“Quem vê de cima a terra fica diferente”
Treinadora de astronautas da NASA, a engenheira americana veio a Portugal partilhar com alunos a paixão pelo espaço
A que se deve esta visita a Portugal?
Costuma fazer estes encontros com estudantes?
É possível a um estudante português chegar à NASA?
Sente que as pessoas ainda estão entusiasmadas com a exploração espacial?
Estão, muito. E isso acontece não só na América mas em todo o lado. É muito bom ver os miúdos entusiasmados, eles ainda dizem “eu quero ser um astronauta”. Perguntam como se pode chegar à NASA. Apenas um pequeno grupo de pessoas pode ser astronauta, mas muitas podem ser engenheiras e trabalhar com a NASA.
Ser astronauta é também um dos seus sonhos…
É sim. Tive a grande sorte de conseguir uma entrevista com o programa de admissão de astronautas este ano, o que é muito raro. Descobrirei em junho se faço parte da turma final que vai receber formação para novos astronautas. Acho que nunca vou perder esse desejo de ir para o espaço e acho que tem a ver com a exploração. O que me motiva é essa ideia de enfrentar o desconhecido.
Faz parte do grupo de especialistas que treina os astronautas. Qual é o seu papel?
O que nós fazemos é treinar os astronautas, para termos a certeza de que eles têm os conhecimentos técnicos necessários para voar até ao Espaço. A minha área específica é o sistema técnico de comunicações. Ensino os astronautas a operar com as máquinas. Na Estação Espacial Internacional há terminais de áudio que funcionam como se fossem os telemóveis dos astronautas. É preciso ensiná-los a trabalhar com estes aparelhos. Isto é muito importante não só para as tarefas rotineiras a bordo mas, em caso de emergência em que não haja comunicações com o controlo da missão, os astronautas devem ser capazes de operar com os aparelhos sozinhos e sobreviver sem ajuda do exterior. Os astronautas têm de dominar muitas áreas, pelo que tenho muitos colegas a dar formação. Por exemplo as caminhadas espaciais, demoram muito a aprender. Têm de praticar numa piscina a 12 metros de profundidade, onde fazem mergulho. Isto permite-lhes ter uma sensação parecida com o que é flutuar no espaço.
Já experimentou essa sensação?
Sim, já fiz um mergulho e ao início é muito estranho. Mas depois habituamo-nos e é muito divertido. Sentimos que estamos a flutuar.
Esse treino é feito para todos os astronautas que estão na Estação Espacial Internacional?
Tem havido muitos cortes no orçamento da NASA. Isso afeta o funcionamento da agência?
Hoje a exploração espacial resulta dos esforços de um consórcio de nações. Têm-se entendido bem?
Sente que não há nações no espaço?
Não se nota. A única coisa que se nota é a linguagem. Fala-se russo e inglês na Estação Espacial Internacional. Todos os astronautas têm de ser capazes de falar ambas as linguagens. Essa será, provavelmente, a parte mais difícil de trabalharmos juntos.
Também fala russo?
O tema mais excitante da exploração espacial deste tempo é Marte. Gostaria de fazer parte de uma missão tripulada ao Planeta Vermelho?
Acredita que vai assistir à chegada do Homem a Marte?
Acredito que chegaremos a Marte no meu tempo de vida, mas temo que não será no período em que eu esteja qualificada para fazer missões espaciais, por uma questão de idade.
Mas há astronautas mais velhos, há alguma barreira à idade máxima nos astronautas?
O público tem a ideia de um astronauta como um super-homem, ou uma super-mulher. Quais são as limitações físicas que impedem em absoluto alguém de se tornar um astronauta?
Outra área do seu trabalho é avaliar as consequências físicas da permanência dos astronautas no Espaço. O que acontece?
O corpo humano enfrenta uma séride de diferentes mudanças no Espaço. Uma das maiores alterações é no sistema esquelético. Por não haver força sobre os músculos, estes encolhem e atrofiam. Os ossos sofrem uma perturbação na sua capacidade regenerativa, pelo que se perde densidade. Na primeira viagem ao Espaço os astronautas sofrem uma resposta do sistema imunitário e é normal sentirem-se enjoados durante os primeiros dias. Há uma perturbação no ouvido interno que leva a que não distingam se estão para cima ou para baixo. O que faz com que se sintam tontos quando regressam à Terra. Mas os efeitos desaparecem ao fim de alguns dias.
