Triste sina de Vanessa

Torre número 5, Bairro do Aleixo, Porto. No 12.º andar, porta 122, uma criança é espancada e enfiada em água a ferver. Aguentou três dias. Em agonia. Foi atirada ao Douro, já morta. O pai e a avó foram presos. Vanessa, tinha cinco anos e queria ser professora.

08 de maio de 2005 às 00:00
Partilhar

Nos dias de escola levantava-se mais cedo. Vestia-se à pressa, passava a água pelos olhos, uma escova pelo cabelo e corria para a cozinha. “Vamos, vamos”, repetia, enquanto trincava duas bolachas e bebia um copo de leite, às vezes com chocolate. “Vamos”, insistia, enquanto rodava o trinco. Tinha cinco anos, queria ser professora. Quinta-feira, dia 28, o sonho de Vanessa esfumou-se, quando a meteram à pancada numa banheira com água a ferver. O pai e a avó, a avó ou o pai. Não se sabe. Pouco importa. O coração ainda bateu até domingo. Foram três dias de sofrimento, de agonia. Ninguém lhe ouviu sequer um gemido. Ninguém se apercebeu. Nem quando a morte bateu à porta amarela do 122 da Torre número 5 do Bairro do Aleixo, entre a noite e a madrugada.

O seu corpo foi encontrado, domingo, pelas 09h00, a boiar no Douro, perto do Cais de Gaia, a cerca de cinco quilómetros do local do crime.

Pub

“Não ouvi nada. Aliás, nunca dei por barulho naquela casa. Nem naquela, nem no resto da Torre. É um sítio sossegado, uma Torre calma. Toda a gente ficou surpreendida”. Daniel Gomes, 33 anos, desempregado, ex-militar. Mora no 121, ao lado da casa do terror, no alto da Torre, no 12.º andar. Vive com a companheira, também desempregada, e um filho, fruto de uma relação anterior da mulher. Estão à espera de outro. Quer ver se arranja emprego como instrutor numa escola de condução. Até lá, vão contando os tostões do rendimento mínimo.

Ana da Silva, 70 anos, viúva, mora dois andares abaixo, no 103, com os dois filhos, ela de 43, ele de 44. Foi para a Torre em 1975, pouco tempo após a sua construção. “Vai para trinta anos que estou aqui e nunca ouvi nada. Vi algumas vezes a menina no elevador, com a avó, a Lola. Sempre me pareceu bem”, conta a D. Anita, como é conhecida na Torre número 5. A filha, doente, não sai de casa. O filho trabalha “de noite”. Vive remediada, com o subsídio do falecido.

PALAVRA PUXA PALAVRA

Pub

Deolinda Margarida, 62 anos, que vive no 104 com o marido, uma filha, o genro e quatro netos, vai ouvindo a conversa. Torce o nariz, limpa os óculos, franze a testa, murmura. A páginas tantas, não resiste a meter a colherada., para começar por dizer nada: “Eu cá não sei da vida de ninguém”. Mudou-se para a Torre nos primeiros tempos da Revolução dos Cravos. O marido também já está reformado, esteve empregado num armazém de ferragens. A filha tem uma pequena loja de aromas e o genro vende guloseimas. “Quando trabalhava, era casa-trabalho, trabalho-casa. Era profissional de armazém”. Mas, palavra puxa palavra, lá vai desfiando a história do diz--que-diz-que, com algumas garantias pelo meio: “Há aqui coisas muito estranhas. Não acredito que tenham levado a menina a pé até ao Cais de Gaia. Ou foram de autocarro ou de táxi”.

“O que me faz espécie”, diz a D. Anita, “é que nunca se ouviu um grito, nunca se ouviu coisa nenhuma. Dizem que a fechavam na dispensa, que lhe davam porrada, Não percebo. Nestas casas ouve-se tudo”.

