"Sobreviver foi o maior milagre da minha vida"

A minha mulher ficava em Portugal com a nossa filha recém-nascida. Partir assim custava mais do que enfrentar o inimigo.

02 de novembro de 2025 às 03:00
Preparação de pelotão em Lisboa, 1967, antes de embarcar para Angola Foto: DR
Angola, 1968: evacuação de criança para o Hospital do Luso, durante escolta ao MVL Cassamba Foto: DR
Militar recorda partida para a guerra e o nascimento da filha. Foto: DR
Um soldado em uniforme camuflado segura uma arma Foto: DR
Reconhecimento a Carlos Maria Pereira de Figueiredo pelo serviço militar em Angola (1967-1969) Foto: DR
Foto: DR

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Eu, Carlos Maria Pereira de Figueiredo, 1.º Cabo do Batalhão de Cavalaria 1928 – Companhia 1777, nasci a 10 de novembro de 1941, em São Domingos de Rana, Lisboa, mas toda a minha vida foi vivida e passada em Terras de peixe e mar, na Costa de Caparica, no concelho de Almada. 

Aos 26 anos, quando fui chamado para a tropa, integrei o Regimento de Cavalaria nº 7, em Lisboa. No dia 2 de dezembro de 1967 embarquei no Vera Cruz rumo a Angola. Embarquei no paquete Vera Cruz a 2 de dezembro de 1967 rumo a Angola, para cumprir a minha comissão na Guerra do Ultramar. 

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Deixava em Portugal a minha mulher e a nossa filha bebé, que tinha apenas quatro meses. No mato africano sofri um ferimento grave que quase me roubava a vida. A minha família chegou a preparar o luto, mas eu sobrevivi. A despedida foi dura. A minha mulher ficava em Portugal com a nossa filha recém-nascida. Partir assim custava mais do que enfrentar o inimigo.

As missões eram constantes: reabastecimentos e escoltas entre o Luso, Cassamba, Cangamba e Muié. Estradas destruídas pelas chuvas, viagens de dias inteiros, emboscadas a qualquer momento. A comida era sempre a mesma: arroz com feijão. Dormíamos no chão, muitas vezes com um tijolo a servir de almofada. O calor africano era abrasador. Passei três anos debaixo de sol intenso, sem qualquer proteção. Hoje, tantas décadas depois, sofro de cancro de pele e já realizei mais de 10 cirurgias no IPO — mais uma das marcas silenciosas que a guerra me deixou.Ainda hoje recordo o meu sargento de Cavalaria Manuel António Cigarro Nepomuceno, grande amigo com quem partilhei aqueles dias difíceis. Tinha em mim grande confiança: cheguei a comandar interinamente a secção como Cabo, e foi precisamente numa dessas missões, em 1968, que a guerra me deixou marcas para sempre.Durante uma operação em Muié, enquanto cercávamos a base inimiga, fomos surpreendidos por uma emboscada. De repente, senti o impacto de um tiro disparado pelas costas — à traição. A bala atravessou-me pela clavícula e deixou-me paralisado do lado direito. Caí no chão a pensar que ia morrer ali mesmo. Guardo poucas memórias desse momento traumático, mas nunca esquecerei o som do helicóptero a aproximar-se — foi a esperança a renascer em mim. Em Portugal, a minha mulher recebeu um telegrama a anunciar a minha morte. Preparava-se para o luto quando chegou a notícia de que afinal sobrevivera. Sobrevivi, mas fiquei com cicatrizes físicas e psicológicas. Trago ainda estilhaços no corpo que me impedem de fazer exames como a ressonância magnética. Perdi por completo a audição de um ouvido e do outro tenho apenas 50% de audição. Trouxe também as marcas invisíveis: a ansiedade e o stress pós-traumático que me acompanharam para o resto da vida.Regressei a Portugal a 20 de janeiro de 1970. Voltei ao trabalho como estofador e, com a minha esposa, abracei outros negócios que nos ajudaram a erguer a vida em família. Criei dois filhos: a mais velha nasceu no ano em que parti para Angola e o meu segundo filho viria a nascer 5 anos mais tarde. Aos 55 anos, tornei-me avô e hoje tenho dois netos maravilhosos. Agora, prestes a completar 84 anos, olho para trás com gratidão. A guerra tirou-me muito, mas ensinou-me que sobreviver foi o maior milagre da minha vida.  O que mais me marcou até hoje foi o sofrimento da minha esposa que, durante toda a sua vida, repetia:“Recebemos um telegrama a dizer que tinhas morrido”.Posso dizer que a Guerra Colonial deixou-me cicatrizes físicas e psicológicas que carrego até hoje. Mas sei o quanto os meus familiares estão orgulhosos do meu percurso enquanto militar. Hoje, numa fase mais frágil da vida, é na minha família que encontro apoio e suporte, sobretudo na minha neta, que me considera o seu grande herói. As suas palavras e o amor de todos valem tudo — e se partir amanhã, parto descansado e com a sensação de missão cumprida.

NOME

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 Carlos Maria Pereira de Figueiredo

COMISSÃO
Angola (1967–1969)

FORÇA
Batalhão de Cavalaria 1928 – Companhia 1777
1.º Cabo

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83 anos, viúvo, 2 filhos e 2 netos. Nascido em Lisboa, Parede.

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