Sem portagens nem horários a cumprir

De Torres Novas à Guarda demora-se quase cinco horas sem usar a scut. À média de 53 km/h, só dá mesmo para apreciar a vista.

04 de julho de 2010 às 00:00
Sem portagens nem horários a cumprir Foto: João Cortesão
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Naquele tempo chamavam-lhe IP6. Inaugurada em 1995, a auto-estrada ligava o nó da A1 de Torres Novas ao Entroncamento, Constância e, um pouco mais tarde, Abrantes. Uma revolução para populações para quem todas as direcções da bússola significavam horas de viagem. Dez anos depois, o IP6 passou a ser a A23. A partir de 2004 Castelo Branco, Covilhã e Guarda tornaram-se destinos possíveis para deslocações de ida e volta no mesmo dia. A A23 é a maior das sete Scut que o Governo quer portajar e uma das que trouxe impacto mais profundo às regiões por onde passa.

Para quem faz dos camiões o ganha-pão, a A23 significa uma vida nova. Carlos Luz, director da empresa de camionagem Luz e Irmão – sediada em Riachos, Torres Novas –, lembra as longas jornadas em que se vinha de Espanha por montes e vales. Hoje faz contas ao que aí vem – o projecto do Governo de introduzir portagens nesta Scut a isso obriga. "Só no serviço internacional temos oito carros que fazem a A23 três vezes por mês. Fazendo as contas por alto, se a portagem custar 40 euros até à Guarda, estamos a falar de um acrescento da despesa de 25 mil euros por ano. Os clientes não estão dispostos a pagar mais", diz o empresário, que leva mercadoria para toda a Europa, sobretudo Espanha, França, Bélgica e Luxemburgo. Alternativas? "Não há, não temos como fugir à auto-estrada. Temos horários a cumprir e as despesas com o gasóleo aumentariam imenso".

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INÍCIO DA ODISSEIA

São 09h30 da manhã quando começamos o percurso entre Torres Novas e a Guarda, pelas estradas nacionais usadas antes de aparecerem o IP6 e a A23. Até Abrantes, a Estrada Nacional 3 passa por Vila Nova da Barquinha, Tancos e Constância. Há pouco trânsito, e a vista sobre o Tejo é irresistível para quem vai em passeio. Mas o alcatrão atravessa vilas e lugares, semáforos e passadeiras. O conta-quilómetros raramente passa dos 60 km/h.

À porta do hospital de Abrantes, Américo Ferreira prepara--se para voltar a casa, depois de uma consulta. É de Constância, demorou 15 minutos a chegar – metade do que precisaria se viesse pela estrada velha. Os três hospitais da região (Torres Novas, Tomar e Abrantes) dividem entre si as valências, obrigando os utentes a deslocarem-se entre eles conforme as maleitas. Ortopedia em Abrantes, Cardiologia em Torres, Oftalmologia em Tomar, por exemplo. "A A23 é fundamental. Temos de andar sempre de um lado para o outro, se vierem as portagens vai ser um transtorno", diz Américo.

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De domingo a domingo, Lourenço Silvestre, 57 anos, carrega a sua velha carrinha de caixas de cerejas e vem desde Alpedrinha (na serra da Gardunha) até ao hospital de Abrantes. Junto à entrada, vende caixas de 2 kg a cinco euros. "Não se ganha muito, mas vale a pena vir. Se puserem portagens na auto-estrada, deixo isto". A viagem pela estrada nacional demora 02h30, mais uma hora do que se vier pela A23. Ele nem quer ouvir falar em portagens: "só servem para nos atrapalhar a vida".

À saída de Abrantes, a A23 segue a norte do Tejo. A alternativa é apanhar a EN118, a sul do maior rio da Península Ibérica. Em direcção ao Gavião, o piso até nem está mau, mas as curvas não permitem grandes velocidades. Nem o camião que segue pachorrento, sem passar dos 60 km/h. Para ultrapassá--lo é preciso aproveitar as poucas rectas que permitem fazer a manobra em segurança.

MONTES E VALES

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Já estamos no Alentejo. A EN118 segue pelo Gavião e Nisa antes de virar para norte. Ao fim de 100 km e quase duas horas de viagem, chega-se a Nisa. Terra famosa pelos queijos e enchidos, que chegam aos gourmets da capital através da A23. É para Lisboa que Pedro Granchinho, sócio-gerente da Salchinisa manda a maior parte da produção da sua fábrica. Os chouriços, cacholeiras e painhos cruzam a A23 e depois a A1 para chegar à mesa dos alfacinhas. "O negócio vai andando, mas com dificuldades. Com portagens não sei se aguentamos o preço dos transportes", diz.