“Aquilo, tapavam-lhe a boca”, atira Deolinda, para logo lançar uma acusação: “Ali o do oitavo é que deve saber qualquer coisa…a Vanessa passava lá o tempo”.

Pub

D. Anita corre em seu socorro: “O namorado da Sandra, a tia da menina, mora no oitavo andar com o filho. Quando aconteceu a tragédia, a rapariga disse que ia contar tudo. Mas a avó da menina ameaçou-a: ‘contas tudo e acontece o mesmo ao teu filho’, referindo-se ao filho da namorada. A pequena, a caminho dos 19 anos, entrou em pânico e fugiu para casa do namorado. No dia do enterro apareceu com um ramo de flores brancas na mão, mas aconselharam-na a ir embora. Morava no 121, sabia o que se passava…”.

As ‘fontes’ de D. Anita estão correctas: Sandra sabia tudo. Viu tudo. Assistiu a tudo. E foi graças ao seu testemunho que as autoridades conseguiram montar o puzzle do crime. “No domingo à noite até houve tiros. Foram disparados do oitavo para o décimo segundo. Eu não ouvi nada, a minha filha é que se levantou a ver o que se passava. Há aqui um vizinho que até guardou uma bala (invólucro)”, conta Deolinda. “A Lola ia para os bailes e deixava a Vanessa a brincar com o filho do namorado da Sandra. Têm de saber mais qualquer coisa…”, insiste Deolinda.

“Vá lá bater-lhes à porta. Sabem tudo”, sugere D. Anita, enquanto dá de beber às plantas.

Pub

Truz-truz-truz. Ou não estava ninguém, ou não quiseram abrir.

Ana Moreira, 30 anos, habita o 33 do 3.º andar. Mora com os pais e dois filhos. Um terceiro rebento vem a caminho. Está desempregada. O sustento da família vem do rendimento mínimo. “Aquilo passou-se tudo lá para cima, no 12º. Aqui ninguém sabe da vida de ninguém. Há uma discussão ou outra entre vizinhos, nada que não aconteça noutros prédios. Vi a menina várias vezes, com a avó, mas não dei por nada de estranho. A Vanessa andava sempre asseada, bem vestida. Não havia uma marca de maus tratos, nunca vi sequer a avó dar-lhe uma bofetada. Tratava-a bem. Ainda nem acredito que lhe tenham feito aquilo…”.

D. Maria, 40 anos, desempregada, também lhe custa a acreditar na história que a Sandra contou à polícia: “Meter a menina numa banheira de água a ferver? Até me arrepio só de pensar”, diz a moradora do 14, no 1.º andar, habitado por mais cinco pessoas: o companheiro – “trabalha, mas não está cá…” – e quatro filhos.

Pub

“A Lola aparecia por aqui muitas vezes, no café, com a Vanessa pela mão. Era uma menina muito tímida, a gente estava sempre a dizer-lhe ‘fala, diz alguma coisa’. Andava sempre a brincar. Era muito bonita. Parecia uma boneca. Tinha uns olhos lindíssimos! Claro que uma coisa é o que se vê cá fora, outra é o que se passa em casa”, diz a D. Maria.

PAI AUSENTE

Todos conhecem a avó, todos viram a menina, poucos falam do pai. Toxicodependente, Paulo Pereira, 26 anos, feitos a 23 de Abril, também conhecido por Paulo ‘Galinha’, frequentava outras paragem. Talvez a Torre 1, o centro da droga’ do Bairro do Aleixo, onde se compra, vende e consome 24 horas por dia. É a primeira do conjunto das cinco torres que compõem o bairro.

Pub

Foi para aqui que a Vanessa veio viver quando completou cinco anos de idade. Até então, a criança morou com a madrinha de baptismo, Maria Rosa, na Rua do Monte dos Pipos, número 285, no lugar de Gatões, Guifões, Matosinhos.

“A minha filha Vera andava no mesmo curso da Sónia, a mãe da Vanessa. Dois meses depois de nascer, veio ter comigo cá a casa e disse-me se podia ficar com a Vanessa, que não podia tomar conta dela”, conta a mãe ‘adoptiva’ da criança.

