Um amor relâmpago
A Joana é hospedeira de bordo, o Peter é camionista. Ela é portuguesa, ele, belga. Conheceram-se na Feira de Santarém, há três meses, e agora casaram. Por amor, ela vai viver para Bruxelas. A lua-de-mel é no camião.
Se o amor à primeira vista faz ou não sentido pouco interessa nesta história. A Joana é a primeira a reconhecê-lo: “Oh amiga, ao início nem dei nada por ele”. Mas ele, o Peter, belga, sentou-se sem aviso à sua frente num jantar de amigos, em Santarém. E a vida dos dois mudou, sem que então o soubessem. Falaram toda a noite, riram muito, descobriram afinidades. Em inglês. Ao terceiro dia – não mais se largaram – deram um beijo, o primeiro. Dois dias depois estavam noivos. Em três meses casaram. Foi no sábado passado que disseram ‘Sim’, debaixo de uma oliveira do jardim da casa de férias da Joana, em Santarém, perante 100 convidados.
Se me contassem, diria que é daqueles guiões com ritmo cinematográfico, que só acontece aos outros, aos amigos dos amigos que ninguém conhece. Mas esta é a história de uma amiga minha. Mais: é a história que mudou a vida dela. E dele. Como amiga da Joana, como jornalista, tinha de partilhá-la, de dividir momentos como aquele em que a tia e madrinha da Joana, Graça, surpresa com a notícia do casamento relâmpago da sobrinha com um belga de quem nunca ouvira nem falar (o enlace foi marcado em Agosto, a um mês de se realizar, no passado dia 16), perguntou: “Onde foste tu arranjar esse noivo?” A Joana respondeu. A verdade: “Fui à feira e apaixonei-me”.
DIA PERFEITO
Num sábado soalheiro de Junho, o do dia de Portugal (10), Joana foi à Feira da Agricultura em Santarém com a Fátima, amiga de confidências desde o Porto, onde a Joana viveu a adolescência antes de ir para Lisboa, para a Portugália Airlines (PGA), como hospedeira de bordo. “Marcamos sempre férias juntas e a Joana tinha-me convidado para passar uns dias na casa dela de Santarém. E como a Bridgestone-Firestone estava pela primeira vez na feira sugeri irmos visitar os meus colegas”, explica à Domingo a Fátima, de 34 anos, operadora da filial do Porto da empresa de pneus. Foram e logo a Joana foi apresentada ao Peter, motorista de um camião que ajudou a construir para a multinacional de pneus (fez os sistemas hidráulicos), e mecânico de profissão, em Bruxelas.
Como hospedeira fluente em línguas, sobretudo inglês, acabou ‘empurrada’ para perto do Peter, quando nessa noite jantaram com a equipa da Bridgestone. “Caramba, agora vou ter de fazer de cicerone deste gajo!“, pensou a Joana, sem, no entanto, se importar com isso: “Gosto que os estrangeiros sejam bem recebidos”. A tal ponto que, já a noite ia longa – e a fila de copos bebidos também – a Joana proclamou: “Vais-te apaixonar por Portugal!” E lá prosseguiam, sem saber, rumo à paixão que se ia adensando a par das conversas cúmplices.
“Tivemos uma sintonia enorme. A certa altura, disse-lhe: ‘Sempre que te falar em português, respondes-me em flamengo’ Foi a risota total.” O Peter confirma: “Já nessa noite senti algo especial. Estava sempre de olho nela e fiquei triste quando se foi embora (para casa). Senti-me muito confortável com ela”. No dia seguinte, antes de a voltar a ver, ele estava ansioso. Ela também: “Sentia-me ansiosa de ir para a feira e, quando não ficámos lado-a-lado para ver o jogo de Portugal na televisão (11 de Junho, durante o Mundial 2006), desatinei”. Sinais do inevitável. “E eles ainda nem tinham dado um beijo!”, lembra Fernando, inspector de vendas da Bridgestone, também presente na Feira. “Eu e a Fátima até brincávamos: ‘Estão à espera de quê?”