De Nisa para norte, é preciso apanhar a N18. É preciso subir pelos montes para chegar de novo ao Tejo. A paisagem volta a ser deslumbrante, nem tanto para quem tenha pressa. Perto de Vila Velha de Ródão há quem torça pelas portagens na A23. Em Sarnadas do Ródão, a bomba da Galp é um cenário fantasmagórico. Dos oito postos de abastecimento, só quatro têm máquinas em funcionamento. A explicação para o abandono está ali a 50 metros – a A23 desviou todo o trânsito, condenando ao fracasso umas bombas que "chegaram a ter 16 postos a funcionar e a dar emprego a 33 pessoas", conta a funcionária, uma das três pessoas que ainda ali trabalham. Para ela, as portagens são "uma esperança" de que o negócio conheça melhores dias.

Mais 45 km, feitos em outros tantos minutos, e chega-se a Castelo Branco. À entrada, as fábricas, stands de automóveis e armazéns alinham-se junto ao acesso da A23, num claro sinal de que a estrada serve de motor à economia da região. Depois da cidade, a N18 segue paralela à auto-estrada durante largos quilómetros. O trânsito é escasso e consegue-se andar depressa até ao ponto em que a A23 entra (literalmente) pela serra da Gardunha adentro, através de dois túneis. A EN18 sobe a serra, passando por Alpedrinha. Às quatro e meia da tarde, Lourenço Silvestre, o vendedor de cerejas, já regressou de Abrantes. "Faço o trajecto em hora e meia, a auto-estrada deixa-me à porta de casa".

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NA TERRA DE GUTERRES

Já do outro lado da Gardunha, Donas é vila famosa pelo seu filho mais dilecto. Ali nasceu o engenheiro António Guterres, o primeiro-ministro que inventou o conceito das auto-estradas sem custos para os utilizadores. No café Pontãozinho, Ana Maria Silva vaticina que o seu conterrâneo "não vai gostar nada de ver aqui as portagens". E explica: "a A23 mudou a nossa vida, agora podemos ir aos supermercados de Castelo Branco e da Covilhã".

A N18 passa pelo centro do Fundão, onde meia dúzia de rotundas e vários semáforos impedem uma marcha veloz. São mais 20 enfadonhos quilómetros até à Covilhã, onde todos reconhecem a importância da A23. "Montei este negócio por causa da auto-estrada e na perspectiva de esta não ter portagens. Se o meu mercado se ficasse pela população da Covilhã, esta loja não tinha razão de ser. Preciso de atrair gente de Castelo Branco e da Guarda". Fala José Soares, dono de três lojas de bicicletas, uma das quais especializada. Vende máquinas sofisticadas, que podem chegar aos 7 mil euros. "Com portagens, há menos hipóteses de as pessoas circularem entre cidades. Estou a perder oportunidades", explica.

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Falta ainda mais um suplício. Até à Guarda, a N18 sobe a montanha, não fosse esta a cidade mais alta do País. Seis camiões TIR impedem o velocímetro de passar dos 50 km/h. "A subida por Santa Cruz para se entrar na Guarda é terrível", admite Luís Celínio, advogado na cidade e presidente do Clube Escape Livre, que há 20 anos organiza eventos de todo-o-terreno e passeios turísticos na região. "A A23 e a A25 (que vai de Vilar Formoso a Aveiro) mudaram tudo. Hoje conseguimos ir a Lisboa em duas horas e meia e também ao Norte do País. As pessoas de fora ficam surpreendidas com a facilidade com que hoje se chega à Guarda". Luís até é um defensor do princípio do utilizador--pagador, mas defende que neste caso "não há estradas alternativas", pelo que espera que haja "bom senso".

A viagem de 247 quilómetros de estradas nacionais entre Torres Novas e a Guarda demorou 04h50m. O regresso faz-se pela A23. São 212 km, em menos de duas horas. A não ser que o intuito seja ver a paisagem, a alternativa à Scut é ter paciência. Muita paciência...

PAGAR É CERTO, MAS QUANDO E COMO?

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O Governo adiou para 1 de Agosto a adopção de portagens nas três Scut do Norte, Grande Porto, Norte Litoral e Costa da Prata, mas os utilizadores das outras quatro (A25, A24, A23 e A22) só podem respirar de alívio até 1 de Janeiro do próximo ano, altura em que avança o pagamento nestas vias.

O Executivo propõe isenções para os residentes de 46 municípios atravessados por estas auto-estradas – que têm um índice de poder de compra inferior à média nacional – mas a medida ainda está a ser negociada. A ideia é polémica, até porque concelhos como a Guarda ou Torres Novas (com índices de 92% e 91% em relação à média nacional), poderão passar a pagar a breve prazo.

Quanto à forma de pagamento, esta ainda não está definida. A ideia do chip electrónico parece ter caído, pelo que os condutores poderão ter de usar a Via Verde para circular nestas estradas. De Norte a Sul do País, cresce a contestação de autarcas, movimentos cívicos e populações.

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