Tom Hanks às voltas com o Código Da Vinci
Raras vezes a adaptação cinematográfica de um livro campeão de vendas tem sido tão bem guardada. Desvendar pormenores da passagem de ‘O Código Da Vinci’ para o grande ecrã revela-se missão apenas à medida de um James Bond do ciberespaço.
No meio de alguma informação dispersa escasseiam as entrevistas dos principais protagonistas, faltam pistas para saber quão fiel é a visão de Ron Howard sobre a obra de Dan Brown, o escritor tornado milionário em tempo recorde graças à história de um simbologista de Harvard que se vê enredado num misterioso crime ocorrido no Museu do Louvre.
No centro das atenções encontra-se o duas vezes oscarizado Tom Hanks, que ainda não explicou como conseguiu desenvencilhar-se com tão complexa personagem e já anda nas bocas do mundo. Tudo porque os indefectíveis amantes do livro não conseguem imaginar o actor de ‘O Resgate do Soldado Ryan’ e ‘Filadélfia’ na pele de Robert Langdon.
O problema, dizem, está na cabeça. Ou, mais concretamente, nas falhas capilares de Hanks, disfarçadas com cabeleira meio desgrenhada, distante da imagem séria de outros tempos. É que poucos concordam com a ideia de vê-lo parecer-se com o Don Johnson de ‘Miami Vice’, mesmo que isso o ajude a transformar-se no reputado professor norte-americano incumbido de deslindar o bizarro homicídio.
Em entrevista à revista ‘Entertainment Weekly’, o actor confessou as suas reservas em relação ao corte ‘verdadeiro’, explicando que o novo penteado fora desenhado por Emanuel ‘Manny’ Millar, estilista que “conta histórias através do cabelo”, e que chegou a afiançar-lhe que seria fantástico se Langdon tivesse “um aspecto desenvolto e profissional.”
Os devaneios capilares de Tom Hanks são a controvérsia menor na transposição para cinema de ‘O Código Da Vinci’. Tal como quando o livro se tornou num caso sério de popularidade, o Vaticano volta à carga e apela aos fiéis para boicotarem o filme. Angelo Amato, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé veio recentemente a público afirmar que a história inclui “ofensas, calúnias e erros históricos contra Jesus, os Católicos e a Igreja”. Responsável próximo do Papa Bento XVI, o arcebispo aproveitou ainda para tecer críticas ainda mais duras e fazer comparações: “Se estas ofensas tivessem sido dirigidas ao Corão ou ao Holocausto judeu teriam provocado, justificadamente, uma revolta mundial. Como foram dirigidas à Igreja continuam impunes”.
Indiferente aos apelos de quem quer ver o filme transforma-se num fracasso de bilheteira, Ron Howard construiu um enredo onde Audrey Tautou lança charme sobre Hollywood. A actriz francesa celebrizada deste lado do Atlântico em ‘O Fabuloso Destino de Amélie’ encarna Sophie Neveu, criptóloga de arma em punho que com Robert Langdon se verá envolvida num puzzle perigoso, onde os quadros de Leonardo Da Vinci são rampa para uma sociedade secreta cuja missão visa proteger um segredo guardado há dois mil anos.
O realizador escolheu-a depois de ter em mãos uma lista de actrizes gaulesas mais famosas e adultas. Uma aposta, segundo ele, ganha pela capacidade que a jovem teve em se adaptar ao papel. “Audrey tem uma qualidade única que, dado os elementos místicos de ‘O Código Da Vinci’, a tornou absolutamente perfeita”, refere antes de concluir tratar-se de uma mulher “tão enigmática quanto acessível”.
Com Audrey Tautou a surpreender a plateia norte-americana e Tom Hanks a brilhar a grande altura, a fórmula espalha-se por duas horas e meia e tem tudo para dar certo: o livro vendeu mais de 40 milhões de cópias em todo o mundo, a Igreja Católica continua a alimentar a polémica em seu redor, Ron Howard reuniu uma equipa de luxo e, principalmente, já mostrou conhecer de trás para a frente a fórmula para arrebatar os principais Óscares.
A caminhada rumo à noite mais aguardada de Hollywood começa na próxima quarta-feira, quando a película abrir com pompa a edição deste ano do Festival Internacional de Cinema de Cannes. Falta quase um ano até à atribuição das estatuetas douradas e ninguém parece melhor colocado para deslindar o código da Academia. Pelo menos por agora as peças encaixam todas na perfeição.
‘O Código Da Vinci’
Género: Thriller/Drama
Realização: Ron Howard
Actores: Tom Hanks, Audrey Tautou, Paul Bettany, Ian McKellen
NO LOUVRE PELA CALADA DA NOITE
- Um dos aspectos mais curiosos de ‘O Código Da Vinci’ em versão para cinema é ter sido rodado parcialmente na Grande Galerie do Museu do Louvre, ponto de partida para a história de intriga e mistério escrita por Dan Brown. Tudo porque as autoridades francesas deram permissão à equipa de produção para rodarem no local onde Mona Lisa revela todos os dias o seu sorriso enigmático a milhões de visitantes.
- Ron Howard não cabe em si de contente por lhe terem dado tamanha oportunidade: “É um pouco como entrar numa cave, acender a luz e vermos aquelas formações fantásticas. Quando estamos no Louvre sozinhos sentimos como se estivessemos numa caverna cheia de tesouros de arte. Como realizador é fabuloso estar diante do volume de trabalhos que reside naquele local.”
- Habituado aos cenários construídos a rigor mas sempre plásticos, Tom Hanks também se mostra radiante com a abertura das portas daquela instituição cultural a altas horas da madrugada. “Sentimo-nos extremamente privilegiados por podermos filmar ali. Foi um magnífico toque para o filme.” O conceituado actor sublinha ainda a estada noutros locais, como a inglesa Lincoln Cathedral, utilizada após a não autorização por parte de quem dirige a mundialmente famosa Abadia de Westminster – diz-se que os direitos para filmar na Lincoln acabaram por custar 150 mil euros. “Estivemos em muitos sítios mencionados no livro, com todos os espantosos significados que carregam. Sem dúvida, ajudou-me enquanto actor a entrar ainda mais na personagem de Robert Langdon. Foi uma experiência muito diferente de guiar até a um estúdio de Hollywood todos os dias e entrar no palco 6 para filmar as cenas.”
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