"Se pudesse era só pintor"
Entrevista com o irmão catita que quer ser Presidente da República.
Manuel João Vieira vai candidatar-se a Presidente da República em 2016. Fomos conhecer o homem polifacetado – músico, pintor, professor de artes – que também quer fazer política. E promete, se for eleito, fazer um casting para que os portugueses escolham a primeira-dama. ("Mas a amante quem escolhe sou eu!", ressalva).
Onde passou infância e adolescência?
Sempre no campo. Ou em Campo de Ourique ou em Trás-os-Montes ou numa vila chamada Santiago do Cacém. E a praia era a costa de Santo André.
Foi uma criança mimada?
No aspeto da variedade de localizações, sim.
Licenciou-se em Belas Artes. Em criança queria ser pintor como o seu pai [o pintor João Vieira]?
Quando era miúdo, queria fazer banda desenhada, mas o meu pai convenceu-me que a pintura era uma arte mais elevada. Mas só depois das Belas Artes é que passei a pintar, curiosamente.
E a música? Como apareceu no seu percurso?
Aprendi a tocar guitarra nas traseiras da minha casa, em Campo de Ourique. Havia uns miúdos que tocavam Jimi Hendrix e ensinaram-me alguns acordes. Com 15 anos, fui para a Academia de Amadores de Música.
Que instrumentos toca?
Era uma criança rebelde?
Não fui rebelde. Nem bem-comportado. Andava com a cabeça na lua, provavelmente já a meditar sobre o País. Em como Portugal poderia ser mais grande. Melhor.
Já então estava desiludido?
Até ao 25 de Abril, vivi com a ideia de que Portugal tinha um enorme império colonial e que tinha antepassados valentes que deram mundos ao mundo. Mas no mesmo discurso também havia o Portugal pequenino, das aldeiazinhas… Ficava confuso.
E depois do 25 de Abril?
Veio o discurso revolucionário. Dizia-se que Portugal ia cumprir o socialismo, seríamos todos irmãos, viveríamos no paraíso. A partir dos anos 80, na altura em que comecei a dedicar-me mais à música, deixou de haver ilusões. Este tornou-se apenas o país onde era preciso plantar eucaliptos para crescerem depressa e fazer construção civil de má qualidade.
E hoje? Onde estamos?
Acho que os portugueses têm sido deliberadamente infantilizados pelos sucessivos governos. É uma estratégia do poder para que as pessoas continuem a achar que os de cima é que mandam e nós nada podemos.
Em 1987, com 25 anos, fundou os Ena Pá 2000. O que pretendia trazer à música?
Os Ena Pá tiveram, desde o início, uma postura crítica face à mentalidade que se vivia na época. As letras da música pop-rock portuguesa eram demasiado imbecis. Tão estúpidas que decidimos enveredar pelo absurdo e pelo obsceno. O obsceno é um grande filão da literatura galaico-portuguesa. Vamos lá ver. Um rapaz quer ir para a cama com uma rapariga e põe-se a dizer coisas muito pirosas quando na qualidade quer dizer: quero ir para a cama contigo! Foi para reagir à hipocrisia açucarada que dominava a música ligeira que lançámos o grupo.
Mas não ficou totalmente satisfeito, porque quatro anos depois fundava os Irmãos Catita, que têm um novo disco [‘Portugal dos Pequenitos’]...
Os Ena Pá 2000 eram um grupo de rock. Os Irmãos Catita estão mais dentro da corrente do festival de San Remo, dos ritmos latinos e das coisas do anos 60. É uma diferença de estilo, não das letras.
Outro projeto são os Corações de Atum. Identifica-se com Fernando Pessoa, que criava os heterónimos para responder a instintos poéticos diferentes?
Todos partilhamos uma coisa com Pessoa: somos pessoas. Não uma única pessoa. Temos uma máscara para usar habitualmente, mas na realidade temos tendências contraditórias dentro de nós. Às vezes, abordar disciplinas diferentes exige que sejamos pessoas diferentes. Eu tenho muita tendência à dispersão. O que até me prejudica.
Se pudesse concentrar-se num só projeto, o que faria?
Gostaria de me poder dedicar só à pintura e deixar o resto.
Voltando um pouco atrás, aos heterónimos, há também o Orgasmo Carlos, o Lello Minsk...
O Orgasmo Carlos é uma marca. Há um ateliê de artistas plásticos que suprimem a sua identidade para assinar sob esse nome. O Lello Minsk e o Elvis Ramalho são nomes que foram utilizados para liderar ou participar em bandas de música.
E há, finalmente, o candidato Vieira [ver caixa]...
É o nome que utilizo para as minhas aspirações políticas.
Quem é o Manuel João Vieira por trás de todas as máscaras?
