Quem vai dar cartas no futuro
A globalização pode ter tornado o Mundo mais plano mas há milhões de pessoas a fazer escolhas diferentes. Certas minorias serão amanhã maiorias a ter em conta. Os canhotos, os novos pais velhos, as mulheres de letras...
Eles vieram para ficar e, ao que parece, moldar o Mundo aos seus hábitos, necessidades e preferências. São canhotos, pais depois dos 50 anos, mulheres de Letras e pessoas que odeiam apanhar sol. São também ensonados, alunos que desistem da universidade antes de terminar o curso, casais em part-time e homens que só arrancados saem de casa da mãe, onde têm comida, cama e roupa lavada.
A ‘aldeia’ nunca foi tão global e, ao mesmo tempo, tão espartilhada em pequenos grupos que se distinguem das forças maiores. Há-os mais inusitados, mais dramáticos ou engraçados – com sorte, o leitor pode rever-se em algum. Para já, e enquanto o amanhã não chega, certo parece ser que as escolhas individuais entraram definitivamente no prato da balança e estão na dianteira para ganhar o duelo do futuro. É o que diz (e mostra), convicto, Mark J. Penn, conselheiro de Bill Clinton e Tony Blair, no livro ‘Microtendências: as 75 pequenas mudanças que estão a transformar o Mundo em que vivemos’, um retrato de um planeta em constante mutação pela pena de um dos mais importantes estrategos norte-americanos.
'Nas sociedades massificadas de hoje, basta um por cento das pessoas fazer escolhas empenhadas, contrárias à escolha predominante, para criar um movimento que pode mudar o Mundo', esclarece o analista na introdução do já best-seller. Por isso, continua, o poder das escolhas individuais está cada vez mais a influenciar a política, a religião, o entretenimento e até a guerra.
A internet deu uma mãozinha à liberdade de preferências e ajudou a unir interesses semelhantes. 'Agora é virtualmente facílimo encontrar um milhão de pessoas que querem experimentar a sua dieta de toranja ou que não conseguem adormecer os filhos à noite'. Uma união virtual que fez a força e aproximou as outrora formiguinhas que circulavam sem parceiros de gostos, feitios e ambições.
O que é que Mick Jagger tem em comum com Júlio Isidro? E que característica partilham com Charlie Chaplin e Luciano Pavarotti? Todos foram pais depois dos 50 anos. O próprio autor do livro confessa perceber bem deste capítulo porque o filho mais novo nasceu tinha ele 48 anos. 'Ser um Novo Pai Velho (NPV) traz preocupações sobre o que poderá acontecer se eu não estiver por cá quando os meus filhos necessitarem de mim. Mas também significa que as alegrias da vida familiar entram bem pelos 60 anos.' Júlio Isidro não podia estar mais de acordo.
'Claro que não sei se vou ser avô, provavelmente não, mas o que me interessa é que sejam muito felizes', considera o apresentador de televisão, de 63 anos, assumido pai babado da Mariana – que nasceu tinha ele 54 anos – e da Francisca, quatro anos mais nova. E se dissessem a Júlio Isidro que ia ter tempo para jogar bilhar – 'um daqueles dos chineses, mais baratos' – com a filha mais velha, fruto do primeiro casamento, provavelmente ia rir-se. Mas as duas mais novas já tiveram essa oportunidade. 'Tem sido uma experiência notável em termos de ocupação o estar com as minhas filhas. Facilmente largava o resto e ficava só com elas, tem um sabor diferente todos os dias; ainda nesta semana me levantei às sete menos um quarto para as levar à escola', conta, enternecido, garantindo que é hoje um pai 'muito mais descontraído.' O conselheiro de Clinton compartilha da opinião. 'De vez em quando, nas aulas de ballet ou numa reunião da escola, vejo os jovens pais num dos lados da sala, que ainda têm tanto para aprender, e os Novos Pais Velhos, do outro lado, muito mais descontraídos', escreve o autor de ‘Microtendências’, numa alusão à sua experiência pessoal.
Por que razão aumenta o número de pais tardios? E como moldarão eles o Mundo à sua medida? A explicação bate certo com outras tendências – normalmente, não surgem isoladas, fazem sentido em conjunto –, no caso o aumento do número de Novas Mães Velhas e o crescendo de divórcios.
As mulheres atrasam o relógio biológico para não prejudicar as carreiras, o que, somado aos avanços nos tratamentos de fertilidade, tem empurrado a maternidade para os 40 anos. Já em relação ao divórcio, e apoiando-se em números e estatísticas, Penn explica que, se é verdade que metade dos casamentos terminam em separação, também é verdade que os homens voltam a casar mais rapidamente, ajudados pela biologia e pelo acesso facilitado a mulheres mais jovens. São, desta forma, além de NPV, Pais Faz Outra Vez, quando acumulam filhos do primeiro e segundo enlaces. Quem se pergunta em que é que isto pode mudar e moldar o Mundo, note como não é difícil de entender.
'Os NPV precisam de reformar-se mais tarde para pagar as propinas da faculdade e outras despesas da paternidade. Precisam de toda uma série de actividades, menos físicas e mais mentais, que possam fazer em conjunto com os filhos de todas as idades. É provável que sejam grandes consumidores de bebidas energéticas e de livros de apoio aos pais'’, continua Mark, apresentando assim esta microtendência como importante nicho de mercado e, mais que isso, uma nova força política.
Foi a capacidade de Penn para descortinar pequenos mas importantes grupos que ajudou Clinton a ser reeleito ao fim do primeiro mandato, numa altura em que as sondagens mostravam estar por um fio a sua permanência na Casa Branca. O estratego descobriu um grupo vital de eleitores: as mães independentes (‘soccer moms’), que queriam o melhor para os filhos e estavam indecisas em quem votar. Sabendo disso, Clinton criou políticas dirigidas àquele nicho e foi reeleito.
