TABACO PARA O NARIZ

Foi um êxito em todo o Mundo mas deixou-se ultrapassar pela modernidade. Quando parecia à beira da morte, porém, o interesse do Norte da Europa veio reanimá-lo. Nos Açores, continua-se a fabricar rapé, o velho tabaco de cheirar.

01 de novembro de 2002 às 19:58
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O sistema de produção é o mesmo de sempre: as folhas de tabaco são moídas até se transformarem em pó e depois são-lhe acrescentados aromas, como o limão, entre outros. Nos Açores, a Fábrica de Tabaco Estrela reinvestiu em força na produção de rapé, tabaco para cheirar. Objectivo: corresponder à procura interna que o produto ainda tem e, sobretudo, atacar o mercado do Norte da Europa.

“Nos últimos anos, vários países do Norte da Europa voltaram a registar uma crescente procura do rapé. Em Inglaterra, por exemplo, existe uma fábrica que produz rapé e que tem conseguido alguns resultados interessantes com o aumento de vendas regulares”, diz Costa Martins, administrador da empresa. Nos Açores, explica o empresário, o produto ainda é distribuído para todas as ilhas, embora esteja a afastar-se das zonas urbanas. “Vendemos, essencialmente, para as localidades mais afastadas, onde a população idosa é maior. Nas grandes cidades já ninguém utiliza este produto”, explica, adiantando que o mesmo desapareceu das tabacarias por falta de compradores. “Vai ser difícil conseguir recuperar compradores”, acrescenta. Mas a esperança num novo mercado subsiste: a Dinamarca, a Inglaterra ou a Suécia estão a precisar de rapé. E o dos Açores tem boa reputação.

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CIGARRO DOS POBRES

Boa parte dessa reputação nascia num facto imbatível, o baixo preço, que permitia uma democratização maior da utilização do rapé, por chegar a praticamente todas as camadas da população. Vivia-se a era em que os cigarros eram feitos à mão, assim como os charutos. Estes existiam em número reduzido e o preço era, obviamente, maior.

A industrialização e a melhoria do poder de compra acabaram, no entanto, por fazer com que o rapé fosse cada vez menos procurado. “Antigamente o rapé era bem visto, sendo mesmo considerado um produto medicinal ideal para quem sofria de sinusite”, diz Costa Martins. “Fazia espirrar e as pessoas afirmavam sentir-se muito melhor”, explica. O andar dos tempos, no entanto, “foi fazendo com que fosse abandonado”.

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Tanto que, hoje em dia, a Fábrica de Tabaco Estrela vende o rapé em pequenas latas de 50 gramas — as favoritas dos compradores — em zonas rurais dos Açores e da Madeira. Trinta por cento da produção, mesmo assim, destina-se ao chamado “mercado da saudade”, nos Estados Unidos e Canadá.

“Vendemos, mas todos os anos vamos produzindo um pouco menos. Basta olhar para os índices de venda para perceber que não há muito a fazer. É uma descida que vai sendo assumida com naturalidade e que, mais cedo ou mais tarde, vai acabar por desaparecer definitivamente”. A modernidade, nisto, é implacável: o rapé pode desaparecer na mesma medida em que vão desaparecendo os seus compradores.

Nos últimos tempos, porém, o tabaco moído voltou a ser procurado em vários países do Norte da Europa, apesar de os mapas de vendas e de produção adivinharem o declínio constante. E é nesse mercado que os Açores pretendem agora investir.

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