantas horas de TV: 2 horas por dia; Notas: aluna de satisfaz, bastante razoável; Acesso à net: sim; Telemóvel: sim; Como vai para a escola: autocarro e eléctrico; Rendimentos da família: 1000€ no total.
RETRATO DE UM SALESIANO
Profissão dos pais: ela técnica de marketing, ele director criativo de publicidade; Escola: Oficinas de São José - Salesianos de Lisboa; Férias: Disney de Paris, Algarve e Santa Cruz ; Dinheiro mensal gasto na educação: 455€ (sem contar com as actividades extracurriculares ainda por definir); O que quer ser quando for grande: jornalista, professor ou futebolista; Ídolos: Da Weasel; Onde mora: no Campo Pequeno; Quantas horas de TV: 1 hora por dia; Notas: aluno de 92 por cento (numa escala de 0 a 100); Acesso à net: sim; Telemóvel: sim; Como vai para a escola: carro familiar; Rendimentos da família: 4000€.
PORTUGAL GASTA 5200 EUROS COM CADA ALUNO
Portugal gastou cerca de 5200 euros com cada aluno no sector público em 2007 - as contas colocam-no em 16.º lugar entre 33 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O estudo divulgado esta semana mostra que Portugal está abaixo da média dos países da OCDE nos gastos com a educação - que está nos 6400 euros anuais por aluno; embora tenha registado um aumento de cerca de 1000 euros em relação aos dados anteriores. Este ano, no campo dos manuais escolares, o cenário piorou para os encarregados de educação: os preços dos livros do Ensino Básico - que custam 42, 58 euros - subiram 1, 5%; os do Secundário - que ficam em 246, 55 euros - 0,4%. Os manuais do 2.º Ciclo ficam este ano em 151, 73 euros e os do 3.º no valor de 226, 17. Ainda há poucos pais a comprar pela internet.
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