Sexo on-line

Paula fez o circuito das boîtes. Quando se fechou em casa para receber clientes, abriu um blogue para contar as histórias de cama. E quer publicar um livro.

26 de março de 2006 às 00:00
Sexo on-line Foto: Tiago Sousa Dias
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Uma mulher que trabalha com sexo não trabalha apenas com sexo. Paula Lee apresenta-se no seu domínio da ‘Net’. Prostituta, garota de programa, acompanhante, cortesã, amante profissional, rameira, mulher da noite, meretriz, quenga, menina de convívio, nomes para a mesma função, a sua: “terapeuta sexual.”

No seu apartamento arrendado de Leiria, ela recebe os homens que leva para a cama a troco de rosas. É lá dentro, na sala, num dia cinzento, que a brasileira de 24 anos ouve, mansinho, ‘Infinito Particular’. Marisa Monte canta a banda sonora da vida de Paula: “Eu sou daqui, eu não sou de Marte.”

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Paula Lee gasta duas horas por dia, em média, para alimentar o blogue com coisas da sua vida profissional, “intimidades”. “Coisas que posso contar imediatamente. Outras, guardo, para minha segurança, pode ser perigoso.

Dessas, algumas, talvez um dia eu conte.” Talvez no livro que gostaria de editar.

Escreve em média três ‘post’ por dia, primeiro em Word e depois ‘copy past’ para o seu diário cibernético iniciado no dia 16 de Novembro.

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Trocou a caneta e o papel com que alimentava um caderninho igual àqueles onde as adolescentes desabafam os seus amores. As confidências escritas tiveram início há três anos quando, virgem nas noites, veio para fazer o circuito das boîtes do Norte do País.

No seu ‘post’ de dia 20, no domínio amanteprofissional.com, Paula Lee conta que viu em DVD ‘O Crime do Padre Amaro’. “Este filme me fez lembrar uma coisa.” Um cliente antigo que um dia se lhe apresentou como vendedor. Dias mais tarde, reviu-o. “Saí da igreja antes da comunhão. Para mim não seria incómodo nenhum, mas para ele seria constrangedor dar-me o corpo de Cristo depois de me ter dado o seu.”

Abre a sua caixa de ‘e-mail’ três vezes por dia; em cada uma, tem uma vintena de mensagens de solitários interessados em prosa. “Não são clientes porque o cliente liga, pergunta quanto é, onde é, e vem.”

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Na maioria, os correspondentes são homens com dificuldades nos relacionamentos que trocam o “programa” por mais de meia dúzia de conselhos.

Paula não é poupada em palavras. “Mulheres também me contactam bastante, não só da noite mas também fora da noite. Esta semana, uma me contactou porque está com dúvida se entra ou não entra na prostituição.” A Amante Profissional não pôde aconselhá-la. Escreveu: “Você tem de pesar os pratos da balança, eu não vivo a tua vida.”

Na balança de Paula Lee, num prato pesa o dinheiro – “se não fosse isso, eu faria de graça, não cobraria nada” – e pesa a intimidade. Profere esta palavra separando as sílabas. A in-ti-mi-da-de dá poder. “Nesses momentos, posso perguntar à pessoa onde é que votou nas últimas eleições que ela me vai responder! É o poder e o que se aprende da mente humana que é interessante.”

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No outro prato da balança do sexo pago pesa o preconceito social, o risco das doenças, a possibilidade de violência.

NOVATAS DO SEXPHONE

As novatas do Sexphone têm um instrutor que orienta a conversa. E uma lista de palavrões para dizer ao cliente do outro lado da linha. Paula Lee fez seis meses de sexo falado nas linhas eróticas brasileiras antes de atravessar o oceano. “Se ele liga e me pergunta ‘qual é a sua lingerie?’, eu falo. Depois falo do meu corpo mas se ele volta a falar da lingerie é porque a quer vestir, é a tara dele. Você tem de pegar logo, se não vai ficar desiludido. Ele nunca vai falar, tem vergonha.”

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Nos meses em que se agarra ao telefone para fazer suspirar anónimos é convidada para programa mais gráfico. Paula sente-se tentada pelo dinheiro mas não cai. “Nunca tive coragem por causa da família. Apesar de nenhum deles frequentar os altos meios da sociedade de Copacabana ou Barra da Tijuca, para onde eu iria.”