Joana e Peter não conseguiram esperar mais. Na terceira noite – de Santo António, padroeiro dos casamentos –, trocaram o primeiro beijo com o incentivo da Fátima e do Fernando, que, de certa forma, apadrinharam a relação. Fátima viria a ter um papel (quase) profético na relação dos dois. Por brincadeira, numa outra noite, “peguei em palhinhas do chão e fiz duas alianças. Disse os votos do casamento, eles disseram que sim e beijaram-se. Casei-os pela primeira vez”, brinca. No dia seguinte, sexta-feira, Peter ajoelhou-se e pediu a Joana em casamento. Trocaram alianças, as únicas iguais que havia na feira e que seriam replicadas (em ouro branco) para serem as alianças do matrimónio. O acto ‘solene’ aconteceu a 16 de Junho, exactamente três meses antes do dia do enlace oficial, pelo civil.
A CERIMÓNIA
“Onde está o meu noivo?”, perguntava, ansiosa. “Só quero que ele chegue para ir para ao pé dele”, desabafava às amigas, deslumbradas com o vestido da noiva. Escolheu-o de impulso, na primeira loja onde foi depois de tratar de toda a papelada para o enlace pelo civil – certidões, certificados de capacidade matrimonial… Com a ajuda da Vanda, a amiga e colega da PGA, demorou horas e horas a pintar na saia, a azul celeste, as palavras que compõem os votos matrimoniais. “Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe”, em inglês, a língua que uniu os dois apaixonados.
Quando em meados de Junho a Joana me telefonou e, de rompante, me disse: “Amiga, estou apaixonada, fiquei noiva e vou casar. Tenho alianças e tudo”, ia caindo para o lado. De tanto rir. “Estás a gozar?!”, questionei vezes sem conta, incrédula, mas com uma sensação de ‘fatalidade’ irrevogável. Conheço a Joana há cinco anos e nunca a ouvi falar assim, com tanta certeza. Como me disse a mãe dela: “Está convicta e nunca nos tinha apresentado um namorado. Dizia que quando o fizesse era para casar”. Em meados de Agosto, a Joana voltou a ligar. “Gosto cada vez mais dele!” O casamento estava marcado.
Também com a mãe, Ema, de 52 anos, os amores foram velozes. Casou com o Carlos, músico e pai da Joana, em meses e o enlace durou uma década. Em segundas núpcias uniu-se ao Hugo, militar, depois de três meses de namoro. Estão casados há 15 anos. “Ser um casamento rápido não me assusta. Até acho um bom princípio, não é cartesiano”, frisa o pai, rendido à felicidade da filha. Antes, quando a filha lhe disse que ia casar, a mãe desvalorizou: “A Joana diz que demorei quatro dias a cair em mim. Mas depois apercebi-me dos telefonemas constantes e das viagens”, reforça, lembrando o vai-vem da Joana e do Peter desde então – ela ia a Bruxelas de quinze em quinze dias, alternando com as vindas do Peter a Lisboa.
Para o Hugo, de 61 anos, as mudanças da enteada foram óbvias: “Deixou de ser a ave nocturna que era e andava sempre agarrada ao telefone”, lembra o padrasto que garante não ter tido dúvidas de que “o amor deles era para ser levado sério”, até pelo facto de a Joana ser “muito determinada e obstinada”. Já o Peter “é muito tranquilo, e com a Joana fazem um par equilibrado”, assegura a irmã do noivo, Sara. Soube da existência da Joana quando recebeu “uma mensagem escrita no telemóvel em que o Peter dizia que estava apaixonado e feliz. Um espanto! Ele nunca manda SMS.”
Ao melhor amigo Tom, de 32 anos, o Peter ia ligando sempre desde que saiu de Bruxelas, ao volante do camião TIR. Já quando conheceu a Joana e “começou a fazer noitadas com os amigos portugueses, os telefonemas foram escasseando”. Até àquele telefonema: “Há uma rapariga portuguesa de que gosto muito e parece que gosta de mim”. Já em Bruxelas, Peter desabafou: “Não consigo estar longe. Vamos casar”. “Estás doido?”, foi a reacção. “Mas ele foi muito persuasivo e está muito seguro”.
“Não há fórmulas para estas coisas”, diz o Fernando, que acompanhou este amor-relâmpago, Por isso, quando ao som de ‘What a Wonderful World’, de Louis Armstrong, a Joana desfilou até ao altar – uma mesa coberta com a toalha da sua primeira comunhão, feita pela mãe –, os olhos brilhavam e o sorriso não mais se desfez. Feliz! O conservador, António Mendes, ia sendo secundado por André Gouveia, intérprete e primo da noiva, que, por sua vez, era ajudado pela hospedeira-poliglota nas traduções mais hesitantes. ‘Love is in the Air’ soou com os noivos, já casados, de olhos ainda húmidos, as mãos ainda coladas.
