SE NÃO FOSSE CANTORA, SERIA OBSTETRA
A ‘mãe solteira’ anda a cantar há 30 anos. Longe vão as Cocktail e a canção da Abelha Maia. A nova Ágata é mística, tem poder de cura e estaminé de reiki aberto em Chaves. Mas continua a subir ao palco e a gravar CD. O último é duplo e chama-se ‘O Meu Pequeno Fado’. Já está à venda.
Eram 13h30. Ágata tinha acabado de participar no programa da manhã de um dos canais de televisão. Anda num corrupio por ocasião dos seus 30 anos de carreira. Chega ao Bar Pavilhão Chinês, em Lisboa, desconfiada com a entrevista – não vá fazer má figura. “Às vezes acontece.” Depois lembra que há mais de uma década não põe ali os pés, afinal anda arredada da capital. A alfacinha mora agora em Chaves. A gente do Norte tem mais a ver com a espontaneidade da artista, que integrou as Cocktail quando ainda mantinha o nome de baptismo, Fernanda de Sousa, e tinha o cabelo castanho. E onde quer que vá cantar, as crianças trauteiam ‘Mãe Solteira’, as mulheres cobiçam-lhe a pele clara e os homens a produção em palco. Aos 44 anos tornou-se também empresária, mística e curandeira – até já deu ouvidos a quem ficou surdo.
Entre a Fernanda de Sousa, a voz da Abelha Maia, e a Ágata de hoje, o que é que mudou?
O tempo aperfeiçoa-nos e deixa-nos mais conscientes do que fizemos e daquilo que ainda temos por fazer. Resta-nos pedir saúde e paz de espírito para podermos concretizar os nossos desejos.
Mas lembra-se das gravações da Abelha Maia?
Sim. Ainda hoje há cassetes VHS e livros com a série. Eu cantei o tema principal do Tozé Brito.
E dobrava também a voz?
Não, a voz era dos actores com imensa pena minha. Eu só era a voz da Abelha Maia quando ela cantava.
Ainda consegue trautear essa música?
Sim. ‘Lá num país cheio de cor / Nasceu um dia uma abelha / tão conhecida pela amizade / pela alegria e pela bondade / Todos lhe chamam a pequena abelha Maia’.
Nessa altura, a Ágata ainda mantinha o seu nome de baptismo, Fernanda de Sousa?
Sim, odeio Fernanda. Custa-me pronunciá-lo. É uma sensação tão estranha. Quando oiço o meu nome de baptismo sinto um incómodo.
Mas em questões burocráticas, lá tem de ser a Fernanda de Sousa…
Lá tem de ser, mas chateia-me muito. Nos meus cheques, porém, posso assinar Ágata. Quando me chamam pelo meu nome de baptismo, não respondo. São, geralmente, pessoas que não fazem parte do meu leque de amizades.
Então os seus pais também lhe chamam Ágata?
O meu pai, que já morreu, nunca me chamou assim. A minha mãe desde sempre. Quando mudei de nome não achou muita piada, mas depois acostumou-se. É que a certa altura da minha vida descobri que era uma pedra semi-preciosa e as ágatas são normalmente muito bonitas por dentro e horrorosas por fora. Achei que o interior das pessoas é o melhor que podemos desfrutar quando conhecemos alguém, embora o aspecto conte também muito. O meu nome aconteceu dentro da minha cabeça. Foi o meu anjo interior que costuma aparecer-me.
O seu anjo – ou como lhe queira chamar – disse-lhe: ‘Vais passar a chamar-te Ágata.’?
Pode ser difícil de acreditar mas esse nome soou dentro da minha cabeça. Como, não sei.
Quando ouviu esse nome já tinha alguns anos de música…
A minha carreira começou desde que gravei o meu primeiro disco, com 14 anos. Com 20 gravei com o Art Sullivan. Fui também ao festival e andei com as Cocktail e fiz espectáculos de Verão com as Doce. Mas de repente achei que o meu percurso não era nada daquilo.
Não se identificava com a ‘pop’ das Cocktail?
Não era isso. O meu objectivo era ser conhecida por aquilo que sou. Acho que essa experiência foi muito boa mas não era aquilo que queria. E acho que tinha todas as condições para prosseguir.
E prosseguiu, escolhendo o nome de Ágata por ser uma pedra semi-preciosa…
Só soube que era semi-preciosa depois. Na altura nem sequer pensei na Agatha Christie – de quem até li alguns romances – nem na pedra semi-preciosa.
A Ágata preocupa-se muito com a imagem…
Eu interesso-me mais pelo meu interior do que pelo meu exterior. Não sou uma mulher que faz parar o trânsito mas também não sou uma mulher que tenha de enfiar uma coisa pela cabeça para não terem de olhar para mim.
Tem consciência que nesses concertos pelo país fora, há muitos homens que olham para si…
Sim e muitas crianças. Adoram os meus olhos e a minha pele. Mesmo as mulheres adoram fazer-me festas. Toda a gente diz que tenho uns olhos fantásticos. Dizem que tenho uma pele muito boa e perguntam-me se já fiz alguma coisa. Ainda ontem foi a Lili Caneças; hoje foi o José Figueiras. Perguntaram-me o que faço para ter uma pele assim. O segredo está nas pirâmides.