Nichos há muitos... e variados. E parece que um deles vai na direcção da esquerda. Da mão, claro – os canhotos estão a ganhar terreno. Actualmente, uma em cada dez pessoas é esquerdina. 'A percentagem de canhotos pode parecer insignificante mas, na realidade, uma sociedade que tolera pessoas que trabalham com mãos diferentes e encoraja os seus pais a deixarem os filhos desenvolver-se como lhes parece mais natural também está disposta a tolerar muitas outras liberdades', escreve Penn. É esperado que o número de canhotos continue a crescer – um investigador garante que os filhos de mães com mais de 40 anos têm 128% mais hipóteses de serem esquerdinos. Como o número de mães mais velhas quintuplicou nas duas últimas décadas, a probabilidade é alta. E de que precisam eles, os canhotos, afinal?
Flak, dos Rádio Macau, conviveu bem com isso 'desde pequeno'. O guitarrista português ‘agradece’ à professora primária nunca o ter dissuadido de escrever com a mão esquerda. 'Mesmo sendo antes do 25 de Abril – entrei para a escola em 1966 –, nunca me reprimiram ou sequer tentaram que mudasse para a mão direita, sempre tive total liberdade', diz, aproveitando para recordar 'o dia em que tentei fazer uma cópia com a direita, porque os miúdos todos faziam, e a professora me deu ‘Mau’, como que a dizer-me que mais valia eu ser como era'. Ainda hoje só descobriu um senão nesta história de ser canhoto. 'Para comprar guitarras é difícil, têm de ser adaptadas, e nem todas as marcas fazem guitarras ao contrário, por isso torna-se mais complicada a escolha.' Quando fazem, 'fica 10% mais caro. A justificação é que têm de parar a produção e virar as máquinas ao contrário.' Feliz ou infelizmente, não é o único músico em Portugal a ter de ajustar-se a isso. 'O Paulo Furtado – o Tigerman – e o Paulo Gonçalves, dos Heróis do Mar, também são canhotos', revela. Os três músicos não estão sozinhos: Alexandre, o Grande, Napoleão, Picasso e Jimi Hendrix, por exemplo, também o eram.
Inês Pedrosa não pensa que é o sexo que determina a preferência por Ciências ou Letras. Nela, foi uma tendência desde a infância. Segundo Marc J. Penn, as ‘mulheres de Letras’ pertencem a outra minoria, que, garante, futuramente será maioria. O que Inês sabe é que para ela foi 'sempre foi muito claro o caminho por aqui'. Aliás, nunca se interessou a sério pelas coisas mais exactas. 'Sempre preferi ler e escrever', conta a escritora, revelando que o que verdadeiramente a atrai é 'o pensamento a manifestar-se através das palavras', aliado às 'interrogações da vida'. Para o analista americano, o facto de as mulheres 'estarem à beira de dominar as profissões baseadas nas palavras não significa que elas dominem sempre os processos de decisão', lê-se no capítulo que lhes é dedicado. Segundo o autor, 'as mulheres entraram na força de trabalho com menos capital do que os homens' mas não se enganaram no caminho.
Ao grupo dos ‘ensonados’, outra das tendências de amanhã, pertence Marcelo Rebelo de Sousa: o professor já várias vezes disse não dormir mais de quatro horas por noite, herança antiga que vem do tempo da censura. 'Já toda a gente teve inveja de quem diz que quase não dorme. Se não for por mais nada, porque na corrida para ter mais de tudo eles conseguem ter mais tempo', explica Penn. E, parece, a tendência não pára de aumentar. Contudo, em jeito de despedida, Marc J. Penn avisa: 'O futuro raramente se revela conforme o previsto.' Eles estarão cá para ver.
'AMBICIONA SER GRANDE? PENSE PEQUENO' ACONSELHA BEST-SELLER
‘Microtendências: as 75 pequenas mudanças que estão a transformar o Mundo em que vivemos’ mostra o outro lado de um mercado que a internet e a globalização vieram criar. Não o lado da oferta – mas o da procura. Ou não fosse o autor Marc J. Penn, um conhecido analista e estratego norte-americano mestre na arte de interpretar nichos relevantes. O que Penn tem procurado é a dinâmica que move os grupos, a influência e o peso que projectam na sociedade. O conselheiro de Bill Clinton, Tony Blair e Bill Gates interpreta pequenas tendências que podem ajudar a decifrar um futuro que pode ser próximo. O livro foi escrito em co-autoria com E. Kinney Zalesne, que trabalhou com Al Gore nas áreas de política interna e tecnologias da educação.
PARA TODOS OS GOSTOS E TENDÊNCIAS
'Estamos a obter uma imagem mais clara de quem são as pessoas e do que querem', lê-se na introdução do livro de Penn. E as pessoas de quem fala o autor pertencem aos mais variados grupos. Sabe quem são as ‘amazonas fogosas’? As que escolhem trabalhos que exigem bastante força física. E as ‘pumas’? Mulheres que saem com homens mais novos. Desconfia do que é um ‘médico FVM’? A sigla significa ‘Faça Você Mesmo’, uma alusão às pessoas que se automedicam. Mas ainda há os ‘universitários desistentes’, os ‘casais em part-time – casados mas que por algum motivo, como o trabalho, vivem separados a maior parte do tempo –, os ‘mammonis’, homens que vivem em casa dos pais mesmo depois dos 30, e as ‘amas licenciadas’. São 75 as microtendências apontadas.
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