Um mundo surreal

Do cartaz de espectáculos inesgotável, o mais arrebatador é o recital (afinadíssimo) de aves, cursos de água, répteis, mamíferos… e sem batuta de maestro.

22 de janeiro de 2006 às 00:00
Um mundo surreal Foto: Waqued Neto, Embratur/Rachid
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O oposto à Amazónia, onde a floresta abafada e húmida se aquieta a maior parte do dia num silêncio tumular. Aqui a vida explode em sinfonias de águas, ventos, bichos… e o canto do homem é como o do bardo da aldeia de Astérix. Mal o primeiro raio se divisa, trocam de posto os oradores nocturnos, os grilos (bem falantes), as corujas, os sapos, as pererecas… e dão lugar no púlpito à passarada. A revoada é a hora dos pássaros. Uma algaravia sonora, ora doce, ora belicosa, que se estende até onde a leva o eco. Entre os milhões de aves, o tuiuiú – uma variedade de cegonha, símbolo do Pantanal e a segunda atracção mais procurada por fotógrafos depois da onça-pintada – é um dos tenores mais possantes, com os seus dois metros da crista às patas, as penas brancas caídas pelo dorso como um manto de imperador, o pescoço cor de fogo e a cabeça negra.

A música ambiente (chill out) está a cargo de 650 variedades de artistas voadores, acompanhados, a capela, por roncos de macacos e esturros de onças. Consta, e deu para verificar, que é mais fácil encontrar uma família ruidosa de ariranhas (um dos 95 mamíferos da região) do que um clã de pantaneiros.

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Se dúvida houvesse da grandeza, os números arrumam o assunto: 35 milhões de jacarés (há mais jacarés que australianos na Austrália), 2,5 milhões de capivaras, 71 mil veados-campeiros, 35 mil cervos-do-pantanal, 15 800 ninhos de tuiuiús e 9800 manadas de porcos-do-mato. Depois, o Pantanal reúne exemplares de mata Atlântica, do cerrado e da Amazónia, como a vitória-régia, num total aproximado de 1800 espécies de plantas e paisagens diversas. Há ainda 263 espécies de peixes (na Europa do Atlântico aos Urales só foram identificados 200), 80 mamíferos e 50 répteis que habitam este laboratório de vida montado sobre um palco inédito de lagoas, brejos, cacimbas e corixos.

Uma sucessão de recordes gravados no Guinness, desde lambaris de 40 gramas a jaús com mais de 100 quilos, além de piaparas, pintados e dourados que fazem as alegrias dos predadores e do homem que tira da região mais de duas mil toneladas de peixe por ano. Alguns milhões de piranhas completam a fauna pantaneira que, ao contrário do mito, têm a carne humana nos alimentos de quinta categoria.

A regra é o visitante entrar na rotina do pantaneiro e da natureza: alvorada, saída para pescaria, cavalgada, passeio seguido de enche papo, bate-papo, papo furado, sesta, passeio vespertino, enche papo, bate-papo, ‘um kamasutra ecológico’ segundo o meu companheiro de andanças.

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Todas as fazendas da região oferecem passeios por terra e rio, pescarias, cavalgadas e a promessa (cumprida) de uma estada memorável. Entre os senãos, mentalize-se que nada está ao virar da árvore e a rudeza dos elementos é implacável. Os acessos são difíceis, as estradas irregulares, o calor abrasivo e a sensação de recuo ao Paleolítico (Superior) permanente.

A recompensa, porém, supera qualquer lombalgia, privação de luxos ou suadeira. Da experiência, maravilhosa a todos os títulos, faltou sobretudo a observação da piracema, o equivalente fluvial às grandes migrações das savanas africanas. Este é um dos grandes espectáculos do Pantanal do Mato Grosso e acontece entre Dezembro e Abril, a época em que metade da planície fica coberta de água, unindo os rios, formando lagos gigantes, canais e novos riachos. Nesta altura, e durante três meses, é proibido pescar e os animais selvagens, o gado e os homens migram para as partes mais altas.

Se ainda não esteve no Brasil comece a sua aventura por terras de Vera Cruz pelo Pantanal. Vai ver que não se vai arrepender. E terá certamente vontade de regressar. De regressar mais do que uma vez. É por estas e por outras que esta é uma sugestão a não perder.

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QUANDO IR

A melhor época é entre Maio e Setembro, o período menos chuvoso. No entanto, nos meses de Março e Abril, a descida das águas já permite ver toda a fauna. Evite a época das chuvas, de Outubro a Fevereiro, quando o calor atinge temperaturas entre os 35º e os 40º e os mosquitos saem da hibernação.

COMO IR

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A TAP (Tel. 707 205 700) voa todos os dias para São Paulo e Rio de Janeiro a partir de 820 euros, os melhores pontos de ligação a Campo Grande via Corumbá, voo que pode ser feito com a Varig (21 424 51 70).

ONDE DORMIR?

Conforme o acordo directo com um operador local ou com a fazenda, as hipóteses são extensas. As melhores estadas ficam na Estrada Parque, a quatro horas de caminho Campo Grande ou a 30 minutos de Corumbá.

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- Fazenda Bela Vista: Estrada Parque, km 26, Pantanal, Corumbá, Tel. 00 55 67 998 73660, www.pousadabelavista.com. A partir de 70 euros por pessoa (inclui pernoita, 3 refeições e 2 passeios).

- Fazenda Xaraés: Estrada Parque, km 17, Abobral Tel. 00 55 67 232 4224, www.xaraes.com.br, Duplo a partir de 120 euros.

Pode marcar directamente com as Pousadas e negociar caso a caso, mas se prefere uma viagem organizada, a opção da operadora é a mais aconselhada.

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- Open Door Turismo, Tel. 00 55 67 32 183 03, www.opendoortur.com.br.

- Águas do Pantanal, Tel. 00 55 67 242 1242, Aguasdopantanal@star5.com.br.

ONDE COMER?

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A regra é comer nas fazendas e qualquer uma das visitadas é irrepreensível. No caso da Fazenda Bela Vista, recomendamos o caldinho de piranha (o Viagra do Pantanal), o pintado grelhado e o souflé de goiabada.

Nota: Antes de partir marque consulta na Clínica de Medicina Tropical e do Viajante (CMTV) na Av. Liberdade, 129, 7º. Tel. 21. 322 5621.

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