Eu gosto muito de pedras. Acredito que o poder das pedras ajuda a andarmos mais confiantes. Tenho as minhas pedras todas comigo e normalmente ponho uma pirâmide dentro de um jarro de água e bebo. Tenho uma pirâmide gigante no meu lugar de meditação e ponho-me debaixo dela para relaxar.
É, portanto, praticante de Reiki…
Sim e tenho o terceiro nível. A minha mãe é uma pessoa muito especial e tentou passar-me, muito naturalmente, o dom que tinham as suas mãos, que me limpava de qualquer energia negativa. Um dia, uma amiga minha estava com um problema nos ouvidos. Não ouvia e andava a tomar antibiótico. Chegou a minha casa surda e eu, cheia de confiança, disse-lhe: ‘Senta-te aí que já te ponho a ouvir bem.’ Ela sentou-se e eu fiz com a mão uma pirâmide no topo do chacra coronário, sem saber, e depois deixei o meu espírito e as ideias irem até onde gosto de ir. Quando tirei as mãos dos seus ouvidos, ela ouvia. Depois repeti essas coisas a mais pessoas e acabei de verificar que as mãos tinham muita energia.
Qualquer pessoa pode fazer isso. Tem é de ser uma pessoa liberta e ter boas energias e boas intenções. Comecei a pensar que me estava a prejudicar; tinha de me limpar do que estava a tirar aos outros e fui tirar um curso. O meu mestre é canadiano. Em Chaves tenho uma loja, o Portal de Ágata, no Aregos. Em Vila Real, há uma ervanária, em frente ao hotel, onde costumo atender pessoas e aconselhá-las com pedras. E é engraçado porque quando lhes dou o Reiki, não falha. É uma coisa impressionante.
É uma pessoa com fé?
Muita.
Teve uma educação católica, os seus pais são muito crentes…
O Reiki não tem uma conotação religiosa, é uma terapia japonesa. Basta tirar um curso, qualquer um pode praticar a terapia quando quer dar amor.
Mas a Ágata teve uma educação católica…
Sou baptizada, fiz a primeira comunhão e a profissão de fé vestidinha de freira mas não guardo nenhuma foto dessa altura. A minha mãe não me pôde acompanhar nesse dia e eu fui só com umas amigas.
Mas no início da sua carreira, a sua mãe acompanhava-a sempre.
Era muito menina, não podia andar assim sozinha. Não quer dizer que ela me fosse guardar.
O que se lembra desses tempos?
Lembro-me dos grandes espectáculos, dos grandes cantores e do público ser mais atento e procurar mais a música portuguesa. Lembro-me do Festival da Canção ter outro sabor; e das rádios e das televisões se ocuparem mais da música portuguesa. Hoje em dia, a música portuguesa não é tocada nos estabelecimentos como música ambiente. É triste realmente, nós vamos a Espanha e nas lojas só se ouve música espanhola.
Acha então que há preconceito em relação a si e a outros cantores de música portuguesa?
Canto para um determinado público que sei que gosta de mim. É um público que sabe escutar de tudo: a minha música, a música estrangeira e até a clássica. Talvez seja por cantar canções de amor e transmitir nelas uma mensagem diferente.
As suas canções puxam sempre pelos dramas do coração feminino…
Temos que defender o nosso mundo. Os homens pensam que têm o mundo na mão só porque vestem calças, mas hoje em dia também as vestimos e temos os mesmos poderes. Só não gostamos de carregar com sacos mas é para isso que servem os músculos masculinos.
Mas as letras são sempre sobre mulheres desgraçadas…
Não. Tenho canções onde as mulheres mandam os homens à vida. Quando contamos uma história, temos de contar uma história de amor e uma história de amor é sempre composta por duas pessoas.
E há sempre alguém a sofrer…
Nós, as mulheres sofremos muito mais do que os homens. Somos mais sensíveis…
(O telemóvel de Ágata toca. É um amigo como dirá no final da ligação.
O toque não é nenhum tema de ‘Perfume de Mulher’, o álbum que lhe deu fama e fortuna. É James Brown, o cantor norte-americano, a cantar: ‘I feel good’)
… por isso, as minhas canções são sempre muito sofridas. Se calhar, se não fosse esse o tema, não teria tido tanto sucesso. Amores perdidos, amores traídos. Também tenho outras canções sobre outras coisas.
Os temas mais emblemáticos são os mais sofridos…
Provavelmente, porque também já passei por isso. Sou uma mulher que vive intensamente o amor. Como diz uma canção minha, não sou meia-lua, sou lua cheia. Para mim, ou é tudo ou nada e quando me entrego é por inteiro. Neste momento da minha vida, sou consciente dos meus passos e sei perfeitamente até onde posso ir.
Nunca se arrependeu de nada?