Consegue recuperar-se completamente do que acontece ao corpo?
Neste momento os astronautas ficam seis meses em órbita e recuperam quase a 100 %. As duas áreas em que não há uma recuperação total é na vista – descobriu-se agora que há uma perda de visão - e a perda de densidade nos ossos, que pode ser permanente.
É verdade que os astronautas perdem altura?
Acontece que no Espaço o corpo se estica, por causa da falta de gravidade. Os astronautas ficam mais altos. O regresso pode ser doloroso por que o esqueleto volta a encolher até ao tamanho normal. Pode haver variações de 2 a 5 cm.
As ações do dia a dia, por exemplo a higiene, podem ser treinadas na Terra?Conseguimos treinar. Existe um modelo da casa de banho da Estação Espacial Internacional. O princípio é que se usa a sucção para remover o desperdício. E a urina é reciclada e é a água que se bebe a bordo. Os resíduos sólidos são aspirados para um compartimento que é retirado quando chega uma nave à Estação. Usa-se pasta de dentes normal e os banhos são feitos com esponjas. Não há água corrente.
Pode-se ver televisão?
Agora é possível enviar um filme ou um programa de TV para o espaço. Não há televisão em direto. É frequente serem pedidos filmes ao centro de controlo na Terra.
A Estação Espacial Internacional ainda está em construção?
Foi terminada em 2011, quando se fez a última viagem do sapce shuttle, que era a única nave com capacidade de carga suficiente para levar grande peças. A Estação tem o comprimento de um campo de futebol americano, são 110 metros de uma ponta à outra.
É frequente ouvirmos notícias sobre danos em satélites causadas pelo lixo espacial que está em órbita. Isto é também um risco para a Estação?
Há manobras previstas para evitar os detritos que existem no espaço. O grande problema é que um destes detritos abra um buraco na Estação, porque haveria uma rápida despressurização da cabine. Aconteceria o mesmo do que num avião se se abrisse um buraco em pleno voo. Isso nunca aconteceu, mas monitorizamos a presença de lixo espacial. Sempre que se deteta uma ameaça, o que fazemos é colocarmos os astronautas nos seus veículos de resgate e se for necessário terão de fechar uma escotilha e carregar num botão para saírem da Estação. Eles estão prontos a sair em caso de emergência. Vivem na estação seis astronautas e existem duas cápsulas russas, as Soyuz, que os retiram em caso de emergência.
A Estação está preparada para receber homens e mulheres? É possível ter privacidade?
Os astronautas têm os seus próprios espaços para dormir, que podem ser fechados. Se for preciso mudar de roupa ou algo do género, a prática comum é dizerem que vão estar numa divisão e que querem ficar sozinhos por algum tempo. Por outro lado, todos os astronautas podem fazer chamadas para as suas famílias. Fazem conferências por vídeo. Mas não se fecham portas.
Quem vai ao Espaço regressa uma pessoa diferente?
Os astronautas dizem que quem vê a Terra de cima fica diferente, muda a maneira de ver o mundo, sobretudo depois do primeiro impacto. Pensa-se menos nas nações e nas diferenças entre elas. Não há questões políticas lá em cima, não se pensa em conflitos. Pensa-se mais na raça humana, em vez de se pensar em países. E depois pode-se dizer “eu estive lá”, claro.
Faz parte do programa ‘Mulheres na NASA’. Para que serve esta iniciativa?
É um programa que segue a proclamação presidencial que estabeleceu o Conselho da Casa Branca para as Mulheres e Raparigas. O objetivo é reduzir as diferenças de género que se verifica nos EUA e noutros países, em que as mulheres, apesar de representarem 50 a 55% da população, detêm menos 20% dos cargos técnicos. E isto é ainda pior se falarmos da área da Física, em que há apenas 10% de mulheres, ou nalgumas áreas de engenharia, em que há menos 20% de mulheres. A razão de ser importante esta mudança não é só para colocar mulheres nestes cargos. A questão é a diversidade, porque a chegada de mais mulheres traz uma mudança de perspetiva. Quando enfrentamos estes grandes desafios, como enviar um ser humano para o Espaço profundo, é bom ter soluções inovadoras e por isso é bom ter diversidade de pensamentos.