“Durante dois anos vinha vê-la com regularidade. Depois, desapareceu. Não dei mais notícias”, conta Maria Rosa.

Pub

“A última vez que a Sónia veio ver a filha foi a 4 de Março de 2002, no dia em que foi baptizada. Recordo-me bem da data, porque foi o dia em que caiu a ponte (de Entre-os-Rios). Nem sequer veio ao enterro. Apareceu-me cá em casa na quarta-feira (dia do enterro), dizendo que não tinha tido conhecimento de nada. Fartou-se de chorar, mas pouco falámos. Sei que tem um companheiro e está grávida, e pouco mais”.

Vanessa era uma criança feliz. Segundo Carla Bastos, 24 anos, uma das duas filha de Maria Rosa, recorda os primeiros tempos da ‘irmã’. “Brincava muito, era muito fiteira. Nunca estava quieta. Adorava brincar ‘à escola’. Não havia brincadeira que não metesse livros e canetas. Dizia que era professora, que queria ser professora. Comia bem, comia de tudo. Iogurtes, sopinha, puré… Gostava muito de papa e adorava frango assado”.

Aos três anos, a família ‘adoptiva’ inscreveu-a no pré-escolar, passando, desde então, a frequentar a Escola da Lomba, em Matosinhos.

Pub

Vanessa era uma criança feliz. Tratava Maria Rosa por mãe e Manuel Bastos, o seu marido, por pai – que não esqueceu, em data alusiva (19 de Março de 2004), num cartão carregado de ternura.: “Sou pequenina, do tamanho do botão, trago o pai no bolso e a mãe no coração. O bolso estava roto e o pai caiu ao chão; apanhei-o com jeitinho e meti-o no coração”. Este cartão, do Dia do Pai, ilustrado com desenhos pintados pela sua mão, revela bem o carinho e o apego de Vanessa à família adoptiva, na companhia dos ‘pais’ e dos seus ‘irmãos’ Hugo, Vera e Carla.

Entretanto, a família cresceu e, por altura do seu baptismo, chegou o ‘primo’, o Gonçalo, primeiro rebento da relação entre Vera e Hélder Fernandes. Passou a ser o seu melhor amigo. Era com o Gonçalo, dois anos mais novo, que se entretinha no pequeno jardim da casa, entretanto transformado em horta, tendo por companhia a Xani e a Fani, duas cadelitas de palmo e meio. Da mãe biológica tinha uma ideia, do pai não fazia ideia nenhuma e da avó Aurora muito menos.

O pesadelo de Maria Rosa, que acabaria por se transformar no calvário de Vanessa, começou a 13 de Agosto de 2004. “Era o dia de anos da Vanessa, tinha a casa cheia de miúdos. O pai, que nunca cá vinha, chegou e levou-a. Nunca mais cá veio, mas aquilo era um sinal…”, conta Maria Rosa.

Pub

CUNHO DA MORTE

O sinal chegou pouco tempo depois, com o cunho da morte, quando a avó, chegada do País de Gales, começou a lutar pela custódia da neta. Aos Bastos fizeram-lhes ver que a criança estava muito melhor com eles, mas Lola não desistiu. A 1 de Dezembro de 2004, alegando ter na sua posse uma ordem do Tribunal que conferia a custódia da criança ao pai - foi buscar a Vanessa e levou-a para o 122 da Torre número 5 do Bairro do Aleixo, onde passou a viver juntamente com o pai, Paulo ‘Galinha’, e a tia Sandra, filha de Lola. Havia, de facto, um processo de poder paternal a decorrer, mas a decisão ainda não estava tomada. A comunicação chegou segunda-feira. Vanessa tinha sido encontrada morta na véspera.

