Quatro gerações à frente do ‘al’ duplicado

A faturar centenas de milhões de euros e presente em 50 países, os Laboratórios Bial continuam um negócio familiar.

24 de janeiro de 2016 às 16:30
Luís Portela, António Portela, Bial Foto: Paulo Duarte
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Antes de a empresa que criou há quase um século ser notícia em todo o Mundo, devido à morte de um participante num ensaio clínico, a primeira prova de empreendedorismo de Álvaro Portela, o fundador dos Laboratórios Bial, foi convencer o dono da farmácia do Padrão a deixá-lo abrir portas às cinco e meia da manhã. O jovem aviava as receitas de quem vinha trabalhar para o Porto a essa hora, entregando os remédios ao final da tarde, antes de os clientes voltarem para casa.

No início do século XX era normal que os farmacêuticos produzissem o que vendiam, misturando os componentes guardados em boiões de porcelana, mas a concorrência só dava conta das encomendas no dia seguinte. Era difícil ter um medicamento no mesmo dia, tal como não era fácil encontrar ascensões tão rápidas quanto a de Álvaro Portela, o filho de merceeiro que, em 1908, com 14 anos, começou como paquete na farmácia do senhor Almeida, e depressa conquistou a confiança do patrão, eternizado no nome da empresa agora liderada por António Portela, membro da quarta geração envolvida no negócio familiar.

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Álvaro voltou a convencer o patrão, desta vez a criar um laboratório no primeiro andar do edifício, num primeiro passo para o laboratório industrial que sonhava criar para dar resposta à procura. O nome escolhido para a parceria era Biol, diminutivo de Biologia, e só quando o registo não foi aceite é que avançou para um plano B. "Quando arrancou com a ideia, em 1919, ainda estava com o patrão, o senhor Almeida; ele era o Álvaro. ‘Bial’ é os dois ‘al’ do senhor Almeida e do Álvaro Portela", contou em 2009 ao ‘Jornal de Negócios’ o então presidente executivo, e agora à frente do conselho de administração, Luís Portela, que dedicou quase toda a vida à empresa fundada pelo avô que mal conheceu.

SUCESSOS E SUCESSORES

O primeiro sucesso da empresa, nascida com todo o capital nas mãos de Álvaro Portela – a demora no arranque, entre 1919 e 1924, levou o ex-patrão, a preferir ficar apenas como financiador – foi o Benzo-Diacol, que tratou da tosse dos portugueses ao longo de décadas, continuando no mercado ainda hoje o xarope Diacol. Os Laboratórios Bial, como as restantes farmacêuticas nacionais, beneficiavam de um quadro legal muito vantajoso. Na prática, qualquer medicamento estrangeiro podia ser copiado e produzido em Portugal, sem autorização, ou compensação, aos produtores do original.

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Dado a extravagâncias, incluindo um Cadillac descapotável de cor amarela, Álvaro Portela casou-se com a filha de um militar açoriano, que não era conservadora ao ponto de se coibir de fumar ou conduzir automóveis. Do casamento nasceu o primeiro herdeiro da Bial, António Emílio Portela, que não chegou a completar o curso de Farmácia, preferindo a companhia das mulheres e a velocidade dos automóveis.

Certo é que António Emílio Portela, que chegara a ser chanceler do consulado da Colômbia no Porto, acabou por se dedicar à empresa da família, e quando o pai morreu, com 61 anos, assumiu a presidência. A partir de 1962 dedicou-se à modernização dos equipamentos e aos primeiros passos na internacionalização, mas faltou-lhe tempo para desenvolver o sonho paterno.

António Emílio morreu em 1972, com apenas 50 anos. Deixou quatro filhos de três mulheres, e a sucessão – após a transição assegurada pelo farmacêutico Duarte Rodrigues, que fora o seu braço-direito – parecia encaminhada para o primogénito. No entanto, ultrapassado o período revolucionário, com a comissão de trabalhadores interventiva e ameaças de nacionalização, em 1978 foi Luís Portela a comprar a posição dos irmãos, com os quais nunca tivera especial relação. O médico do Hospital de São João, que seguira a vocação com a bênção do pai, apesar de se ter disposto a estudar Farmácia, nascera de um amor que António Emílio não levou ao altar, sendo reconhecido e apoiado mais tarde pelo progenitor.

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"Agradava-me mais a ideia de apostar na empresa, comprar a posição dos pequenos acionistas, adquirir a maioria e liderar. Ou então que o meu irmão me comprasse a mim e assumisse a liderança. Ele não quis comprar, acha-va que os tempos eram de grande desconforto político, económico, social. Terminei eu por comprar aos outros acionistas e a ele próprio", recordou Luís Portela, ao ‘Jornal de Negócios’.

Sob a sua liderança, os Laboratórios Bial, tornaram-se a maior empresa farmacêutica de capital português, sobrevivendo às aquisições por multinacionais. Além do sucesso comercial de produtos como o antibiótico Clavamox ou o anti-inflamatório Reumon, tornou-se nas últimas décadas uma empresa dedicada à investigação e desenvolvimento, área para a qual é destinada 20 por cento da faturação.

Em 2007, um ano antes da inauguração dos novos laboratórios em São Mamede do Coronado, na Trofa, foi lançado o Zebinix, um antiepilético que implicou mais de uma década de trabalho, entre a sintetização da molécula, registo de patente, testes e ensaios clínicos.

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Desde 2011 que o presidente executivo é António Portela, filho de Luís Portela, a quem caberá agora lidar com uma morte num ensaio clínico.

 

MORTE PÕE EM CAUSA ENSAIO CLÍNICO

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Foi no domingo passado que um dos participantes num ensaio clínico da Bial morreu em França, após ter sido hospitalizado, tal como outros cinco voluntários que receberam uma molécula que a empresa portuguesa planeia utilizar num futuro medicamento destinado a atuar no sistema nervoso central, com efeito analgésico. A Bial anunciou que a continuação do ensaio vai depender das conclusões de uma investigação em curso.

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