Não, de nada. Nem das loucuras que todos cometemos na vida, que são sempre muito úteis porque nos mostram outros caminhos. Errar, mostra-nos o que não devemos voltar a fazer. E isso é sempre muito bom.
Então é como as mulheres das suas canções?
Sou muito nostálgica e muitas vezes procuro estar sozinha. Faço meditação e fico bem porque outros valores se levantam, a natureza dá-nos imensa força e faz-nos olhar a vida doutra maneira. A natureza é uma coisa que mexe muito comigo; isso é que me levou a pintar.
Sim, a natureza. Gosto muito de pintar o céu e o mar. As paisagens que procuro são sempre muito nostálgicas, muito equilibradas. Talvez tenha a ver comigo, não sei. Ah, e são também sempre muito mortiças; essa tristeza também existe nas coisas que procuro.
E já pintou o seu filho, Francisco?
Não consigo. Besuntei-lhe só as mãos e os pés e passei-os sobre a tela. E assim já fizemos alguns trabalhos juntos. Ele é uma criança que me preenche e até esqueço que já fiz 40 anos. Se não tivesse de passar pela maternidade, hoje tinha mais dois filhos.
Tem medo do parto?
Não é o parto em si. São os últimos cinco meses de gravidez, em que temos de andar com um barrigão dos diabos.
A Ágata quis que os seus fãs vissem o parto do Francisco na televisão…
Gostaria de ter podido mostrar um momento poético. Só isso, não queria estar ali de perna aberta. Acho que a coisa mais maravilhosa é o nascimento de uma criança. Tinha na ideia mostrar aos meus fãs uma parte lindíssima, mas fui mal interpretada. Se o meu marido, o meu filho e os meus pais concordavam, é porque sabiam que não pretendia chocar ninguém.
Como é que o seu marido lida com a sua fama?
Confia em mim.
Mas não é ciumento?
Muito. É muito ciumento. Ele diz que não, mas sinto que sim. Acho que toda a gente que ama tem ciúmes. Eu também tenho. Sou capaz de deitar uma montanha abaixo, quando tenho razão ou me mentem. Detesto mentiras.
Além do Francisco tem outro filho, o Marco…
É o meu confidente, o meu fã número um, o meu maior crítico, o meu irmão, o meu amigo e o amor da minha vida. Ele, para mim, é tudo.
E trabalha consigo.
O Marco é director da Ágata Produções e está a estudar à noite. É um miúdo muito inteligente, extremamente simpático e um excelente relações públicas. Foi ele que organizou a minha última digressão no Canadá.
E aconselha a mãe?
Sim. Nós temos a MCD Records que é a nossa nova editora que está pronta a lançar novos talentos. O Marco dá-me muitas dicas. Está sempre a dizer-me: “Olha que são 30 anos, não é qualquer coisa, tens de fazer um grande espectáculo, ter uma grande banda.”
E isso vai acontecer? Um grande espectáculo em Lisboa ou no Porto?
Não faço planos desses, mas gostava de fazer um espectáculo no Porto. Já em Lisboa não gostaria porque o público é mais distante, mais frio, não acarinha os artistas portugueses.
Mas a Ágata é lisboeta.
Sou, mas vivo em Chaves e adoro o Norte. Quando morrer quero as minhas cinzas no rio Douro.
Pensa muito na morte?
É o que há de mais certo. Temos de programar as coisas, não podemos esperar que depois de partir nos ergam uma estátua. Gostava era que me fizessem agora algumas coisas, quando estou cá para ver. Estou à espera de convites.
(E ouve-se novamente a voz de James Brown, o telemóvel de Ágata está a tocar)
O mal dos portugueses é só prestarem homenagem aos artistas depois de mortos?
É verdade. Depois vão dizer: ‘era muito boa, muito bonita, cantava muito bem.’
A Ágata está com 44 anos. Preocupa-se com o envelhecimento?
Todos os momentos da vida são bonitos. Não sou daquelas que têm sempre 20 anos. Tenho aquilo que tenho, não os posso esconder. Não me importo com isso.
Está agora a fazer os 30 anos de carreira artística e é também empresária. O que é que gostava ainda mais de fazer?
Gostaria de fazer um franchising da minha loja, o Portal de Ágata, e criar uma marca de roupa com o meu nome. Estou à espera que alguém me possa ajudar.
Ágata seria uma marca de sucesso?
Não tenho qualquer dúvida.
Porque é que o seu novo CD se chama ‘O Meu Pequeno Fado’?
Porque o fado é destino. Tudo o que a gente faz nesta vida não é assim tão grande como isso. Quem diz que tem uma grande vida, não sabe o que diz porque de facto falta sempre qualquer coisa. Por exemplo, se não fosse cantora, seria obstetra porque o nascimento é a coisa mais linda que existe. Eu devia ter tido mais filhos.
(‘I feel good’ ouve-se pela última vez. Ágata tira as últimas fotos. Antes de partir prometerá à jornalista – que também se chama Fernanda – arranjar-lhe nome alternativo.)
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