As mulheres astronautas comportam-se de maneira diferente dos homens?
Sentiu alguma dificuldade por ter tirado o curso de engenharia espacial rodeada de homens?
É uma área sobretudo masculina, mas os homens que me rodearam foram os meus maiores mentores e ainda o são. Os homens desta indústria não são de todo um problema. Eles suportam aqueles de nós que fazem um bom trabalho, independentemente de serem homens ou mulheres. Nem me consigo lembrar da última vez que se falou de questões de género.
Portanto o problema é convencer mais raparigas a estudar ciências?
É uma questão de perspetiva. Queremos fazer com que as jovens percebam que a ciência é uma opção. Elas não têm que seguir cursos de ciência ou tecnologia, mas devem saber que isso é uma opção válida. Nunca devem sentir que não o podem fazer.
Nasceu nos EUA, filha de pais indianos. Como foi o seu trajeto até chegar à NASA?
Não foi fácil, mas pareceu fácil porque os meus pais e as minhas irmãs foram sempre muito encorajadores. A minha irmã mais velha seguiu ciências e trazia para casa as experiências que fazia na escola. Fui exposta à ciência numa idade muito jovem e adorava. Na faculdade completei a formação em engenharia e juntei-me a um programa da NASA dedicado aos estudantes – o que é muito frequente na agência espacial americana. Comecei por fazer um estágio e acabei por ser contratada a tempo inteiro.
Há quando tempo está na NASA?
Incluindo os programas escolares, estou na NASA há 12 anos. A maior parte do pessoal da agência começou com estágios escolares, quando tínhamos 18 ou 19 anos. É muito excitante.
É filha de emigrantes indianos , mas viveu toda a sua vida na América. Os seus pais imaginavam que teriam uma filha na NASA?
Os meus pais tinham um pequeno motel, o que era um negócio muito comum para os imigrantes indianos na América. Isto porque para gerir este negócio não era preciso ter uma educação formal nem dominar a língua inglesa. Quando estive na Índia este ano – numa viagem com os meus pais e as minha irmãs – o meu pai começou a contar que eu tinha ido a uma entrevista para ser astronauta. Mas depois toda a gente dizia que eu já era uma astronauta. Primeiro contestei, mas depois deixei-o aproveitar o momento. Ele trabalhou durante 36 anos para me pôr onde estou, por isso pode dizer o que quiser. Aprendi gujarati [uma das muitas línguas da índia] antes de falar inglês, faz parte da minha cultura. E falo espanhol porque cresci no Texas e ali toda a gente sabe um pouco de espanhol.
As suas duas irmãs também escolheram o caminho das ciências?
A minha irmã mais velha é médica. A mais nova é graduada é biologia molecular, trabalha num projeto muito interessante.
Portanto, jogar Trivial Pursuit em vossa casa deve ser um terror…
Esse é o nosso jogo preferido. Crescemos a jogar Trivial Pursuit. Normalmente ganhava a irmã mais velha, que é a mais competitiva. Discutíamos todo o tipo de assuntos, tive a sorte de ser muito exposta às artes e à música, para além da ciência. Podemos falar de tudo.
É a sua primeira visita a Portugal. O que é que se ouve sobre este país nos Estados Unidos?
Na verdade, não se houve falar muito de Portugal, o que provavelmente é uma coisa boa. Quando se houve falar muito de um país é por más razões - agora só se fala da Coreia do Norte.
Sabia que os portugueses foram os primeiros ‘astronautas’, quando descobriram o nosso planeta a partir do século XV?
Sim, ouvimos falar muito dessas viagens quando estudamos a história da astronomia.
Começam a agora a aparecer os primeiros voos de turismo espacial. Julga que eles se tornarão comuns num futuro próximo, por exemplo com destino à Lua?
Poderemos imaginar o universo à semelhança do que vemos na ‘Guerra das Estrelas’?
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