A menina tranquila, que aprendeu a ler aos três anos e que durante a meninice rapou os livros das bibliotecas, não quer expor a família à vergonha. “Nem é a questão de falar que isto é feio porque na minha mentalidade, depois de ter visto o que vi, não é. Qual é a diferença entre garota de programa e uma menina que casa com velho por causa de dinheiro e lhe chama meu amor, meu lindo?!”

Através de uma amiga que emigra a bordo do sexo para Espanha, Paula estabelece contacto para sair também ela do Brasil. “Fiquei cheia de curiosidade e fui conversar com uma senhora, gente famosa no Brasil. Se a oportunidade aparece, a pior coisa é ficar toda a vida na dúvida.”

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O destino deu-lhe o visto para Portugal com pouca experiência de vida, três namorados na bagagem e relações envergonhadas. “Sempre debaixo do lençol, se eles me viram uma perna foi muito.”

A psicologia das linhas telefónicas acabaria por ajudá-la nas camas portuguesas.

Paula nunca tinha saído do país. Nunca tinha andado de avião, quando aterrou no aeroporto de Madrid com destino marcado para uma boîte do Norte português, junto à fronteira. “Na altura, o esquema era vir por Espanha e depois entrar no País de carro. Hoje em dia, já vêm directo porque lhes arranjam contratos de trabalho com cafés e pastelarias.”

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O homem que a devia esperar nas chegadas do aeroporto de Barajas, não aparece. O desespero, que a faz andar desaustinada de um lado para o outro, levanta a suspeita da polícia. É revistada. “Pensei, tou lascada. Como é que ele sabe que eu vim para a prostituição?! Mas o policial só queria fazer uma espécie de radiografia. Ele suspeita de droga. Pôxa, pode me virar do avesso.”

Paula segue de carro com o seu motorista, chega à boîte no escuro do Inverno. Na noite em que pisa o chão português, tem de se estrear.

Chega às 21h30, meia hora depois desce do alojamento para o bar. “A gente vive num mundo machista, que até é cómodo, porque é ao homem que compete galantear. Por isso, foi muito difícil, não sabia como chegar e dizer: vamos para a cama?”

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Paula rodeia as mesas e os clientes numa dança aflita de indecisão “Eu era muito distraída, não tinha malícia e havia meninas mais experientes. Quando ganhava coragem, só abordava clientes que tinham acabado de subir ao quarto.”

No seu sofá de Leiria, Paula faz uma careta para lembrar a expressão lúbrica do seu primeiro cliente. Inspira o ar. O som produzido faz lembrar Hannibal Lecter mas no quarto português da boîte, a fita não é ‘O Silêncio dos Inocentes’. “Eu nem sabia colocar um preservativo mas subi no homem e lá fiz o gajo.”

A vida das boîtes passa a ser rotina. Alternam-se corpos com urgência. “Tem meia hora para estar com o cliente. Em meia hora tinha que subir com ele, tirar a roupa, lavar, ir para a cama, ele gozar, depois lavar, colocar o vestido e descer.” A ditadura do relógio desagrada a alguns, que reparam nos olhos da mulher no relógio.

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Paula aprende a calcular para dentro. “Eu contava; até 60 um minuto e por aí em diante. Ele lá e eu contando. Se bem que facilita: a maioria dos homens quer despachar, é só virar de quatro, à canzana, e já está.”

Paula foge da primeira boîte, ofendida.

Quando precisou, os donos do estabelecimento não a defenderam. “Uns ciganos me trancaram a um canto do bar, enfiaram os dedos dentro de mim, eu atirei o cartão para dentro do copo deles.”

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Foge da primeira casa nocturna e sai das seguintes. “Quando a gente trabalha em boîte só tem uma mala, no máximo duas malas, ali tem tudo o que precisa: roupa, botas, vibradores, tudo aquilo de que a gente vive.”

Na rota do sexo, Paula evita viver de dia com as colegas que trabalha de noite, altura em que fomenta amizade com clientes seleccionados. “Polícias e bandidos, gente que pode ser boa ou má para a sociedade mas que para mim foi gente boa. Por sua causa, tinha liberdade de movimentos.”

