Ter peixe no alto mar e governo na terra

Há uma elite política que está cega e se baba perante uma palavrinha à senhora Merkl ou ao maganão do Sarkozy. No meio das cimeiras e dos salamaleques, das agendas e dos jantares, é bom não esquecer que há um País para governar.

23 de dezembro de 2007 às 00:00
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Andam a pescar bacalhaus de pequeno porte e qualquer dia não há bacalhau, nem pequeno nem grande, para comer no Natal. Grão ainda vai havendo, nem que seja nas engrenagens mais sofisticadas desta sociedade do mais disparatado consumo. O peru, de carne branca e pouco gorda, originário do México e do sul dos Estados Unidos, acha-se por aí sem defeito e a bom preço. Nos supermercados e nas balizas dos guardiões do templo.

Neste Natal, a sensação que se colhe é que, de um momento para o outro, pode aparecer algum energúmeno trajado de vermelho e de barbas brancas capaz de sacar de uma metralhadora pesada e acabar com os sonhos de muitos açúcares. Isto não está para brincadeiras e, sinceramente, o número crescente de assaltos e o aumento exponencial da insegurança e desse fenómeno agora visível sublimado, com requintes de malvadez, no gangsterismo da noite, não é nada de surpreendente.

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Há uma elite política que está cega com as suas cimeiras e encontros europeus. Dar uma palavrinha à Merkl ou um telefonema ao maganão do Sarkozy, que teve olho para a Carla Bruni (ou ela para ele...), apanhados em grandes cumplicidades com o Pateta e o Pato Donald na Disneilândia de Paris, local certo para todo o tipo de aventuras e fantasias, é algo tipicamente português, que ultrapassa a diplomacia, na justa medida de tornar as agendas e os contactos cada vez mais próximos das bolhas de poder que pairam sobre nós. Há uma certa basbaquice nisto tudo.

Este tipo de baba também a encontro, salvo honrosas excepções, nas relações que se estabelecem entre a comunicação social e algumas figuras (muito) públicas, a partir das quais passa a ser muito difícil dizer ‘não’ quando estão em causa, mais do que súbitos afectos ou simpatias artificiais, interesses que beliscam a preciosidade da independência editorial. Dei-me maravilhosamente ao longo de anos com imensos jogadores de futebol, alguns dos quais com posições de relevo neste planeta do pontapé na bola, mas nunca ao ponto de cultivar uma proximidade que pudesse pôr em causa o MEU pensamento.

O mesmo acontece com outros protagonistas, e não vejo que possa ser de outra maneira quando, na chaminé dos salamaleques mais ou menos hipócritas, está em causa a política e a economia. Saber coexistir e saber divergir (sem ser à canelada) é um desejo que deixo para este Natal e um voto para 2008. E, já agora, que não nos falte o peixinho no mar e a carne na terra.

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