Gosto de ser claro nisto: eu sou sempre sincero. Admito que é possível usar várias máscaras e ser sempre autêntico, ser sempre eu próprio. Para mim, o que é importante é aquilo que posso comunicar com os outros.
O Manuel João também pinta. Todos os dias?
Infelizmente não. Hoje estive a auxiliar na obra, ao pé do rio. Estive a ajudar o mestre de obras a levar para o tecto uns tabuleiros de ferro que vão ser os respiradouros do meu novo espaço de cabaret.
O novo Maxime, que vai abrir em...
Outubro. Em princípio. Chamar-se-á Maxime sur Mer e é frente ao rio, no Cais do Sodré. Já deveria ter aberto.
Vende muitos quadros?
Poucos. Neste momento há uma crise. Portugal não presta muita atenção à cultura, e menos ainda às artes plásticas. Com exceções, claro. Pintores do regime sempre houve e continua a haver. Tenho uma exposição na Guarda, em setembro.
Para vender?
Eu gosto sempre de vender uma pintura, mas não o espero. Até 2005-2007, o mercado ainda ia funcionando, mas neste momento… Por isso é que há tantos artistas que precisam de apoios institucionais. Mas eu não consigo entrar nesses circuitos. É preciso um tipo de mentalidade que não é a minha. É preciso ter uma cabeça virada para a vida social, para os relacionamentos sociais certos.
Qual é o valor mais elevado que cobrou por uma obra?
Seria de mau gosto revelar. A certa altura, vendi uma pintura a uma instituição privada por um valor relativamente simpático. Um centésimo abaixo dos valores que pedem os pintores do regime.
A que coleção, pública ou privada, gostaria de ver o seu nome associado?
Tenho quadros em várias coleções, mas o que gostaria mesmo é de estar representado no Museu Nacional de Arte Antiga. Afinal de contas, já tenho 52 anos. Ou então no Museu de Arqueologia.
A quem ofereceria um quadro assinado por si?
Gostaria de oferecer um quadro meu a cada português. Ou uma reprodução, ou uma serigrafia. Aliás, tenho uma escultura chamada Salazau, que é o cão fiel que deveria estar em todas as casas.
Dá aulas na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha.
Dá aulas na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha.
As duas coisas. Acho que se deve ser exigente para que os alunos trabalhem ao máximo. Mas não se deve ser obtuso. É preciso perceber as inclinações de cada um. O mais importante é conseguir que os alunos tenham entusiasmo. Sem entusiasmo não há nada. Por isso é que é uma pena que os velhos mitos se tenham desmoronado. Mantinham um certo moral na população. As pessoas hoje não têm moral. Nem sequer fictícia. Simplesmente já não acreditam em nada.
É possível ensinar alguém a ser artista?
Podem ensinar-se as técnicas. É possível ensinar a desenhar, por exemplo. Mas a arte não é só técnica. É também a habilidade de penetrar nas profundezas do imaginário comum. Há qualquer coisa na arte que é inconsciente. Ser artista é sobretudo procurar alguma coisa.
É assim que se define? É alguém que procura algo?
Um artista procura uma visão que sintetize determinado universo. Na política é perigoso. O Hitler tentou fazê-lo. Aliás, Hitler está vivo: é velho, barbeiro na Damaia, diz que nunca foi nazi e escreveu um livro a dizer que nem tudo o que fez foi bem. Todos nós temos de ser artistas. A arte tem de se misturar na vida.
"SE FOR PRESIDENTE QUERO TER MAIS PODERES"
Porque volta a querer ser o Presidente dos portugueses?
Disse que só desistia se fosse eleito. Como não sou eleito, continuo a cumprir a minha palavra. Acho que algo está errado com este país. Estamos a perder metade da população, que está a emigrar. Quando um bebé nasce, já deve 21 mil euros. Temos de perceber quem nos está a fazer isto. Os portugueses têm de ser inteligentes neste momento.
Se fosse eleito, demitiria o atual Governo Passos/Portas?
É preciso mais do que isso. São os fundamentos da democracia que têm de ser questionados. Acho que devemos procurar não a democracia mas sim a verdade. Concordo com o Alberto João Jardim, que disse que era preciso alterar a Constituição e atribuir mais poderes ao Presidente da República. Não posso deixar de concordar com o meu colega. Acho que o Presidente deve ter mais poderes – se for eu. Se for outro, discordo.
O candidato Vieira é contra a democracia?
A democracia é como as cebolas. Tem várias cascas. O que acontece é que o povo anda a votar em dois partidos que parecem o mesmo. A democracia é a desresponsabilização de toda a gente. Quando tínhamos o Salazar, sabíamos, ou pensávamos, que a culpa era dele. Hoje em dia, não sabemos de quem é a culpa. E a complexidade do sistema político e económico é tão grande que as pessoas preferem discutir futebol. Que é bem mais simples. Eu compreendo. Embora eu seja mais hóquei em patins...
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