Ergue a palma da mão direita e abana-a de um lado para o outro em frente da cara. “Quando cheguei, eu era assim: tapadinha.”

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Aprende a malícia, a mandar na cama, a impor a sua vontade ao patrão. O seu 1,62m de altura chega até para obrigar um dono de boîte a abrir as máquinas de jogos e de cigarros para lhe pagar. “Tem boîtes, principalmente hoje, que querem pagar às meninas no dia seguinte. Dizem que não têm dinheiro, só cheque ou Multibanco. Conheço gajos que devem 500, 1000, 2000, 3000 euros para as meninas. A mim ninguém me deve um cêntimo.”

Bruna Surfistinha é a inspiração de Paula Lee. Quando foi convidada de Jô Soares, no GNT, a garota de programa no Brasil e autora do livro ‘O Doce Veneno do Escorpião’ mereceu uma entrada no blogue da amante profissional. “Eu visito o blogue dela regularmente e até já lhe enviei um e-mail, na altura em que ela apenas tinha o blog 4 paredes. Contei-lhe que escrevia contos eróticos.”

No seu espaço cibernauta, Paula Lee vende sabonetes, bonecos insufláveis, vibradores, óleos, géis, lingerie, num shopping inaugurado há duas semanas. Os contos eróticos ficaram on-line em Janeiro, só lá estão alguns. A veia de Anaïs Nin é recente, nunca tinha escrito nem lido sobre sexo.

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Agora publica: “Nada me excita mais do que um homem tímido. Desde a escola que era assim. Os tímidos eram caçoados pelos outros homens, mais espertos e aventureiros. Certa vez o Artur...”

Na prateleira da sala estão os livros que anda a ler, Simone de Beauvoir e Marquês de Sade.

On-line, as suas críticas literárias. A amante profissional leu ‘A Casa dos Budas Ditosos’ de Ubaldo Ribeiro. Achou forte demais: havia incesto e a personagem principal, uma cortesã, “queria dar para toda a gente.”

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No livro de Ubaldo, os portugueses e o sexo: “(...) Aliás, fode-se muito bem em Portugal, apesar do que eu suponho ser a opinião generalizada. Mas eu nunca gozava com o Zé Nuno, porque no momento culminante, ele urrava ‘não t’acanhes, não t’acanhes’, e o meu ponto G accionava um disjuntor no ato.” ~

Na página on-line, este excerto do escritor brasileiro convive com um link para o preçário das várias modalidades oferecidas pela amante profissional. “Os homens portugueses pedem o normal e a simulação masculina. Às vezes, nem pedem isso mas eu percebo e pergunto durante o acto. Eles dizem não sei, nunca experimentei. O que você acha? Eu digo: acho bem, meu bem.” Paula usa vibrador na cama.

Em 2004, o negócio da noite nortenha entra em declínio. O copo no bar precedido pelo sexo é substituído pelas quatro paredes de um prédio de habitação. “O problema do apartamento é que a menina não tem liberdade. Além disso, na boîte, ela dava 10 ou 15 por cento do trabalho dela, no apartamento ela dá 50 por cento e ainda uma diária de 10 ou 20 euros ao gajo que é dono do local. Muitos destes gajos foram donos de boîtes.”

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Paula procura um sítio para ficar a trabalhar sozinha. Não quer pagar a outro, não quer estar sujeita ao controlo pidesco de uma eventual câmara de vigilância. “Existem sítios onde se filmam a entrada e a saída dos clientes. O homem entra, escolhe a menina e vai para o quarto e mesmo que ela queira demorar, não pode. O filme regista. Se for tempo a mais, o dono acha que a menina deu duas oportunidades e só entregou o dinheiro de uma.”

Estabelece-se em Leiria, a psicologia do sexphone ajuda o desempenho da amante profissional. “Ganho bem, não tanto quanto gostaria. Já houve épocas melhores em que tinha trabalho a tempo inteiro, hoje tenho a meio expediente e não é diariamente.”

No preçário do blogue, duas horas em atendimento normal, quatro oportunidades são 110 rosas. Cinco a dez minutos, 20 rosas, uma oportunidade. Também atende e faz tratamento respiratório para ejaculação precoce. “Não quero falar do dinheiro que posso ou não fazer. O meu preçário é fixado num valor superior, para me valorizar. Se você acompanha a tendência, vai ter o dia em que vai estar pagando para cliente.”

