Será que um dia te venho buscar?

A santa casa da misericórdia tem a maior coleção do mundo de sinais dos meninos que eram deixados na roda pelos pais.

17 de abril de 2016 às 15:00
Foto: Sérgio Lemos
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Toda a família herdou daquele avô ruivo e misterioso que morreu cedo – e do qual nem uma fotografia havia – os olhos claros, mas sobre o seu passado pouco se sabia. Havia uns zunzuns de que tinha sido deixado numa roda por alturas do seu nascimento, mas não havia confirmação nem grande interesse em desenterrar uma história tão antiga que de nada serviria para pôr comida na mesa na aldeia da Lourinhã, de onde a família era natural.

Mas Elizabete Marteleira, uma das netas deste avô de olho azul, nunca sossegou, e quando soube de uma exposição sobre os expostos – os meninos que eram abandonados na roda da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – pôs pernas a caminho do passado familiar. "Só sabia que ele se chamava Martim José Rodrigues, por isso, só quando arranjei a certidão de óbito do meu avô, que tinha a data de nascimento e confirmava que era filho ilegítimo de pais incógnitos, é que tive a certeza de que havia ponta de verdade no que se sussurrava." Mergulhou nos livros centenários da instituição, onde encontrou um Martim – nos livros não constavam apelidos daquelas crianças abandonadas – nascido no mesmo dia do avô, mas ainda faltavam certezas. Por isso, foi até Pregança do Mar, uma aldeia na Lourinhã, e por lá confirmou que duas ou três senhoras haviam sido amas de leite de crianças da Santa Casa, que iam buscar de burrinho a Lisboa numa viagem que na época demorava dois dias. Regressou ao arquivo para espreitar o ficheiro das amas e lá encontrou uma Rosa da mesma aldeia, casada com um José Rodrigues, responsável pelos outros dois nomes do avô. "Quando vi o escrito – o papel que normalmente as mães ou os pais biológicos deixavam junto das crianças que entregavam para a Santa Casa cuidar – emocionei-me".

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O bebé vestia a 10 de novembro de 1866 uma ‘camisa de algodão, um envolvedouro de seda listada, um cueiro de pano preto, um roupão de baeta branca e lenço de caça adamascada’, lê-se no livro de registos dos expostos. Pregado na roupa, um bilhete, que rezava assim: ‘No 10 de novembro pelas três e um quarto da tarde nasceu este menino, peço que lhe ponham o nome de Isidoro. Para sinal leva uma fita cor de tijolo com riscas pretas. É de Lisboa’.

87 mil sinais

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem a maior coleção de sinais e contrassinais do Mundo. São mais de 87 mil. No fundo, eram uma espécie de prova de que as mães ou os pais os pretendiam recuperar um dia mais tarde. "Eram deixados junto do bebé, mais de 50% das crianças traziam sinal, o que transmite uma preocupação e uma certa esperança. A maioria trazia um escrito com o nome e o pedido de batizado – porque havia a convicção de que se a pessoa não fosse batizada ficava num limbo entre o céu e o inferno –, mas alguns traziam também elementos como um santinho protetor, uma medalha, um bocado de cabelo da mãe. "Não podemos ver a roda como um abandono à luz do nosso tempo. Porque a sociedade queria proteger as crianças, a coroa também, porque um reino rico era um reino com muita população, mais tarde aqueles bebés eram mão de obra para trabalho e também para a tropa", contextualiza o diretor do Arquivo Histórico na Santa Casa da Misericórdia, Francisco d’Orey Manoel. "As crianças que eram colocadas na roda eram na sua grande maioria oriundas de situações problemáticas e de gente pobre, aquela ideia do nobre que tem uma relação com a freira ou com a menina pobre também existe, mas a roda era a resposta que a sociedade tinha porque não havia creche, não havia subsídios, fundos de desemprego. Se tem muitos filhos, se o marido morreu, se a mãe está doente, nós acolhemos o bebé. Não era visto como negativo, tanto que nos registos aparecem bebés entregues de manhã, à tarde e à noite." De qualquer forma, durante o processo, ninguém – nem de um lado nem do outro – se via. "Era uma janela feita numa parede que não permitia ver para dentro porque era um cilindro giratório. Quando está exposto para fora tem o côncavo para dentro e quando está dentro tem o côncavo para fora", ilustra o historiador Victor Eleutério – que se encontra a fazer uma tese sobre a influência da roda na tristeza nacional. "Começámos logo por ser abandonados naquela altura, por isso somos tristes, enquanto os espanhóis são alegres", diz, convicto.

