Ricochete
Recentemente, um grupo de economistas concluiu, contra-intuitivamente, que os filmes que exibem violência reduzem significativamente a ocorrência de crimes. Mas esta árida polémica já foi objecto de reflexões mais ambiciosas. Pelo próprio cinema.
É o caso de ‘Alvos’ (‘Targets’, 1968), um filme – pouco lembrado – de Peter Bogdanovich, inspirado em Charles Whitman, que perpetrou aquele que é considerado o primeiro tiroteio em escolas/massa. Comprei o DVD, perdido nos saldos dum clube de vídeo. Ao preço de um bilhete de segunda-feira.
As relações causa-efeito não participam. O realizador ignora as razões de um rapaz branco, de classe média, casado e empregado. Nada contextualiza o seu acto. Não há videoclips ou jogos de computador sangrentos, gótico, tatuagens, ‘Mein Kampf’ ou drama social. Há um homem e a sua espingarda.
E armas há muitas. Ao então jovem Bogdanovich, Roger Corman concedeu a oportunidade de realizar o seu primeiro filme. Desde que saísse baratinho. Se fossem inseridos 18 minutos de restos de ‘O Terror’ (1963), com Boris Karloff. E se o seu papel exigisse apenas dois dias de rodagem.
A solução é arguta. Bogdanovich faz de si próprio e Karloff é Orlock, um actor de filmes de terror que decide terminar a carreira. A semelhança com a realidade não é mera coincidência. ‘Alvos’ é um documentário disfarçado de ficção. Que desfaz mitos em torno destes fenómenos. Não se insinuam teorias explicativas e nada é súbito. Revela-se a banalidade do quotidiano dos personagens e a premeditação do crime.
Karloff/Orloff assiste ao seu primeiro filme na TV (‘Criminal Code’, de H. Hawks) e ao seu último trabalho num drive-in. É aí que o atirador descarrega, sobre os carros, através de um buraco rasgado na própria tela. E aqui está a violência no cinema: alguém que dispara não no ecrã, mas através dele.
Quando os dois se encontram, o atirador paralisa entre o fantasma projectado na tela e o actor de carne e osso. Já Orloff, tão habituado a inspirar pavor, depara-se com o susto da vida real. Se o primeiro representa o velho terror fantástico – dráculas e vampiros – o segundo simboliza o horror na porta ao lado, o terrorista entre nós. Que nenhum estudo decifra. Nem mesmo à conta do poder do cinema, como Bogdanovich bem demonstrou.
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