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As leis da economia aplicam-se ao sexo. Em dois anos, Leiria passou de dezena e meia de apartamentos para mais de 60. “As meninas levam 30, aparece uma que leva 25. Durante uma semana, essa trabalha muito bem. Até um dia, aparece outra também nos 25. Aí tem concorrência. Hoje em dia, há meninas a trabalhar por 12,50, como dão metade ao dono do apartamento ganham 6,25. Tem que atender muito homem.”

Paula aprendeu a sambar, num maneio habilidoso perante os clientes difíceis. Ela não se incomoda com “sacanagem”, não suporta “falta de respeito.” “Há um tipo de homens que eu posso estar chorando de dor que no fim me vai dizer: meu bem, pensava que tava chorando de tesão. A esses digo que não precisa voltar. Quando vejo que a coisa está ruim, invento que estou com o período. Mas já engoli sapos.”

Nos anos portugueses da sua vida, teve dias em que pensou largar tudo. Regressou sempre. Aprendeu que a sedução é um predicado que não se vê, mas que tem poder, que o homem é “bobinho” perante uma mulher com lábia. “Quando comecei, pensava assim: nossa, tanta mulher tão linda nenhum homem me vai pagar para ir para a cama. Mas havia muita menina, baixinha, gordinha, que dava uma coça nas produzidíssimas.”

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Paula Lee foi de puta de boîte a terapeuta do sexo porque, diz, aprendeu a ouvir. “Posso não fixar caras mas lembro das histórias. E os homens me dizem: nossa, você se lembra de mim!...”

Soube da maneira mais insidiosa que a amizade do género feminino é “coisa de livro.” As mulheres da noite praticam o sexo, não a lealdade. “Há muita sacanagem! Acontece muito você ir para o quarto com o cliente e aí chega outro cliente te procurando e a menina fala: ela regressou ao Brasil. E fica com ele.”

Paula pelo baptismo, adoptou o pseudónimo Lee por inspiração numa série de televisão brasileira. Em ‘Labirinto’, Malu Mader era Paula Lee, uma decidida garota de programa que não vergava.

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Aos 24 anos, a amante profissional quer trancar a porta de casa, escrever livros de sucesso e ser a Bruna Surfistinha portuguesa. Depois vai pegar nas malas, morena como nasceu, e sair discreta de cena.

BRUNA SURFISTINHA: A INSPIRADORA DE PAULA

Bruna Surfistinha é pseudónimo da brasileira Raquel Pacheco, a mulher que contou a sua vida como prostituta em ‘O Doce Veneno do Escorpião’.

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O livro tornou-se best-seller no Brasil, a primeira edição de 10 mil exemplares esgotou em duas semanas. Este mês ultrapassou os 80 mil exemplares.

Aos 24 anos, esta brasileira que Paula Lee admira, vai ver a sua vida como prostituta no ecrã de cinema.

O papel de protagonista foi sujeito a votação dos cibernautas que diariamente visitam o blogue de Bruna. As actrizes Luana Piovani e Carol Castro estiveram à frente da votação mas foi Mel Lisboa a vencedora. A actriz foi a protagonista de ‘A Presença de Anita’, uma série de carácter erótico já apresentada na televisão portuguesa.

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LEGALIZAÇÃO? NÃO MUITO OBRIGADO

Quando o assunto é a legalização da actividade de prostituta, Paula Lee assume a defesa das meninas: “A partir do momento em que se legaliza, legaliza-se tudo em volta. Hoje temos uma certa autonomia. Aos homens que querem forçar a gente a fazer certa coisa, de certa maneira, podemos perguntar onde é que isso está escrito. Se tal não bastar, pode sempre perguntar se ele quer que se chame a polícia. Se a profissão for legal, não posso fazer isso. E é o meu corpo. Eu vendo um serviço, a partir do momento em que me vão ditar o que devo ou não fazer, me vou tornar num produto.”

Mas Paula Lee ressalva, a sua opinião sobre o assunto ainda não está formada a 100 por cento. “Preciso pesquisar informação sobre a realidade nos países em que a prostituição foi legalizada.”

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