Secretas russas não brincam em serviço
Os serviços secretos russos nunca brincaram em serviço. A morte de Alexander Litvinenko veio agora avivar suspeitas. Já em 1978, Gerogi Markov, jornalista búlgaro na BBC, morreu após um estranho ter-lhe picado a coxa com um chapéu de chuva. Parece ficção do 007 mas não é.
No que diz respeito a bizarros assassinatos, a espionagem russa é um ‘tutti fruti’ de métodos. Longe vai a morte nada misteriosa de Leon Trotsky – rival do então líder soviético Estaline – que ficou com o crânio esmagado por um picador de gelo.
Ao longo dos tempos, eliminar com perspicácia e sem deixar trilhas tem sido o principal fito. O menu parece brincadeira. Não é. Guarda-chuva com a ponta aguçada de veneno, sopas, carne, peixe, bebidas alcoólicas, ou nem por isso; chá preto, e até a inofensiva tília, tudo pode ter denominador comum: tóxicos que, só em casos raros, não matam. Que o diga o presidente da Ucrânia, Viktor Yushchenko. Em plena campanha eleitoral de 2004, jantou com chefes do aparelho de segurança e ficou com o rosto desfigurado devido a uma intoxicação por dioxina.
As línguas falam: Alexander Litvinenko, 43 anos, um espião russo desertor que vivia em Inglaterra desde 2001, e que acabara de adquirir a nacionalidade de Sua Majestade, terá sido morto por manobra do FSB (serviços de segurança que substituíram o KGB) e pelo pulso encefálico do presidente Vladimir Putin.
A morte cercou o antigo tenente-coronel do KGB (agência soviética de espionagem) no passado dia 1 de Novembro. As hipóteses em que irrompeu o envenenamento, ao que indica, são duas. Enquanto almoçava num restaurante japonês em Londres com Mário Scaramella, um italiano especialista em Europa de Leste, que integrou a comissão de inquérito parlamentar que a Itália fez ao dossier Mitrokhin, envolvendo redes de espionagem do KGB no Ocidente. Depois da refeição – sushi servido em buffet, água e uma sopa trazida por um dos empregados, Litvinenko reuniu no hotel Millenium com dois russos – Andrei Lugovoi e Dimitri Kovron, um amigo de infância.
Bastaram poucas horas para que o mal-estar chegasse. O ex-operacional acabou por ser internado no hospital de Barnett. Duas semanas depois, a Scotland Yard ficou a par do seu estado de saúde e o exilado espião foi transferido para o London University College Hospital.
Enquanto Litvinenko agoniza numa cama hospitalar, Scaramella admite em Roma que o nome do agente demissionário constava na lista negríssima a abater no Reino Unido, e confirma ter dado informações sobre o assassinato de Anna Politkovskaya – a jornalista que não poupava críticas ao Kremlin – que poderá ter sido encomendado por um grupo de empresários de São Petersburgo e efectuado por operacionais do KGB.
48 horas antes do Polónio 210 – um metalóide altamente radioactivo – eureka de Pierre e Marie Curie em 1898, usado pela indústria espacial, ter morto Litvinenko, o ex-esculca deixa escrita uma carta responsabilizando Vladimir Putin pela sua morte.
VLADIMIR PUTIN
Apesar do desconforto em responder a jornalistas e da cara de pouquíssimos amigos patenteada na cimeira União Europeia-Rússia, em Helsínquia, Putin considerou a acusação “uma provocação política”. Em carro carroça, apareceram os generais de segurança da Rússia a negar que os seus rapazes estejam envolvidos na controvérsia. Alexei Mukhin, director-geral do Centro de Informação Política de Moscovo, asseverou que o Kremlin “já não tem motivos” para assassinar ex-espiões e críticos do país que se encontrem no estrangeiro. Adianta que desde 1959, quando o nacionalista ucraniano Stepan Bandera foi encontrado à porta da sua casa a amortecer num charco de sangue, o serviço de Inteligência Soviético e o sucessor do Primeiro Directório da KGB, o Serviço de Inteligência Externa, “não realizam trabalhos para liquidar fisicamente pessoas desagradáveis à Rússia”.
Opinião contrária tem Mark Galeotti, perito nos serviços russos de segurança, da Universidade de Keele, da Grã-Bretanha: “O KGB matava no exterior, e sua gente ainda habita a cúpula da actual rede de espionagem da Rússia”.
Tony Blair não passou o recado a ninguém; disse-o em público: “Não existe nenhuma barreira política ou diplomática” à investigação da Scotland Yard sobre as circunstâncias em que morreu Alexender Litvinenko. Sinais bem fortes de que a Inglaterra não quer deixar em branco, nem em bege, este caso. Não poderá dizer o mesmo sobre o crime ocorrido há vinte e oito anos, a 7 de Setembro, nas barbas da terra da rainha. A vítima chamava-se Gerogi Markov, era um dissidente búlgaro, jornalista da BBC em Londres, foi atingido na coxa pela ponta de um chapéu de chuva em plena Ponte Waterloo. As línguas já nesse tempo falavam que o homicídio teve mão e cérebro do serviço secreto da Bulgária – que na altura era um satélite da União Soviética. Após três dias, Markov – que constava na lista dos serviços por ‘Wanderer’, morreu devido a um dardo empeçonhado que fora injectado pelo guarda-chuva.