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A partir de 1783

A roda foi institucionalizada por Pina Manique em 1783, então intendente-geral da polícia de Dona Maria I, e foi abolida em 1870, altura em que a ‘entrega’ das crianças deixou de ser anónima. "Naquela altura, havia debates públicos entre os que defendiam e os que atacavam a roda. Os do ‘não’ diziam que a Misericórdia tinha a roda do vício, que era o jogo, e tinha a roda do vício social, que era encobrir as mães e as famílias, que a sociedade estava a destruir-se com costumes perversos", conta Francisco d’Orey Manoel. Havia também quem criticasse que os bebés mais compridos ou encorpados não cabiam na estrutura de madeira e por isso se davam acidentes quando a irmã rodeira fazia rodar o cilindro para trazer a criança para dentro.

Na altura, existia uma roda em cada sede de concelho. Enquanto o processo foi anónimo, "tínhamos entradas de 2500 crianças por ano, o que corresponde a sete crianças por dia. Quando começou a ser necessário entrar dentro da instituição e registar o nome da mãe e o motivo, os números baixaram drasticamente para cento e tal por ano", diz o diretor do arquivo, um espaço onde todas estas raridades estão guardadas. Lá também consta a série das entregas a pais. "Era muito menor porque a mortalidade era elevada, 50% morriam logo nos primeiros meses, e também porque muitos pais não podiam recuperá-las ou não queriam."

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Não era isso que parecia nos escritos que deixavam. ‘Menina de dois meses e seis dias. Chama-se Gertrudes Tomásia e nasceu a 15 de novembro de 1807. Por falta de sustento sua mãe a não pode criar e por infelicidade de seu pai não ter como ganhar a sua vida e assim pede-se aos senhores provedores que a mande criar que a todo o tempo que deus ponha o nosso reino em paz a procurará, leva uma trança de cabelo da mãe para sinal, uma fita atada no pé direito’. Ou: ‘Não é porque me queira ver livre do meu filho de todo, mas sim por me ver abandonada do pai e sem recursos de qualidade alguma. E que se lhe ponha o nome de Joaquim Raul para eu o poder reclamar a seu tempo’. Muitos pais não se limitavam a deixar o sinal, guardavam um contrassinal para que, caso um dia se desse o reencontro, pudessem provar que tinham sido eles a deixar a criança na roda. Metade de um bilhete de lotaria ou de uma carta de jogar – as duas partes, se algum dia unidas, encaixariam tão na perfeição como o sapato na Cinderela. Nas suas investigações, Victor Eleutério chegou a descobrir uma história com final feliz. "Uma menina que o pai, oficial do exército, deixou na roda. A mulher estava doente e ele teve uma filha de outra senhora. Ao fim de sete anos, a mulher morreu e ele pôde declarar a menina como filha", lembra, apesar da sua pouca fé nas vantagens da roda. "Durante os anos que existiu, foi para os abandonados como uma má rodagem é para um automóvel." O avô de Elizabete não é caso disso. "Foi criado pela ama até aos 12 anos e depois ficou como capataz numa casa de muito cultivo e fazendas. O dono das propriedades morreu e ele casou com uma das filhas. Para quem chegou de burrinho no frio de novembro, não se safou nada mal", brinca.

E José Maria Espírito Santo e Silva também não, apesar do descalabro recente da família. "Foi abandonado na roda em 1850, filho de um fidalgo e de uma criada, sua afilhada. O nome Espírito Santo estava em alta por causa da instituição do Espírito Santo da Pedreira e assim ficou no batismo", conta Victor Eleutério. Foi o primeiro da linhagem da família que chegou a ter um verdadeiro império na Banca.

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