Um arquitecto português chega à Casa Branca
O mais importante sempre foi o espaço. Primeiro, pelos onze anos, o espaço cósmico. Inatingível. Filipe Oliveira Dias queria ser astronauta. Mas acabou por estudar Arquitectura. Pensando bem, não há assim tanta diferença entre o sonho infantil e a realidade do homem adulto. “O espaço é a minha profissão.
” O arquitecto, de 43 anos, fala do espaço em redor, que permite o movimento. E dos objectos que – tal e qual as estrelas e planetas no cosmos – nele estabelecem relações. Objectos como a cadeira que originalmente desenhou para o Teatro Helena Sá da Costa, no Porto, agora escolhida para sentar os jornalistas na sala de Imprensa da Casa Branca.
Desengane-se quem pensa que uma cadeira é só um assento com costas para uma pessoa. Há cadeiras pensadas para o trabalho. Outras para o descanso. Umas são para usar de manhã. Outras à tarde. Já a noite exige um assento completamente diferente. As de um café devem ser de uma maneira – não demasiado confortáveis, se possível até ligeiramente incómodas para que os clientes rodem. As das salas de espectáculos de outra – “confortáveis mas sem propiciar o adormecimento”. Foi com esta ideia em mente que, em 1997, Oliveira Dias concebeu a cadeira ‘Flame’, em português ‘chama’. Produzida dois anos depois, instalou-se – ou permitiu que nela se instalassem – em múltiplos auditórios de Portugal e do estrangeiro.
Quem decidiu a reformulação da sala de Imprensa da Casa Branca viu nela outras qualidades além do bem-estar em vigília. “É totalmente silenciosa na sua manobra”, confirma quem a criou, o que dá jeito quando há permanentemente jornalistas a entrar e a sair da sala, ansiosos por comunicar às redacções o que se passa lá dentro.
Que um arquitecto, profissão comummente associada à concepção de edifícios, se interesse por cadeiras não devia causar espanto. Num e noutro caso, “o desenho é fundamental” – e foi precisamente “a vocação para o desenho” que na juventude, mais ou menos esquecido o sonho espacial, levou Oliveira Dias a escolher o seu caminho.
Pensando bem mais uma vez, entre Design e Arquitectura não há assim tantas diferenças. Talvez apenas uma: a obra arquitectónica é fixa e ao objecto alguém pode pegar nele e levá-lo. Para a Casa Branca, por exemplo.
Oliveira Dias fala com o mesmo entusiasmo dos edifícios – nomeadamente das habitações sociais do Monte de São João, no Porto – e dos objectos. Não só da cadeira. Também da torneira com puxador boomerang e dos móveis assimétricos. “Não me peça para escolher entre eles. É como ter de escolher entre os meus filhos.”
TRÊS PALAVRAS PARA DEFINIR UMA OBRA
Se lhe pedem para definir em traços largos o seu próprio trabalho, Oliveira Dias remete primeiro para o desenho, pois é assim que consegue exprimir-se mais facilmente. Confrontado com a necessidade de palavras, diz as seguintes: “Contemporaneidade, futuro, cor.” É principalmente neste último aspecto que difere de arquitectos como Siza Vieira ou Souto Moura, menos dados à tonalidade. “No atelier usamos a cor com bastante mestria e interpretamo-la como algo que faz parte da vida.” Tal como a arquitectura. “Não é um luxo. Mesmo em Portugal começa a ser considerada um bem fundamental. Porque afecta a vida das pessoas.”
O trabalho no atelier e a docência na escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco não deixam Oliveira Dias sem tempo para ser pai, presente, de quatro crianças. O segredo? “Organização.” Passados os primeiros anos de profissão – “à moda dos arquitectos”, ou seja, com trabalho até altas horas da noite –, aprendeu o valor da qualidade de vida. “O trabalho corre melhor se nos levantarmos um pouco mais cedo de manhã. É menos proveitoso quando já estamos cansados e mesmo assim continuamos pela noite dentro.” No atelier não se trabalha depois das 19h00. Nem aos sábados. Muito menos aos domingos. Os filhos agradecem e a obra não perde. Quanto a Oliveira Dias, para quem a arquitectura tem tudo a ver com qualidade da vida, faz sentido que zele pela sua.
- Um País... Cuba
- Uma pessoa... O meu pai
- Um livro... Ver pelo Desenho, Manfredo Massironi
- Uma música... ‘The Köln Concert’, Keith Jarrett
- Um lema... Qualidade
- Um clube... Não tenho
- Um prato... Lampreia à Bordalesa
- Um filme... 2001, Odisseia no Espaço, S. Kubrick
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