António Cartaxo, profissional ímpar da rádio, viveu em Londres de 1962 até 1977, e integrou a secção portuguesa na BBC. A memória falha quando lhe perguntamos: conhecia o jornalista búlgaro suspeito de ter sido assassinado? “Não”. Ni ideia. Sabe de quem falamos e da evidência de assassinato, mas “não me lembro dele”. Só sabe que a repartição búlgara, composta por 12 elementos, tinha a mesma carga dos países de Leste: política. Jornalistas da Checoslováquia, Roménia, Bulgária, União Soviética “eram quase todos dissidentes”.
No princípio dos anos 80, reviu Vladimir, um ex-colega búlgaro e “entre outras coisas, falámos do caso”. Sem detalhes. Há pouco tempo, a memória teve ligeiras melhoras, quando a notícia reapareceu num jornal inglês.
Alguns nomes recaem sobre o estrado desta história. Como Francesco Gullino, um dinamarquês de origem italiana, que em 1970 foi preso na fronteira com a Bulgária, por posse de droga e troca de informação, e mais tarde, recrutado pelos serviços secretos sob o código ‘Agent Piccadilly’. Entre 1977 e 1978 viajou três vezes de Itália para Londres. Saiu da capital inglesa no dia a seguir ao incidente que vitimou Markov.
A 5 de Fevereiro de 1993, é preso por agentes ingleses e dinamarqueses para averiguações. Admite ter feito espionagem, mas negou qualquer envolvimento na morte de Markov.
Já em 1992, o general Vladimir Todorov, chefe da secreta búlgara tinha levado a breve sentença de 16 meses de prisão por ter destruído 10 dossiers relativos ao assassinato. Stoyan Savov preferiu o suicídio a responder em tribunal.
Quando o regime de Todor Zhivkon derruiu em 1989, foi descoberto no Ministério do Interior um armazém apinhado de guarda-chuvas que serviam para tudo menos para proteger o corpo da carga das nuvens.
UM QUÍMICO COM EFEITO DE BOMBA
Chama-se Polónio-210 e trata-se de um elemento químico pouco conhecido fora do contexto da energia nuclear. Presente na natureza, a substância radioactiva responsável pela morte do ex-espião russo Alexander Litvinenko, utilizada em centrais nucleares e centros de investigação, foi extraída pela primeira vez do urânio em 1898, por Pierre e Marie Curie. Muito difícil de manejar, é empregue, em quantidades reduzidas, em cigarros e técnicas de fotografia. Este óxido, com o aspecto de um pó vermelho, imperceptível ao olho humano, tem um efeito mortal a partir do meio miligrama devido à radiação emitida, 50 vezes superior à do urânio. A sua ingestão ou inalação excessiva provoca uma morte lenta e dolorosa, com um impacto individual semelhante ao de Hiroshima.
O pânico lançado pelo Polónio-210 continua a fazer-se sentir. Em Londres, foram detectados vestígios de radioactividade em vários lugares e em aviões da British Airways. A companhia aérea tenta localizar os cerca de 33 mil passageiros que seguiam nos 221 voos afectados, para entrarem em contacto com as autoridades sanitárias. Barcelona, Madrid, Moscovo, Dusseldorf, Atenas, Lanarca, Estocolmo, Viena, Frankfurt e Istambul são outros destinos eventualmente expostos a radiações. Uma semana depois da morte de Litvinenko, o ex-primeiro-ministro russo Egor Gaidar foi hospitalizado depois de um súbito agravamento de saúde motivado por outro estranho envenenamento.
ÓLEO DE FEIJÕES DE CASTOR: DE INOFENSIVO LAXANTE A VENENO MORTAL
Durante vários anos, foi emborcado à colherada por uma geração de crianças e jovens. O óleo de Castor, ou de Rícino, tinha várias virtudes, como o efeito laxante. Actualmente, tem um uso industrial e químico e pode ser encontrado em produtos como batons ou champôs. Em excesso, esta proteína tóxica extraída das sementes da planta de feijões de castor, é altamente venenosa. Está associada à morte do jornalista búlgaro Gerogi Markov.
A VÍTIMA DO CHAPÉU DE CHUVA
Gerogi Markov, o jornalista picado pelo veneno com um chapéu de chuva. No gráfico ao lado explica-se como se transforma um utensílio de Inverno banal numa arma mortal.
Em plena campanha eleitoral de 2004, o presidente da Ucrânia, Viktor Yushchenko, foi intoxicado – eufemismo para um envenenamento depois de um jantar com chefes do aparelho de segurança. Durante o internamento, em que esteve às portas da morte, o candidato e presidente viu o seu rosto esboroar-se como papel molhado. Viktor Yushchenko sobreviveu mas a cara ficou muito diferente da que era e que fora registada para os cartazes da campanha para as eleições presidenciais ucranianas.
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