DISCURSO
Dentro da tenda montada no jardim, o pai do Peter, Juliaan, deixou todos boquiabertos quando, num português (quase) perfeito, leu emocionado: “O amor não tem fronteiras”, começou, sob o olhar encorajador da mesa onde se encontravam a mulher, Live, os filhos, irmãos de Peter – Sara (28 anos), Karen (27) e Robin (26) – e os amigos. “Esta história de amor aconteceu surpreendentemente depressa; cresceu rápido como tudo o que cresce com o Sol e a água – o sol de Portugal, a chuva da Flandres. Isto pode ser o começo de algo muito belo”, proclamou, de olhos húmidos, menos do que os do filho, sempre de mãos dadas com a nova Mrs Deleebeeck.
A festa continuou e até a Joana cantou, virada para o marido em lágrimas, ‘You Are So Beautiful, So Beautiful to Me’. Mais tarde, em português e em flamengo, voltou a empunhar o microfone para ler um trecho do romance de Paulo Coelho, ‘Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei’. Na vida, como nos livros, “é preciso correr riscos, dizia ele. Só entendemos direito o milagre da vida quando deixamos que o inesperado aconteça. (...) Mas, quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante mágico”. A Joana e o Peter descobriram-no. E não o deixaram passar. Como ela diz: “Sinto-me abençoada”. “Fomos feitos para ficar juntos”, diz ele.
A OPINIÃO DA ESPECIALISTA
FACTORES ASSOCIADOS AO 'CASAMENTO RELÂMPAGO'
Karin Wall é socióloga e investigadora da Universidade de Lisboa, especialista na área da Família.
1. Filhos - A vontade de ter filhos está associada a uma passagem mais rápida para o casamento formal. Muitas vezes, também a vinda de um filho leva a casar rapidamente pelo civil ou pela igreja. No fundo, a vontade de ter filhos e a vinda de filhos sedimenta o casal e conduz ao casamento formal.
2. Idade - As pessoas mais velhas e as que acham que estão numa idade em que ‘já deviam’ estar casadas e ter filhos tendem mais rapidamente à conjugalidade. Podem ser pessoas com pressa de casar e ter filhos, pessoas mais velhas que se sentem sozinhas, etc…
3. Divórcio - A maior aceitação do divórcio na sociedade actual é também importante para apressar a conjugalidade. Se o casamento ‘não correr bem’, se houver ‘problemas’, o divórcio é bem aceite.
4. Valores - Podem influenciar a decisão de casar rapidamente, em vez de entrar na conjugalidade aos poucos, testando o funcionamento da relação antes do casamento. Por exemplo, a religião católica está associada a valores em que o casamento é visto como a única forma legítima de entrar na conjugalidade.
5. Distância - O facto de os namorados/cônjuges viverem longe um do outro ou em países diferentes pode acelerar o casamento/coabitação, na medida em que viver juntos, no mesmo país, é a única maneira de conseguirem estar perto.
LÁ FORA TAMBÉM OS HÁ...
Há enlaces que marcaram o mundo das celebridades. Entre o ‘coup-de-foudre’ (amor à primeira vista) e o altar foram dois passos. Às vezes, os mesmos até ao divórcio. Nem sempre. No amor não há regras… sem excepção.
- Britney Spears e Jason Allen Alexander: Às cinco e meia da manhã do terceiro dia de 2004, Britney Spears e o colega de escola Jason Allen Alexander deram o nó numa capela de Las Vegas. A decisão do matrimónio foi tomada num piscar de olhos. Como a anulação do enlace…decretada a 5 de Janeiro, dois dias depois.
- Carmen Electra e Dennis Rodman: Carmen Electra, bomba sexual de ‘Marés Vivas’, conheceu o basquetebolista da NBA, Dennis Rodman, e após um rápido namoro casaram-se em Novembro de 1998. Nove dias depois, ele pediu a anulação do matrimónio, alegando estar bêbado. Ficaram juntos mais seis meses.
- Nicolas Cage e Patricia Arquette: Conheceram-se em 1987 num restaurante de Los Angeles e no próprio dia Cage pediu-a em casamento. Mas acabaram por se afastar. Em 1995, voltaram a encontrar-se… no mesmo local. Duas semanas depois, em Abril de 1995, casaram. Divorciaram-se seis anos depois.
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