Foi duro para a família adoptiva, violento para a criança. Ficou combinado, ainda assim, que Vanessa iria passar, pelo menos, os fins-de-semana com a família adoptiva, mas o trato não passou das palavras. Maria Rosa ganhou coragem, saiu de Guifões e foi ao Bairro do Aleixo “para ver a menina”. Entrou na Torre número 5, subiu no estranho elevador do prédio – a largura é mais do dobro do comprimento – e tocou à campainha. A avó disse que o pai a tinha levado. Esperou. O pai veio, mas Vanessa não. Afinal, tinha ido para o oitavo andar, brincar com o filho do namorado de Sandra. Tocou. Voltou a tocar. Nada.

Pub

Regressou a Guifões, na certeza de que não a voltariam a ver. “Eram desculpas atrás de desculpas. Quando lhe ligava não atendia, quando ia ter com ela dizia que a neta não estava em casa”, conta Maria Rosa. De repente, abre-se uma porta de esperança. A avó diz que está a pensar regressar ao país de Gales e que a Vanessa poderá voltar para casa da família adoptiva. Num sinal de boa vontade, deixa-a passar lá o Carnaval. “Veio a correr e atirou-se a mim. Chamou-me ‘madrinha’, mas depois, quando a tinha nos ombros, segredou-me ao ouvido: ‘A avó não gosta que te chame mãe’. Foi a última vez que a vi. Tentei várias vazes encontrar-me com ela, mas sem resultado”. Vanessa, contudo, não esqueceu a mãe’. E sempre que a avó lhe perguntava “de quem gostas mais, de mim ou da Maria Rosa”, a criança respondia invariavelmente: da madrinha.

CENÁRIO DANTESCO

Quinta-feira, Lola e Paulo decidiram resolver os ciúmes à porrada. Não satisfeitos, meteram-na numa banheira de água a ferver. Um cenário dantesco, presenciado pela tia Sandra. Depois, andaram a bater às portas em busca de remédios para apagar as marcas da violência e aliviar o sofrimento. Evitaram o hospital, para evitar perguntas. Condenaram a criança à morte. Vanessa não resistiu aos ferimentos, sucumbindo três dias depois, domingo.

Pub

Foi encontrada por Custódio Lopes Dias nas águas do Douro, junto ao Cais de Gaia, para onde fora levada pelo pai e pela avó, cerca dos 06h00. “Estava a passear à beira rio mais cedo do que é habitual, pois a minha mulher esteve adoentada nessa noite. Saí de casa pouco antes das nove horas, e quando caminhava olhei para o rio e vi um vulto que parecia ser um boneco. Comecei a cismar e pensei se seria um bebé. Para ter a certeza chamei uma pessoa que estava a passar numa bicicleta e ele também ficou com a ideia de que era uma criança. Como não conseguimos alcançar o corpo, fui chamar o meu filho, que trabalha no café mesmo em frente ao rio, para nos arranjar um pau. Mas não foi preciso, porque o Douro estava calmo e com a ondulação o corpo chegou à berma. Tirámos o corpo e vimos que tinha umas marcas nos pulsos e os olhos bastante esbugalhados, mas pelo estado do corpo vimos logo que não estava na água há muito tempo. Eram 09h12 quando liguei para o 112 e os mergulhadores e Bombeiros chegaram pouco depois. Fiquei chocado com aquele cenário e lembrei-me logo da minha neta, que tem a mesma idade. Depois de chegarem as autoridades saí logo dali porque estava impressionado”.

Terça-feira, Paulo Pereira e a mãe foram detidos pelas autoridades. O depoimento da tia Sandra terá sido determinante. Paulo e Lola acabaram por confessar os maus tratos. Presentes ao juiz de instrução criminal, vão aguardar julgamento em prisão preventiva. São acusados do crime de maus tratos a menor. Agravado pela morte, punível com pena de três a dez anos de cadeia, e ainda do crime de profanação de cadáver (no sentido da ocultação), punido com pena de prisão até dois anos ou multa até 240 dias.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar